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Ensaios de Hermann Broch ganham primeira edição em português

'Espírito e Espírito de Época' discute o kitsch na modernidade e revela um grande teórico da cultura

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

14 Março 2014 | 21h35

Publicado pela primeira vez no Brasil, o livro Espírito e Espírito de Época – Ensaios Sobre a Cultura da Modernidade (Geist und Zeitgeist: Essays zur Kultur der Moderne) reúne seis ensaios do escritor austríaco Hermann Broch (1886-1951), mais conhecido por monumentos ficcionais como A Morte de Virgílio (1945) e a trilogia Os Sonâmbulos (1931-1932), relançados há três anos pela mesma Benvirá. A edição alemã de Broch tem 12 volumes, quatro deles dedicados aos ensaios e um à poesia do autor. É lícito esperar da editora, dedicada à recuperação da obra de Broch, que os livros restantes cheguem igualmente ao mercado brasileiro. 

Broch tem sido identificado como um autor cuja preocupação formal e ambição literária encontram correspondência em seus amigos Robert Musil e James Joyce. A Morte de Virgílio (traduzido por Herbert Caro) é um exemplo do cruzamento híbrido – e sinfônico – que marcou essa literatura. Prosa poética sobre o último dia do poeta Virgílio, o livro, dividido em quatro partes, traça uma relação analógica entre a mudança das estações e a transformação final de Virgílio, decidido a destruir seu grande poema épico Eneida ao concluir que a poesia é inútil numa sociedade corrompida e hostil à cultura.

Grande teórico da cultura, Broch foi um dos principais ensaístas europeus (ao lado de Adorno) a estudar o kitsch na modernidade, tema do primeiro ensaio de Espírito e Espírito de Época. Associado a objetos vulgares, cópias de mau gosto da cultura erudita, o kitsch assume nas mãos do austríaco uma outra dimensão, ocupando o papel central nesse ensaio. Broch insere o kitsch na nefasta herança do romantismo do século 19, associando-o à decadência fin-de-siècle. Emile Zola não produziu literatura kitsch, mas esbarrou nela ao registrar sua convicção socialista e anticlerical. Mas, quem produz kitsch, alerta Broch, não é, de modo algum, alguém que faz arte de menor valor. Os exemplos são inúmeros, dos pré-rafaelitas a Tchaikovski. O austríaco prefere ver no kitsch um fenômeno ligado à ascensão das massas ao poder – e o ensaio, vale lembrar, foi escrito em 1933, ano em que Hitler foi nomeado chanceler.

Ligando-se o primeiro ao segundo ensaio, escrito em 1934, o leitor tem a chave da interpretação do fenômeno cultural de uma época essencialmente trágica, marcada pelo avanço do nazismo (e Broch foi uma de suas vítimas), pelo desprezo à cultura de vanguarda (chamada de “arte degenerada” pelo regime hitlerista) e por uma incômoda afasia das massas. A conferência que dá título ao livro começa pela análise de Broch do descrédito na palavra que tomou conta da humanidade. A confiança na palavra, conclui o escritor, “foi radicalmente perdida” nos anos 1930 – e parece que ele está falando não da Alemanha de Hitler, mas vislumbrando o nada admirável mundo de 2014, da vulgaridade do Big Brother, da bestialidade do pancadão, da violência das massas e da demolição retórica que acabou com a comunicação interclassista no mundo.

No terceiro ensaio, James Joyce e o Presente (1935), Broch discursa sobre o autor com o qual mais se identifica, analisando não só a revolução formal provocada por Ulisses – que funde o épico ancestral e o satírico moderno – como a técnica do fio condutor que o irlandês teria tomado de Wagner, embora essa não possa ser confundida com a do compositor alemão. Wagner é tratado por Broch como um oportunista, que usou a ópera como forma de expressão sob medida para agradar à nova burguesia europeia, em busca de um sucedâneo para a monumentalidade das catedrais (não esquecendo que Broch, judeu de nascimento, se converteu ao catolicismo). Wagner, observa, era “pomposo e naturalista, racional e romântico, sentimental e sombrio”, mas, principalmente, um obcecado pela mitologia desprovido de senso ético e humor. Ainda assim, um gênio, “rechaçado e atacado por seus contemporâneos”. Nietzsche o compreendeu e “desmascarou a sua época” – e também ao compositor, que teria vislumbrado o vácuo dessa era sanguinária. A síndrome da “obra de arte total” wagneriana, que preencheria esse vazio, conclui Broch, só poderia mesmo ter como consequência sinistra o nazismo – anunciado quatro décadas antes em passagens da ópera O Crepúsculo dos Deuses (1876), “um enaltecimento do ser alemão e do destino alemão”, segundo Broch. Wagner foi para ele a “apoteose teatral” desse desejo insano de escravizar o mundo e encurralar os deuses em sua morada.

Faltou a Wagner o que Bach tinha de sobra, o conhecimento do sagrado. Não era a “obra de arte total”, mas a compreensão dos mundos inferiores e superiores que fez de Bach o espírito capaz de participar do êxtase universal, segundo a concepção de Broch, que volta a Hitler – e a todos os ditadores, por extensão – no último ensaio do livro, justamente dedicado aos direitos humanos. “Quem não é escravizado mal vê a escravização do outro, no máximo a percebe como uma espécie de incômodo”, escreve, lembrando que a identificação com o “duro senhor” era comum na Alemanha de Hitler. Ela prosseguiu, continua Broch, até nos campos de concentração, “nos quais os internos torturados se identificavam com seus algozes da SS”.

Esse ensaio é de 1949. Broch, detido na Áustria em 1938, e solto graças aos esforços de Joyce e outros escritores, já morava, então, nos Estados Unidos, longe do pesadelo nazista. Viveria ainda dois anos, planejando voltar à Europa e dando demonstrações de uma reconversão ao judaísmo no fim da vida.

Foi na Europa, afinal, que ele produziu seus melhores romances e ensaios, entre eles Mito e Estilo Maduro (1947), em que desvincula Kafka dos existencialistas franceses, mostrando como sua ética vai além das fronteiras da literatura, ao contrário do últimos, que, segundo ele, “permanecem no interior das tradições literárias”. A filosofia pode às vezes falhar, mas não a literatura feita com consciência, parece dizer Broch.

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