Empoderamento das misses

Um posicionamento político contundente era a tônica dos discursos das concorrentes

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2017 | 02h00

A ideia do concurso Miss Universo ignora a Renascença. Parece nascida na Idade Média, nos porões da Inquisição, em que blasfemaria quem negasse que a Terra era o centro de tudo.

Até novembro de 2017, foram catalogados 3.700 exoplanetas, aqueles que giram em torno de outros sóis, em 2.770 sistemas como o nosso. Mais de 5 mil exoplanetas descobertos esperam a confirmação. Muitos deles estão na relativa distância do seu astro rei, nem muito perto, nem muito longe, nem muito quente, nem muito frio, o suficiente para proporcionar vida.

Daqui a milhares de anos, quando virar rotina o convívio com seres de outros planetas, o Miss Universo contemplaria seres abissais horrorosos, como os do National Kid, uma híbrida vulcana parente de Dr. Spock, como em Jornadas nas Estrelas, aliens que babam em formato de lagostas gigantes, como os da franquia Alien, mondoshawans ou mangalores mercenários, como os de O Quinto Elemento, ou uma sorridente “na’vi” azul, de testa proeminente e orelhas pontudas, que mora em árvores, como as de Avatar?

Como seria possível comparar para julgar um belíssimo exemplar da raça humana, com dois braços e duas pernas, com uma plavalaguna azul de quatro braços, mangueiras orgânicas e voz esplendorosa, como a soprano Diva, de O Quinto Elemento? Ou mudarão os quesitos ou o nome do concurso.

No mais, problematizando, para que precisamos eleger a mulher mais bela? O que é melhor numa mulher do que em outra, a medida do quadril, o andar, a postura?

Apesar de exaltar as diferenças e a tolerância, o concurso contraditoriamente decide que, através da votação de um jurado e das redes sociais, algumas têm notas maiores do que outras, vencem etapas, passam por um funil; de mais de 90, vão para 20, que vão para dez, que vão para cinco, em que uma é anunciada primeira, outra segunda e outra terceira.

O figurino contempla trajes de gala (poderiam muito bem readaptar para trajes de balada) e trajes de banho. Trajes de banho? Não entram ensopadas de touca, roupão, robe, toalha, sandálias, deixando um rastro de pegadas. Na verdade, é traje de piscina-praia. Maiôs e biquínis. Alguns envoltos em cangas neutras.

O concurso não mudou na essência. As misses, sim. Envoltos por questões em que o discurso de fala é incentivado, os desfiles seguem o roteiro da minha infância, em que aprendi a ver entre minha mãe e quatro irmãs.

A sul-africana Nel-Peters, nova Miss Universo 2017, estudou administração de empresas na North West University. Depois de sofrer um sequestro relâmpago, em que queriam levá-la com o carro e se livrou desferindo um murro sem dó no pescoço do bandido, ação nada aconselhável por nossas polícias, que defendem o mantra “não reagir”, desenvolveu um programa de defesa pessoal feminina.

Concorreu com uma química que trabalha numa agência nuclear americana, Kara McCullough, duas engenheiras, a venezuelana Keysi Sayago, canadense Lauren Howe, e uma advogada especialista em direitos humanos, a Miss Grã-Bretanha, Anna Burdzy.

“Finalmente, passaram a valorizar mais coisas do que só os corpos da mulherada. Não que esse concurso faça sentido, mas OK, melhorou”, tuitou @luhaze.

Ao responder perguntas de praxe do apresentador, Nel-Peters disse que o maior desafio que as mulheres enfrentam no mercado de trabalho é que, segundo ela, em alguns países recebem 75% menos para fazer o mesmo trabalho que os homens e trabalhar as mesmas horas.

“Acho que isso não está certo. Deveríamos ter o mesmo salário para as mulheres no mundo”, completou ao vivo de um palco de Las Vegas para o Universo. A inglesa e a americana lançaram desafios para as mulheres do universo se empoderarem.

O concurso Miss Universo aposta na diversidade. Entre as dez mais, apenas uma loura, a engenheira Miss Canadá. Ela concorria com três negras, entre elas, Divina Bennett, Miss Jamaica, que estuda marketing na Universidade West Indies e toca a Fundação Divina Bennett para portadores de deficiência auditiva treinarem e inspirarem pessoas surdas, três latinas, uma chinesa, uma filipina surfista e barista, e a sul-africana.

Nada daquela pieguice do passado, de mulheres dopadas por contos de fadas, que sonhavam em salvar o planeta, combater a pobreza, casar-se com um príncipe e adotar crianças pobres. A venezuelana disse que, depois do concurso, volta a vestir o capacete para exercer seu ofício de engenheira mecânica.

Posicionamento político contundente era a tônica dos discursos. Feminismo, sexismo, racismo estavam na pauta.

A vencedora se posicionou contra a cultura do estupro, violência insana e sintoma grave da psicopatia social e do machismo, especialmente no seu país. E ainda foi irônica quanto a construção de estereótipos nacionais, ao brincar com o apresentador que não tem um leão de estimação em casa.

A belíssima miss brasileira, Monalysa Alcântara, ficou entre as dez. Sua fala foi oca. Falou algo como “o importante é a beleza interior”. Não levou.

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