Entre gênios e gurus

Ele estava lá quando a bossa nasceu. Era um dos homens juntando uma costela do samba com outra do jazz para dar vida a uma criatura que ninguém sabia bem o que poderia ser até João Gilberto chegar com o esqueleto pronto. Ele também estava lá quando a bossa nova morreu. Ou melhor, teve seus barquinhos e carinhos sem ter fim bombardeados pela artilharia pesada da MPB, que deixou a meiguice poética da zona sul para pegar em metáforas de efeito moral, criadas em série para driblar a censura dos militares. Quando viu que o mundo havia ficado escuro demais para suas harmonias, Roberto Menescal se reinventou e foi para os estúdios. Convidado pela Polygram, a gravadora que lançou uma geração histórica de cantores brasileiros, acabou por se tornar seu diretor artístico e viver histórias nas quais só acredita porque esteve lá.

JULIO MARIA / RIO, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2012 | 03h10

Seus 75 anos vai ser festejado com uma série de shows e conversas no Teatro Net Rio, no Rio de Janeiro, dia 16, com Fernanda Takai e Erasmo Carlos; dia 23, com Wanda Sá e o grupo Bebossa; e dia 30, com Alcione & Emilio Santiago. 'Menesca' recebe o repórter em seu estúdio, em uma das ilhotas que ficam na Lagoinha da Barra, no Rio de Janeiro, e à qual só se chega de barquinho. Sobre cada artista, reserva uma grande história. Já sobre si mesmo... Só lendo para crer.

A história atribui mais genialidade aos criadores da bossa nova do que na verdade existiu?

Muito mais. O que a gente teve foi a oportunidade de estar no lugar certo, na hora certa. Eu ouvia o baixista que tocava comigo, por exemplo, e dizia: "Puxa, está errado isso aí." E ele: "Mas eu sempre toquei assim". A gente não estava preparado para aquilo.

Vocês sentiam falta de uma música para jovens?

Sim, muita falta. Eu adorava samba-canção, mas sentia que aquilo ia me levando para baixo. Tivemos uma clareza de raciocínio para pensar que o que havia era bonito, mas não a nossa música.

E não servia o rock-and-roll, inventado nos EUA alguns anos antes?

Éramos muito da harmonia e tudo o que queríamos na vida era ser um dos caras do jazz. Lembro de uma vez em que íamos fazer uma jam session e falamos: "Por que não fazemos um samba session?" Então a gente botou uns sofás na Faculdade de Arquitetura do Rio e recebemos o Tom Jobim, a Silvinha Telles, os Garotos da Lua, Baden Powell... Ninguém tinha dinheiro, mas um dava abrigo ao outro com muita vontade de fazer algo novo.

Tantos anos depois, dá para cravar quem afinal criou esse negócio de bossa nova?

É algo claro pra mim. Eu gostava muito dos sambas do Noel Rosa, mas quando eu ia tocá-lo, não conseguia me sair bem, minha batida era muito ruim. Aí o Carlinhos Lyra veio com seu violão e disse: "Eu faço um pouco diferente." O Baden, que era mais samba, chegou e falou: "Eu já faço assim." Oscar Castro Neves tinha outra batida. E isso foi se aprimorando até que apareceu João Gilberto. Aí um olhou para o outro e falamos: "É isso." Ele sintetizou tudo. E você sabe no que ele se baseou? O João queria fazer samba, mas no violão não dava para reproduzir reco-reco, agogô, surdo. Então ele descobriu o tamborim. Colocou a divisão do tamborim nas cordas (mais agudas) e deixou o baixo fazendo a parte do surdo. Nós não conseguíamos fazer igual a ele, mas cada um chegou a uma batida muito próxima.

Carlos Lyra não gosta muito de centralizar a invenção em João Gilberto.

Carlos é um craque. O grande desenhista da música é ele, mas para mim é claro que o tripé é João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes. São eles que eu chamo de "número uns". Eu, Carlinhos e os outros somos bons números dois. Isso não é demérito. Você só faz um gol lá na frente se tiver um cara aqui no meio do campo que arme a jogada.

Há um momento em que você passa a ser um homem de estúdio. Foi sua reação ao fim da bossa nova?

Quando chegou 1964, eu e Ronaldo Bôscoli falávamos sobre isso. Não estávamos metidos com política e sabíamos que nossa música não era trilha para essa época. Não sabíamos se aquilo (a MPB, a Era dos Festivais) duraria um ano ou mais. O fato é que começou a durar demais e a gente não quis fazer música sobre terra, patrão.

Os bossa-novistas foram muito silenciosos nesse momento. Harmonicamente falando, o pessoal da MPB não deu alguns passos para trás com relação ao que vocês haviam construído?

O que ganhou notoriedade a partir daí foram as letras. Na hora em que você cantava: "Mas a terra é de ninguém..." As pessoas começavam a gritar, não importava o acorde que estivesse por trás. Eu fiquei muito triste com a parte musical, mas fui estudar orquestração, e isso me reergueu. E aí tive um convite para ser produtor e um ano depois diretor artístico da gravadora Polygram.

E aí lançou gente como Raul Seixas... Raul foi engolido pelo personagem que criou para si mesmo?

Sem dúvida. Ele era muito inteligente, muito criativo. Seu parceiro Paulo Coelho, na minha concepção, era o maluco. Raul era o beleza que depois ficou maluco. Paulo também queria criar tudo. Veio para mim e disse: "O que você acha de criarmos uma reportagem que mostre nós com o John Lennon?" "Mas como?", perguntei. "Ah, deixa com a gente", ele disse. Foi lá e montou uma foto em que apareciam ele, Raul e o John Lennon. Mandamos esta foto para a imprensa e os jornais a publicaram. Aí veio a história dos discos voadores. Não tinha disco voador nenhum, mas as pessoas os viam nos shows. Era tudo combinado. "Raul, quando falarmos da Sociedade Alternativa, você diz 'ih, olha o disco voador. Olhem pra trás!'" Todo mundo no show virava e procurava pelo disco voador. Até que um dia o Raul viu de verdade e aí ficamos preocupados. "Rapaz, vocês estão malucos. Olha lá o disco voador", ele dizia. Eram três que não estavam vendo contra um que estava. Foi aí que começamos a perder o controle do Raul. O personagem foi ficando mais forte.

Isso não era algo comum?

Muito comum. Alguns artistas, como Raul, vão indo embora aos poucos. Chegou um ponto em que pensamos: "Vamos aproveitar o quanto der porque logo vamos perdê-lo." Mas havia outros de quem lançávamos um compacto simples e dez dias depois o cara estava com o dedo na tua cara dizendo: "Eu quero uma casa no Morumbi!" Eu dizia que não estava entendendo. E ele: "Mas não tem que entender."

E quem foi esse?

Seria chato dizer, até porque essa pessoa ainda está aí tentando vencer. Esses caras ficam no meio do caminho.

Há algum artista em quem você tenha se apegado mais?

Nara Leão foi minha irmã desde os 12 anos. Eu a protegi muito, até o fim. Quando soube que ela tinha três meses de vida, por estar com um tumor cerebral, parei com a Polygram, parei com tudo. Nara sobreviveu por quatro anos e eu fiquei os quatro anos com ela. Era o que eu tinha de fazer com a pessoa que eu amava. Fui procurar o desconhecido para salvá-la, queria saber quem fazia tratamentos alternativos. Ela topou e nós partimos para isso. Quando fomos ver uma espécie de guru, depois de passar por gente que falou até em abrir sua cabeça com um machado, ela disse: "Eu sei que eu tenho três meses." E o guru: "Quem disse? Ninguém tem o direito de dizer isso."

Guru?

Sim, não posso dizer o nome, é um desembargador que alguns chamavam de bruxo. Posso garantir que o que ele fazia não eram bruxarias. Eram energias, e tudo comprovado por tomografias e acompanhado por médicos.

E qual era a dele? Espiritismo?

Nunca tentei me aprofundar, mas ele dizia que tinha uma entidade dentro dele e que de uma época em diante havia ganhado essa dádiva para tratar das pessoas. Ele pedia coisas que não eram de outro mundo. Evitar tomar sol, por exemplo, falava sobre a dieta que Nara deveria seguir. Durante sua sobrevida, fizemos três discos, inclusive um em que ela canta Over in the Rainbow em português. Ao final, ela ri e diz "essa música é para um bruxinho amigo meu." Foi seu último disco.

Ele falava sobre música?

Quando eu perguntava o que viria de novo, ele dizia: "Nós estamos terminando um século. Não tem mais nada para vir." "Então eu estou perdido", eu dizia. "O que é que eu faço?" E ele: "Não faz, refaz". Disse para eu pegar alguém que não estivesse fazendo sucesso para refazer algo e então eu peguei o Emílio Santiago, que estava em uma fase ruim, e fiz com ele a série Aquarela Brasileira. Foram ao todo sete volumes. Ele nunca tinha vendido mais de 10 mil discos. O primeiro comigo vendeu 850 mil.

Ele diz quando virá o novo?

Como sempre, na década de 20. E por quê? Quando surgiu a Semana de Arte Moderna? 1922. Quando o samba surgiu? Anos 20. E o jazz? Anos 20.

Mas a sua geração criou tudo nos anos 50 para os 60, não?

Mas isso porque já havia uma forma estabelecida, a do jazz. Daí surgiu a bossa nova.

Você parecia ser um pouco mais normal, Menescal...

(Risos) Queria achar mais as minhas anormalidades. Achei tanto nos outros...

Você precisava mesmo se preocupar com o novo?

Quando chego em Cingapura, vejo um teatro com 2.200 pessoas aplaudindo com os pés, batendo os pés no chão. Pensei até que fosse terremoto. Quando chego na Austrália, vejo um teatro lotado para nos ver. Isso nos mostra que o mundo ainda guarda grandes possibilidades para a bossa. Sinto que a Coreia do Sul é a bola da vez. Já toquei em um festival da Dinamarca para 200 mil pessoas. Quando que a bossa nova fazia show para 200 mil pessoas no Brasil?

A bossa nova está viva?

Ela está viva se for sempre bem remixada, rearranjada.

E a bossa em sua forma original?

Bossa nova, da forma original, só vale se for com João Gilberto.

Nem tão 'normal' quanto parece,

Roberto Menescal faz 75 anos como patrimônio de uma história na qual só acredita porque

esteve lá

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