Esboço de um gênio da modernidade

Traduzido, enfim, no Brasil, Stephen Herói mostra James Joyce buscando sua melhor forma literária; Dublinenses e Um Retrato do Artista Quando Jovem ganham novas edições

Caetano Waldrigues Galindo, O Estado de S.Paulo

16 Junho 2012 | 03h07

O ano mal chegou à metade, mas no Brasil 2012 já tem cara de Ano Joyce. Em todo o mundo deve ser assim. Com a entrada da obra do autor irlandês em domínio público a partir de janeiro deste ano esperava-se que toda uma leva de novas traduções e obras críticas viesse a público. Muitas vieram mesmo. Neste Bloomsday - quando os leitores de Ulysses comemoram o dia em que se passa a ação do romance (no caso, do ano de 1904) -, é oportuno comentar três lançamentos da editora Hedra capazes de oferece aos leitores uma visão privilegiada dos momentos de formação daquele que muitos consideram o maior romancista do século 20. O grande destaque é, sem dúvida, a publicação, pela primeira vez no Brasil, de Stephen Herói, o rascunho, por assim dizer, do primeiro romance de James Joyce, Um Retrato do Artista Quando Jovem - cuja nova edição sai em agosto -, por sua vez antecedido pelos contos de Dublinenses, agora reeditados,

Ninguém discute que Joyce (1882-1941) tenha deixado seu nome gravado definitivamente no cânone do romance com a publicação de Ulysses, em 1922. (O lançamento de Finnegans Wake/Finnícius Revém, em 1939, foi cercado de tanta polêmica que críticos como Harold Bloom, um admirador superlativo da obra, já chegaram a dizer que talvez sua assimilação completa nunca possa, ou deva, acontecer.) Mas o gênio de Dublin tinha apenas 40 anos em 1922. E sua carreira tinha começado muito antes disso. Vejamos as primeiras décadas de sua produção literária - precisamente o objeto dessas três edições da Hedra.

Em 1904, Stephen Dedalus, que era então o pseudônimo do jovem Joyce, publica numa revista irlandesa um conto chamado The Sisters. Em 1905, ele apresenta pela primeira vez a um editor um volume de contos, que se abre com aquelas Irmãs, e que ele intitula prosaicamente Dublinenses. Esse tom seco, direto, que o nome do volume já parece anunciar, vai marcar todos os relatos de um dos maiores livros de contos da literatura de língua inglesa, que se conclui com Os Mortos, o famoso conto que Vladimir Nabokov considerava mais que perfeito. Mas em 1905 Os Mortos ainda nem tinha sido escrito. O conto surgiu durante os nove anos em que o livro foi recusado 18 vezes, até ser enfim publicado, em 1914.

Esse Dublinenses vertido para o português por José Roberto O'Shea também é resultado de um certo périplo. Publicada originalmente em 1993, a tradução foi agora integralmente refeita, e conta com todas as vantagens que 20 anos de amadurecimento profissional forneceram ao tradutor. Mais do que isso, o volume conta com uma oportuna introdução de O'Shea, ilustrações e as três cartas do autor que se referem ao livro. Dois anos depois da publicação de Dublinenses, o primeiro romance de Joyce aparece com o título que até hoje não deixa de ser, referenciado, citado e reutilizado de Um Retrato do Artista Quando Jovem.

Romance de formação? Sim. Romance autobiográfico? Sem dúvida. Afinal, o Stephen Dedalus (já numa grafia um tanto menos alatinada) que assinava a produção de Joyce agora aparece aqui como personagem e descarado alter ego do autor. Grande reflexão sobre a arte, a vida, a história (nacional e individual) e a psicologia do artista, o romance de Joyce no entanto chamou principalmente atenção por sua forma inovadora. Para representar o desenvolvimento da mente de Dedalus, Joyce optou por uma técnica mimética que em breve encontraria seu apogeu no Ulysses. A forma do romance vindo dos temas do romance.

É assim que o livro se abre, famosamente, com uma página que evoca as primeiras lembranças de infância de Dedalus, numa linguagem que busca evocar não necessariamente o tatibitate de um menino que aprende a falar, mas os cacos das memórias do início de uma vida, seu pasmo diante do mundo e das coisas. Depois, o texto evoluirá, até atingir sua maturidade individual sob forma de entradas de diário, quando Stephen acredita já estar pronto, constituído seu eu, para dar forma ao mundo.

A tarefa de traduzir esse processo, de encontrar uma equivalência para essas metamorfoses em português coube agora a Elton Mesquita. Um nome novo, o tradutor se revela contudo alguém para se prestar atenção. Segura, versátil e muito bonita, sua prosa entrega ao leitor brasileiro um Retrato absolutamente afiado, acompanhado, também, de um belo aparato crítico, ilustrações e quase 200 notas de tradução. Mas o primeiro romance de Joyce, além de retratar uma evolução, também foi resultado de uma evolução.

Naquele mesmo annus mirabilis de 1904, Joyce publicara o ensaio Um Retrato do Artista. A partir daquele texto ele começou a elaborar o que seria um imenso romance autobiográfico que, segundo alguns relatos de contemporâneos, estaria com mais de mil páginas quando, num surto de frustração, ele se livrou do manuscrito. O motivo daquele surto é desconhecido. Uma versão fala na recusa de um editor. Outras mencionam uma briga conjugal (até o fim de seu longo casamento com Nora Barnacle, ela não entendia direito os esforços do marido em produzir livros que "ninguém entendia"). A forma como esse manuscrito teria sido destruído também parece ser mais matéria de lenda. Um relato menciona Joyce atirando as páginas ao fogo, de onde sua irmã teria conseguido resgatar apenas um fragmento, curiosamente nada chamuscado.

O que nos resta é o fato duplo de que, de um lado, foi a destruição daquele romance gigante que gerou o relato extremamente sintético de Um Retrato..., escrito sobre seus escombros, formado de suas cinzas, num ato de reescrita de extrema coragem, como sabe qualquer um que já tenha enfrentado o dilema de jogar fora uma quantidade relevante de texto. De outro lado, logo depois da morte de Joyce veio à tona aquele fragmento resgatado, que não tardou em ser publicado sob o título Stephen Hero (1944), dado pelo próprio autor. E esse Stephen Herói é, insisto, o carro-chefe das edições joycianas que estão chegando (também sai por aqui o infantil O Gato e o Diabo; leia abaixo).

Primeiro por se tratar, como disse antes, de um texto inédito no Brasil. Segundo, por gravar definitivamente o nome de José Roberto O'Shea (tradutor premiado e reconhecidíssimo) na história da recepção de Joyce no Brasil. Em mais uma edição extremamente bem cuidada (e os leitores brasileiros de Shakespeare estão mais do que acostumados ao rigor e ao detalhismo de O'Shea), que além de tudo se esforça para explicar as questões editoriais envolvidas no processo de se publicar um texto fragmentário, Stephen Herói nos dá a chance de contemplar uma etapa prévia da criação joyciana. Pois se Um Retrato... pode ser visto como um primeiro degrau para o Ulysses, é aqui, neste fragmento contínuo de cerca de 300 páginas, que trata especialmente dos anos de universidade de Stephen Dedalus que o leitor pode encontrar uma curiosa via de acesso à vida e às ideias do autor e seu alter ego.

Distante do formato episódico e elíptico que caracterizaria o Um Retrato..., Stephen Herói é um livro muito mais discursivo, no qual as discussões estéticas, filosóficas e éticas do protagonista com seus colegas e seu irmão são transcritas muito mais generosamente. James Joyce tinha o costume de carregar pedacinhos de papel nos bolsos, e vez por outra se levantava de uma mesa de bar, por exemplo, para, com a desculpa de ir ao banheiro, transcrever frases ou ideias que tivessem sido ditas ali. E em alguns momentos, na leitura do Stephen Herói, parece que temos acesso a essas notas, a versões mais diretas de conversas ou cenas que, depois, aparecerão destiladas e reelaboradas nos dois livros seguintes.

Só por isso, por funcionar como uma espécie de versão estendida de Um Retrato..., o livro já teria seu interesse. Mas é necessário lembrar que o Joyce que aos 22 anos publicou, em 1904, aquela primeira versão de As Irmãs já era um escritor formado, interessante - e tremendamente original. Qualquer fragmento de sua produção será uma leitura interessante.

Se ele veio a se tornar o grande renovador da forma-romance, isso se deveu em não pequena medida ao período de experiências que abarca seus primeiros contos, seus primeiros ensaios (recentemente publicados no Brasil na coletânea De Santos e Sábios, da Iluminuras), sua primeira peça de teatro (perdida) e, acima de tudo, o torso exuberante que é o Stephen Herói. Se ele veio a ser um dos maiores pensadores do humanismo do século passado, é exatamente seu período de formação que esse romance nos mostra. O surgimento de uma mente que, em poucos anos, se julgaria, nas palavras de Um Retrato..., capaz de criar na forja da sua alma a consciência incriada da sua raça.  

CAETANO WALDRIGUES GALINDO É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ, TRADUTOR. SUA VERSÃO DE ULYSSES FOI LANÇADA RECENTEMENTE PELA COMPANHIA DAS LETRAS

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