Escândalo

A causa de tanto rebuliço? Uma cena de sexo oral

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

03 Agosto 2017 | 02h00

A plateia quase veio abaixo. Tinha gente pulando nas suas cadeiras. Ao meu lado, alguém gritou “Aí, negrão!”. Outro, mais atrás, gritou “Vai fundo!”. A causa de tanto entusiasmo, que transformava o cinema num estádio de futebol e a plateia numa turba incrédula, era o que aparecia na tela: uma cena de amor entre o ator negro James Brown e a atriz branca Rachel Welch. Onde já se vira aquilo? Foi no tempo em que qualquer mulher bonita que aparecesse na tela era recebida pelos homens na plateia com um som estranho, uma espécie de sugada lúbrica. Obrigatória, tanto quanto espantar o condor nas apresentações da Condor Filmes.

O tempo costuma nos ridicularizar. Lembrar o que éramos e o que fazíamos no passado é sempre um mergulho no embaraçoso, melhor evitar. A morte da Jeanne Moreau me lembrou o escândalo causado por Os Amantes, um dos filmes que ela fez com o Louis Malle. A Igreja tentou proibir a exibição do filme. Conservadores tentaram boicotá-lo. Houve manifestações na frente de cinemas que o exibiam. Espectadores que desafiavam o boicote eram hostilizados na saída dos cinemas, e não apenas com ameaças de ir para o inferno.

A causa de tanto rebuliço? Uma cena de sexo oral. Quem a via ou se escandalizava muito, se escandalizava pouco ou se perguntava por que tanto escândalo. Na cena, a cabeça do amante de Jeanne, um ator cujo nome ninguém se lembra, desaparece do quadro, rumando para o sul, e, durante o cunilingus, a câmera se fixa no rosto dela. O sexo, na verdade, é inferido e não visto, o que não o impede de escandalizar. Como na cena de James Brown e Rachel Welch, onde já se vira aquilo? Ou, no caso, onde já se sugerira aquilo que não se via?

Não sei se minha memória está rateando, mas estou quase me lembrando que - para agravar o ridículo - inventaram de mostrar Os Amantes em sessões separadas, para homens e para mulheres. Faziam isso em sessões da meia-noite de “filmes científicos”, que não passavam de filmes instrutivos contra doenças venéreas preparados pelo Exército americano, mais desanimadores do que excitantes. Sim, também já houve isso, um dia. Mantenhamo-nos longe do passado. 

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