Encontros com o Estadão

Há como comparar o assassinato do general Wissan al-Hassan - morto na semana passada - ao de Rafik Hariri, ex-premiê há alguns anos, ambos em Beirute? Para Carlos Eddé, líder do Bloco Nacional (partido que faz parte do Movimento 14 de Março), as duas mortes - bem como outros crimes políticos que ocorreram desde 2004 - têm a mesma assinatura, o mesmo modus operandi. "As vítimas pertencem ao mesmo lado político. O fato é que o regime sírio e o Irã, de uma maneira ou de outra, controlam o Líbano há mais de 25 anos", explica o neto do premiê Émile Eddé e sobrinho do reconhecido Raymond Eddé.

O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2012 | 03h12

Cristão de tradicional família de políticos, filho de brasileira, Eddé não acredita, entretanto, em uma nova guerra civil agora. "Não é provável, mas não posso dizer que não seja possível". Do Líbano, Eddé conversou com a coluna. A seguir, os principais trechos da conversa.

Desde 2008, após o acordo de Doha entre as várias facções libanesas, até agora não houve atentados no Líbano. Por que pararam e por que recomeçaram?

O acordo de Doha entregou ao grupo pró-Assad e pró-iraniano posições-chave na estrutura de poder do Líbano. Isso ocorreu após o golpe de estado armado do Hezbollah, no dia 7 de maio de 2008. A ideia era formar um governo de união nacional entre as forças soberanas do Movimento 14 de Março e o Hezbollah e seus aliados. Eu fui o único a me opor a esse acordo, alegando que não se faz uma política de apaziguamento com regimes ditatoriais e terroristas. Eu tinha razão: pouco tempo depois, o grupo que defende nossa soberania foi expulso do governo, e o Hezbollah retomou o processo de consolidação de seu controle sobre o estado libanês.

Já existia o Hassan?

Pois é. Tentaram, todos esses anos, substituí-lo por alguém fiel ao regime sírio. Não conseguiram. O general teve sucesso em desmascarar até uma rede de espionagem israelense chefiada por um dos mais próximos colaboradores do general Michel Aoun - que hoje passou para o lado dos sírios.

Algum outro feito dele?

Ele também conseguiu impedir vários atentados a bomba, especialmente prendendo o Michel Samaha, político libanês mais fiel ao presidente sírio. Pegaram o carro dele repleto de bombas. E Samaha acabou confessando ter recebido ordens do Bashar al-Assad para executar atos de terrorismo no Líbano com intuito de desestabilizar o pais. Mataram ele também.

Se o regime sírio controla o governo libanês, por que cometer esses crimes e correr o risco de perder o controle da situação no Líbano?

O controle sírio do governo libanês pode acabar após as próximas eleições parlamentares, dentro de poucos meses. Além disso, a situação na Síria está ficando mais difícil para o regime. Assad acredita e declarou que, arrastando os países vizinhos para a crise, ele conseguirá melhorar sua posição. Em desespero de causa, não podendo controlar a Síria, ele prefere que a região seja dividida em várias pequenas entidades. Para isso, tenta provocar o desmantelamento do Líbano. É uma estratégia perigosa, que não terá êxito e provocará grandes massacres.

A situação está chegando a um limite? Qual a probabilidade de haver uma escalada da violência depois deste último assassinato? É possível, mas estamos vigilantes para não cair na armadilha da violência. Por outro lado, é difícil prever o comportamento de assassinos.

O fato de a situação da Síria estar tão crítica afeta o Líbano?

O Líbano é afetado de várias formas: economicamente, quase toda a produção agrícola é exportada para outros países árabes por caminhão, através da Síria. O Líbano vive de turismo o ano todo: os restaurantes e hotéis estão vazios. Impacto psicológico: investimentos estão sendo postergados, e muitos elementos produtivos e empresas estão pensando em deixar o Líbano para se realocar em outro país. O impacto político é que divide mais ainda uma sociedade que já está cindida.

Se Assad cair, como isso pode afetar os cristãos na região?

Tudo depende de quanto levará para o regime cair. Quanto mais tempo e maior a violência, maior a possibilidade de ver um regime fundamentalista sunita tomar o poder. Os cristãos sírios, e principalmente as lideranças religiosas, apoiaram o governo Assad. Isso foi um grave erro, que poderá ter consequências na Síria. Não acho que haverá repercussões graves para os cristãos do Líbano, apesar da preocupação.

O Líbano já foi um país predominantemente cristão. Hoje, não é mais. Há chance de os cristãos serem expulsos de sua terra?

Não acredito em expulsão, mas há um processo de erosão, devido a vários fatores: diferença de taxa de natalidade (que é bem menor para cristãos), proporção maior de cristãos viajando por motivos econômicos, e poucos destes voltam para o Líbano uma vez estabelecidos no exterior. Parte dessa migração se deve à qualidade do ensino. Um grande número de jovens libaneses poliglotas e bem preparados tecnicamente que não encontram trabalhos interessantes no Líbano e são solicitados por multinacionais.

O Irã financia o grupo, mas, com o conflito na Síria, o Hezbollah perde algo de seu apoio logístico. Afinal, as armas passam pela Síria. O que acha disso?

Estou seguro de que, com a queda de Bashar al-Assad, a situação do Hezbollah mudará. Primeiro, perderá apoio de um vizinho aliado e terá, em troca, um regime hostil, devido ao fato de que o Partido de Deus está participando em combates e na repressão ao lado das forças do regime sírio. Além do mais, se hoje o Hezbollah representa a maioria dos xiitas do Líbano, com a mudança que a queda do regime sírio acarretará, muitos deles se afastarão do Hezbollah para autopreservação. Os xiitas foram perseguidos ao longo dos séculos e têm boa capacidade de readaptação. Eles têm um ditado que reflete esse comportamento: "Mais valem mil reviravoltas do que uma derrota".

O Hezbollah realiza serviços sociais de forma populista. Como o senhor vê esse tipo de ação?

Os serviços sociais e o dinheiro gasto em salários e bolsas de estudos são muito importantes para conseguir lealdade, especialmente considerando que o governo libanês está falido e não cuidou dos xiitas no passado. O clientelismo político é um fator primordial para conseguir apoio. E o Irã gasta muito. Porém, isso é uma faca de dois gumes: a população que se acostuma com esse tipo de facilidade sofrerá muito com sua falta. E sabemos que a situação econômica do Irã ficou muito mais difícil com a desvalorização da moeda e o tremendo aumento dos custos com o boicote da comunidade internacional.

Vai custar ao contribuinte iraniano muito mais para apoiar o Hezbollah. Até quando?

Não sei.

Há chance de o Hezbollah voltar à clandestinidade?

Quando o regime sírio cair, quando houver uma mudança no Irã e quando for estabelecida a participação desse partido nos assassinatos, acho que perderá sua influência e transformará. Não acho que eles tenham fôlego para voltar a ser um grupo clandestino.

Qual o real impacto do Hezbollah para o país e para a política externa do Líbano?

O Hezbollah, na verdade, não é um partido político libanês. É um braço dos guardas revolucionários iranianos e é composto por libaneses. Há uma nuance. Em sua doutrina, eles não se consideram libaneses, mas como pertencendo à nação xiita, seguidores da facção que acredita na volta do duodécimo imã oculto. Não escondem o fato de que obedecem, incondicionalmente, ao guia supremo da revolução iraniana, o aiatolá Khamenei.

O senhor acha que o Hezbollah pode mesmo atacar Israel?

Se for do interesse de Khamenei que o Hezbollah ataque Israel, essa ordem será executada sem hesitação, sem considerar as consequências para o Líbano ou as perdas civis - inclusive de suas próprias famílias.

Por que o Líbano não tem um acordo de paz com Israel? Acredita ser possível chegar a esse acordo?

O Líbano não pode e não deve assinar a paz com Israel enquanto não houver uma solução justa para o problema palestino.

E qual seria o melhor caminho para a uma democracia estável no Líbano?

O desarmamento do Hezbollah e uma lei eleitoral justa e mais moderna. O atual sistema é complicadíssimo, arcaico e encoraja o chamado voto de cabresto.

O senhor tem esperança de ver a paz no Oriente Médio?

Esperança, sim, mas não apostaria R$ 1 nisso.

A violência política é encarada com uma certa tranquilidade no Líbano. Por quê?

Nenhuma morte violenta é considerada normal, mas a natureza humana faz com que nos acostumemos a tudo. É como nós, brasileiros, que nos acomodamos com a violência urbana ou os assaltos e só reagimos quando nos toca de perto. É triste, mas a vida continua...

Se o senhor não fosse neto do presidente Émile Eddé e sobrinho de Raymond Eddé, ainda viveria no Líbano?

Não.

Teria optado pela política?

Com certeza, não.

E por que continua?

Porque, infelizmente, virei um formador de opinião. Pessoas prestam atenção no que digo e faço, e acho que trago uma certa racionalidade à política libanesa. Não me sentiria bem em sair enquanto as coisas estão indo tão mal.

O que aprendeu, quando viveu no Brasil, que pode levar ao Líbano?

Fazer política olhando para o futuro, enquanto que, nesta parte do mundo, as pessoas acham que política tem como objetivo acertar as contas com o passado.

Compare a política brasileira com a libanesa.

Percebo o mesmo grau de corrupção, porém o Brasil é um país rico, com uma população produtiva. Isso acaba compensando as perdas por ineficiência e roubo. Além do mais, existem questões adicionais no Líbano que não existem no Brasil - como o problema de identidade nacional, as várias divisões sectárias, as fronteiras indefinidas e a guerra com os países vizinhos.

/MARILIA NEUSTEIN

E SONIA RACY

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