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Ensina-me a viver

Fábio Porchat

Eu nunca fui exatamente um bom aluno. Posso garantir que muito do meu desinteresse nas matérias é porque eu não via utilidade nenhuma nelas para a minha vida. Por que eu tenho que saber a velocidade do trem A durante a colisão com o trem B? Nem de trem eu ando. Pra que eu quero saber a fórmula de Báskara ou quanto vale o pi? Quando que o gerente do banco ia ligar e avisar que minha conta estava negativa em menos xis raiz de dois sobre quatro bê? E o interior da molécula? Pra que perder meu tempo com isso? Da mesma forma, não me interessava saber sobre cabelos negros como as asas da graúna... Eu entendia que, nessa fase escolar, tudo tinha que ser estudado, mas não aceitava que, não saber o símbolo do metano na tabela periódica pudesse me fazer repetir de ano. Errar o português, ok. Não saber porcentagem, ok. Não saber o valor de X, faça-me o favor. E quando eu perguntava o porquê de ter que aprender o inútil, o que me respondia a maioria dos professores? Porque cai no vestibular. Eu tinha uma raiva dessa resposta. E se eu não quisesse prestar o vestibular? Estaria aprendendo de trouxa? E "aprendendo" é modo de dizer, porque, obviamente, eu decorava, fazia a prova e 30 segundos depois não fazia a mais vaga ideia do que vinha a ser uma hipotenusa.

Professores do Brasil, deem sempre exemplos práticos para os seus alunos de porque cargas d'água ele precisa aprender aquilo. Associe o aprendizado com a vida real, com as profissões. Muitos adolescentes e pré-adolescentes não sabem o que vão querer ser da vida, então mostre possibilidades. Eu resolvi fazer teatro e vejo, hoje, o quanto tudo aquilo que eu achava inútil poderia ter servido para mim. Afinal qualquer profissional tem que entender tudo o que acontece em torno de seu trabalho. Eu, como ator, preciso saber da iluminação do teatro, de maquiagem, de câmera, de roteiro, de movimentação em cena e como uma ação pode interferir no todo...

Mas de que me adianta agora eu me tocar que eu podia ter aprendido muito mais? Eu tinha que ter me dado conta disso lá trás. Alguém tinha que ter mostrado pra mim que tudo vale a pena ser investigado e apreendido. Incentivar o aluno a entender, a pensar, se interessar, é diferente de fazer o aluno estudar. Estudar é chato. Ninguém gosta de estudar. A gente gosta é de saber. Ainda mais com a internet, onde o conhecimento está muito mais ao alcance. Eu não preciso do professor pra me dizer como uma célula se reproduz, o Google me dá essa resposta. E no meu quarto ainda por cima. Porque o aluno não precisa de respostas, ele precisa de perguntas. Ele precisa querer saber. O desafio do professor é fazer uma mitocôndria instigar alguém. Isso que é desafio!