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Como milhões de brasileiros, estou intrigado com um “entre”. Com a proposição que indica uma relação de espaço, separando coisas ou pessoas. E estados de realidade, pois o “entre” pode definir tanto um transitório “entreato” quanto a passagem definitiva para dentro de alguma coisa (entre a verdade e mentira, por exemplo, quando escolhemos mentir ou dizer a verdade...).

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Roberto DaMatta

09 Março 2016 | 02h00

“Entre, por favor...”, falamos para os que são recebidos na porta de nossa casa e são assim reconhecidos e tirados da rua. Eis a velha liminaridade de que falava Victor Turner, da qual eu tanto abusei na minha obra, sendo hoje notícia e razão imperativa de uma narrativa plausível e convincente para tirar o Brasil de um “entre” revelador de seus valores mais profundos – império ou República, família ou partido, cidadania ou privilégio, esquerda ou direita, legalismo ou ética, transformação ou mistificação, atitude ou coragem, probidade administrativa ou propinas –, pois todo “entrar” implica um “sair” e vice-versa. E como não se pode, a despeito de nosso vezo conciliador, estar em dois lugares ao mesmo tempo, quando se entra num espaço – “em cana”, por exemplo; define-se e desenha-se um outro papel social.

Dois fatos preparatórios (ou “preliminares”) da “sexta-feira do entre”, dia 4 do corrente, dividiram o Brasil. O primeiro, foi a suposta delação premiada de um senador, líder do governo, ao qual não se pode negar um conhecimento detalhado dos bastidores da tragédia brasileira que todos vivemos. Mas a “delação premiada” tem um tom de perfídia ou de dedurismo nos quadros dos valores brasileiros voltados para a lealdade aos companheiros, pois, entre nós, a fidelidade carimba (como a Lava Jato tem provado) o amor à casa e à família (essas instituições que sobrevivem a todas as crises sempre atribuídas ao “governo”, ao “regime” e ao “Estado”). Ademais, trata-se de uma confissão. É um “entrar” no território alternado no qual se cortam os laços cordiais da amizade e do compadrio, para abraçar a fria e individualizada regra da lei. Muda-se do eu para o nosso, da parte (e do partido!) para o todo.

O segundo evento foi a “condução coercitiva” na qual a Polícia Federal (com ênfase no Federal!) levou um ex-presidente, um líder messiânico, um político populista intuitivo e puro-sangue com um trajeto único (e certamente exclusivo) dentro da história política nacional, a depor. Muitos Luiz Inácio da Silva vivem e morrem esquecidos aos milhões no Brasil. Mas Lula é a neve nos trópicos, é a água no deserto, é samba na Suíça, é o rompedor não só das prisões sociais dos pobres brasileiros substitutos dos escravos, mas um vencedor de temidas repressões do governo militar. Pobre, ele passou fome. Vindo do Nordeste em pau de arara, ele sobreviveu à rejeição de um pai tirânico e se juntou às lides operárias mais nobres, como a dos metalúrgicos e aos sindicatos que ousavam fazer o que os empresários temiam: greves em plena ditadura. Foi essa trajetória que o impulsionou (com ajuda da intelectualizada esquerda e de uma mídia desafiadora) como um foguete e lhe deu, graças a uma bendita maquiagem burguesa – a do Lula paz e amor –, a presidência bisada, ao lado da popularidade que lhe permitiu inventar sua sucessora, a qual governa por uma segunda vez, mas que, tanto na forma quanto no conteúdo, é o seu justo oposto.

Diante desses episódios, existem duas atitudes. De um lado, os lulistas (mais do que os petistas, os irrecorríveis radicais e os oportunistas) assumiram, com o ex-presidente, a posição da negação expressa no “Você sabe com quem está falando?!!!”. Nela, o discurso utilizado é da vitimização e do ultraje. Uma narrativa hierárquica e familística, a qual revela o velho sistema no qual a elite pode tudo fazer, porque uma ideologia do legalismo, avessa a todas as éticas, protege a suposta vítima daquilo que seria um crime, caso as mesmas coisas fossem feitas por um adversário ou por um inferior. Nesse discurso, o “homem comum”, que vive nas agruras de um liberalismo assolado por todo o tipo de crise, não existe. Ou não deveria existir.

O outro discurso é o do “jeitinho” o qual, como revelou minha querida colega e amiga Lívia Barbosa, concilia, inventa pontes e escolhe ficar exatamente no meio, satisfazendo aos dois lados.

Em outras palavras, estamos entre a cruz que acarreta uma dolorosa, mas necessária, análise de nós mesmos como a única saída para esse “entre”; e a velha conciliação que tem um “jeito” para tudo, sobretudo quando o sujeito é um superior.

Do lado messiânico, temos o Moisés, com as tábuas da lei, um triplex e um sítio em Atibaia, obtido por meio de propinas, queixando-se de que um patriarca não está sujeito aos mandamentos, pois ele os engloba. Mas, no mundo de hoje, todos são também cidadãos aos quais se cobra o bom senso igualitário, que ensina a fazer o mais difícil: dizer não a si mesmo!

Entre essas posições exemplares, vive a ideologia do legalismo mágico (a lei resolve o costume) e a sua sombra: como os papéis ou cargos que ocupamos nos coagem e obrigam a descobrir o que é suficiente para cada um de nós. O que não é mais possível é confundir poder com onipotência. A República (que pertence a todos) não pode ser negociada. É isso que está na ordem do dia.

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