Epílogo viral

 Quando dois internautas que não abrem mão de suas opiniões começam a discutir furiosamente pela rede social, num debate aparentemente sem fim geralmente no post de um terceiro que nem os conhece, com uma argumentação em que não há vencedores e prova a radicalização do fraco e emocional discurso político atual (fraco porque é emocional ou emocional porque é fraco?), costumam encerrar a disputa com a máxima que se torna um epílogo viral: “Vai ler história!”.

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

09 Maio 2015 | 04h00

“Vai ler história!”, que não é argumento, mas um conselho presunçoso, quase uma ordem, como se apenas um lado a conhecesse, e a opinião contrária fosse uma versão deturpada dela, pode até encerrar uma discussão vencida pela exaustão, mas não muda a opinião de ninguém. 

A teimosia desse tipo de internauta aumenta a voltagem nas redes sociais e nos leva às perguntas: “O que se tem ensinado nas escolas? O que se tem lido no Brasil?”.

Uma das vítimas recentes foi Paulo Freire, o mais pesquisado pensador brasileiro, adotado em escolas americanas e grandes universidades, tachado de “marxista petista” pela simplificação do maniqueísta debate político, em que algum surfista irrequieto da onda “Fora Dilma!” deve ter descoberto no Wikipédia que esteve na fundação do PT, portanto ligado ao Mensalão ou Lava Jato e deveria ir para Cuba se estivesse vivo. 

Aliás, ir para Cuba é uma sugestão que vivo recebendo. Eu já fui a Cuba. E recomendo. Quando me mandam ir para Cuba, lamento que não me mandem passagens (agora tem voo direto), vouchers de um hotel e translado. Eu iria de novo. Também aceito a sugestão de ir para Miami. Já fui, é linda.

Um internauta ficou eufórico quando descobriu que nazismo vem de nacional-socialismo, portanto, concluiu, Hitler era socialista, e os socialistas são os verdadeiros fascistas. Passou meses tuitando a sua descoberta. Não sei se alguém teve paciência de elucidar a confusão semântica.

Já li coisas incríveis, como que a Rede Globo, fundada em 1965, foi responsável pelo Golpe de 1964. Aliás, ao elogiar a dramaturgia da empresa, milhares de internautas me excomungaram. Um blog com assento no iG disse que sofro de Síndrome de Estocolmo, “estado psicológico em que uma pessoa, submetida a um longo período de dominação, apaixona-se por seu agressor”. Exagero. Não me apaixonei por nenhum agressor, mas admiro a dramaturgia de Dias Gomes, Vianinha, Bráulio Pedroso, do departamento que adaptou João Ubaldo, Jorge Amado, Guimarães Rosa (no magnífico e ousado Grande Sertão: Veredas), Clarice Lispector, Lima Barreto, Nelson Rodrigues (em vários formatos), Erico Verissimo, exibiu obras como O Bem-amado, Saramandaia, TV Pirata (com todo pessoal do Asdrúbal Trouxe o Trombone associado ao Manhas & Manias). 

Vítimas da ditadura também costumam sofrer ataques e simplificações virtuais: comunistas, terroristas, assaltantes e sequestradores, que não lutavam contra uma ditadura, mas queriam implantar outra!

A Comissão Nacional da Verdade, que não veio para julgar, mas anexar uma “verdade”, incluiu um surpreendente documento de 60 páginas sobre a violação de direitos humanos dos povos indígenas. O relatório prova a existência de genocídio, tortura e até uma prisão em Governador Valadares (MG), o Reformatório Krenak, em que prendiam e torturavam índios “rebeldes”.

Os povos indígenas sofreram violações não esporádicas, mas sistemáticas, por ação direta ou omissão do Estado, como extorsão de terras. O antigo Serviço de Proteção aos Índios, do Ministério da Agricultura, foi substituído pela Fundação Nacional do Índio em 1967, do Ministério do Interior, o mesmo responsável pela abertura de estradas e política desenvolvimentista. A anomalia jurídica extinguiu o órgão tutor dos índios e passou para o controle direto dos militares (general Bandeira de Mello). 

Surgiram casos de violações associados à extração de madeira, minérios, à colonização e obras de infraestrutura. A apropriação de terras indígenas foi favorecida pela corrupção de funcionários. Não foi controlada a violência de grupos privados contra índios. Os panarás na década de 1970 sofreram remoções forçadas e um contato sem cuidados sanitários, que dizimou metade da população. O Ministério Público do Paraná, baseando-se na definição de genocídio da Lei n.º 2.889/1956, fala em genocídio no caso dos índios xetás. 

O projeto Brasil Grande da ditadura implantou o Plano de Integração Nacional. Ignorando a existência de povos indígenas na região, abriu estradas, como a Perimetral Norte e a Transamazônica. O ministro do Interior, José Costa Cavalcanti, admitiu que a Transamazônica cortaria terras de 29 etnias indígenas, incluindo 11 grupos isolados e 9 de contato intermitente, acarretando em remoções forçadas, que serviam também para liberar terras indígenas para a implantação de projetos agroindustriais. 

Um exemplo foi o documento em que Bandeira de Mello, ao negar em 1970 à empresa Vila Bela Agropastoril S/A uma certidão negativa de existência de índios nhambiquaras, acrescentou: “Logo que atraídos e pacificados e transferidos para a reserva definitiva, esta presidência poderá atender ao pedido de V.Sa”. 

Sobre os ianomâmis, o insuspeito ex-ministro da Justiça, coronel Jarbas Passarinho, reconheceu: “Logo que o Projeto Radam evidenciou a presença de ouro no subsolo, e a Perimetral Norte levou o acesso até a terra milenarmente ocupada pelos ianomâmis, que aconteceu? A morte de mais de 50% da tribo de Catrimani, causada por gripe e doenças, que não são mortais para nós, mas o são para índios não aculturados. Não foi só nessa tribo, mas em várias outras, onde que se deu a presença dos garimpeiros. Eles poluíram os rios com mercúrio, afastaram a caça pelo barulho, provocaram a fome e a desnutrição dos índios, enquanto contra nós se avolumava a acusação de que praticávamos o genocídio. Não era exagerada a denúncia”.

História que deveria ser lida.

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