Entre o real e o onírico

Caos urbano e surrealismo se encontram em 'Copacabana Dreams', de Natércia Pontes

André de Leones,

02 Fevereiro 2013 | 02h07

O conto que abre Copacabana Dreams, de Natércia Pontes, é intitulado Ao Ponto e Sem Sal. Nele, a narradora enfia a mão goela abaixo, arranca, frita e come o próprio coração. "A carne estava inervada, mas serviria", diz. "Àquela hora da noite ou do dia a fome se tornava tamanha que eu comeria qualquer coisa, não havendo restrições para a minha refeição." Eis aí uma maneira e tanto de informar ao leitor de que ele está diante de um livro que não fará restrições e que o melhor a fazer é estar pronto para tudo. Ademais, se pensarmos bem, um bom modo de trafegar por aquele famigerado pedaço do Rio de Janeiro é de peito não só aberto, mas esvaziado, deixando-se preencher pelo que surgir à nossa frente.

Copacabana Dreams é o segundo livro da jovem cearense Natércia Pontes (1980) - sua estreia se deu com Az Mulerez, publicado em edição da própria autora - e o primeiro por uma grande editora. Ela recorre a uma variedade de formas narrativas para compor essa Copacabana onírica, refletindo o que seja o lugar em toda a sua pluralidade desgovernada, para não dizer caótica. Temos, então, desde cenas curtas, instantâneos da vida do bairro e chistes até narrativas mais longas, algumas de caráter assumidamente surreal (como O Triste Fim da Senhora Pochete e Tênis Bamba ou Edifício Saban Flora), passando por referências cinematográficas e recortes poéticos que não raro pegam o leitor pelo contrapé.

A melhor dentre as narrativas inspiradas pelo cinema é Zigue-zague na Via Láctea, por meio da qual retornamos ao clássico cinema-novista Os Cafajestes, de Ruy Guerra. A autora precisa de apenas quatro linhas para resgatar Norma Bengell e Jece Valadão, cuja impetuosidade só poderia mesmo oferecer uma resposta à pergunta "P'ra onde é que cê vai?": "Copacabana".

Assim, mais do que simplesmente observar à distância, personagens e narradores estão pelas ruas sendo engolidos por bueiros (Beleléu), arquitetando o envenenamento do marido infiel (O Caso Veruza), espreitando a Estrela Nua Carla Camurati cortar, enrolar e fumar os pelos pubianos no quarto ao lado (noutra inusitada referência cinematográfica) ou tomando chuva de ar condicionado na av. Nossa Senhora de Copacabana (Ceninha). O movimento se dá quase sempre à altura da calçada, num livro que podemos, elogiosa e alegremente, chamar de pedestre. Vide a passagem que se segue, de A Felatriz: "O ator aposentado atravessando a avenida, as sobrancelhas pintadas de graxa, unidas, o rosto triste, triste, muito triste, meu Deus. A mulher caminhando oprimida, pronta para o cooper, fingindo que é bonita e que tudo vai bem, obrigada, até parece, apertada naquela calça de trapezista. A vitrine úmida e ensebada da padaria Santa Clara", (pág. 50).

Há contos que se limitam ao título (Leda Nagle Fala Algo Doce. Não Escuto Porque a TV Está no Mute) e outros que escorrem por páginas e páginas. Nestes, o que muitas vezes se sobressai é uma espécie de qualidade não só onírica, mas alucinatória, que, de certa forma, está prevista desde o título do volume.

Em Self-service Cor Salmão, por exemplo, o chão e as paredes do restaurante vão literalmente ruindo enquanto a jovem narradora se aproxima do velho decrépito sentado à mesa vizinha. Por mais que ela sinta uma repulsa física (do "emaranhado de cacos de dentes podres, verdes, cinzas, amarelados", da "língua trêmula e escura de cigarro") e metafísica (ela vê "o anúncio da morte" nos olhos de velho), há uma beleza inesperada nesse gesto que pesa como "o anúncio de um cataclismo incompreensível, repleto de flores azuis". Este é um dos melhores momentos de um livro francamente malcomportado, cujas maiores qualidades estão na recusa consciente em seguir quaisquer fórmulas e na estrutura circular que, em vez de sugerir um organismo fechado, parece dizer que Copacabana não tem começo nem fim.

* ANDRÉ DE LEONES É ESCRITOR,  AUTOR DO ROMANCE DENTES NEGROS (ROCCO),  ENTRE OUTROS LIVROS; PELA MESMA EDITORA,  LANÇA EM MARÇO TERRA DE CASAS VAZIAS

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