Encontro em Salvador discute situação de cias. de balé

Grupo oficial da cidade, o Teatro Castro Alves, deve ser assunto principal do fórum O Papel das Companhias Oficiais de Dança na Contemporaneidade

Agencia Estado

14 Junho 2007 | 18h00

Pode-se prever que a companhia oficial de dança de Salvador, o Balé Teatro Castro Alves (BTCA), será transformada no assunto principal, nesta segunda-feira, 11, a partir das 19 horas, na Sala do Coro do TCA, na capital baiana. É quando começa o fórum O Papel das Companhias Oficiais de Dança na Contemporaneidade, proposto pela diretoria de dança da Fundação Cultural do Estado da Bahia e pelo Teatro Castro Alves. Dele participarão, entre outros, representantes da Câmara Setorial de Dança-Funarte/Minc (Sigrid Nora), do Balé da Cidade de São Paulo (Ana Teixeira) e do Fórum de Dança-Bahia (Suki Villas-Boas). Afinal, os jornais locais vêm noticiando com destaque a boataria que se instaurou a partir de declarações do novo secretário, o diretor de teatro Marcio Meirelles. Publicaram a sua intenção em acabar com os privilégios em gastos com a folha de pagamentos do BTCA, identificados em duas situações: 1) existiriam bailarinos ganhando sem dançar; e 2) existiria um acordo que adiciona 300% sobre o salário, tanto dos ativos quanto dos inativos, a partir da 10ª apresentação mensal - o que teria levado a companhia a realizar ensaios abertos para serem contabilizados como espetáculos. A divulgação das falas do secretário foi tomada como um aviso de que o BTCA seria extinto, comprimindo a riqueza e a importância do que elas sinalizam a um único item. Isso nubla o que mais importa, e que está no fato de ter sido tornada pública uma indispensável conversa em torno da função das companhias oficiais de dança do País. Curiosamente, é de novo Salvador quem sai na frente, a mesma cidade que deu ao Brasil, na área da dança, a primeira faculdade (em 1956) e o primeiro curso de pós-graduação stricto sensu (2005), ambos na UFBA. Seja lá onde vá dar essa conversa que agora se inicia, a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia já deve ser parabenizada pela iniciativa. Em primeiro lugar, porque a própria recepção à sua proposta já expõe um vício de comportamento, do qual raramente nos damos conta, e que se refere ao fato de as companhias oficiais serem mantidas à parte das conversas sobre as políticas públicas para a dança no País. Quando se discute o assunto, quando se toca em orçamentos para a área, as cias. oficiais são mantidas à margem. Como se o fato de serem oficiais as blindasse, e garantisse que o dinheiro que custam não fizesse parte das mesmas contas que definem as políticas públicas para a dança. Mas de chegar a discutir orçamentos, deve-se passar primeiro por outra questão: qual o papel e qual a função de uma companhia oficial no Brasil de hoje? Que modelos elas perpetuam? A única forma administrativa de existência para as cias. oficiais é a que hoje adotam? De onde vem o medo de se abrir uma discussão pública sobre o assunto? Pois se elas próprias se reuniram, no ano passado, também em Salvador, para melhor se conhecerem. A possibilidade de começar a tratar publicamente desses temas nos levará ao conhecimento da história da relação de cada uma das nossas cias. oficiais com as suas cidades, com os seus Estados e com as outras companhias do seu entorno. Afinal, até quando se entenderá uma companhia oficial como fruto de um direito adquirido que deve ser perpetuado? Por outro lado, a conversa em torno das cias. oficiais pode se transformar também em um saudável exercício de exorcismo de um dos piores males que assolam a área da dança: o corporativismo. Sem o saudável exercício da avaliação entre os pares, não se consegue transformar o que pede para ser transformado. É esse justamente o caso da cias. oficiais brasileiras de dança. Elas merecem a oportunidade de pensar outros formatos para si mesmas.

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