Embaixada paraguaia

Liguei para a clínica com meu tradicional pânico de falar no telefone com portugueses

Ruth Manus, O Estado de S. Paulo

06 Agosto 2017 | 03h00

A grande rede cor-de-rosa de clínicas de depilação a laser tem diversas unidades espalhadas por Lisboa. Escolhi a da Rua Alexandre Herculano por uma dupla vantagem: ser perto de casa e configurar uma bela desculpa para passar na Buchholz e comprar dois ou três livrinhos que já não cabem em nenhuma das minhas prateleiras, tampouco nas horas do meu dia.

Liguei para a clínica, com meu tradicional pânico de falar no telefone com portugueses, dado que depois de quase três anos aqui ainda faço muito uso da leitura labial como forma auxiliar de interpretação do que me é dito. Uma moça simpática me atendeu, agendamos para terça-feira às 9 da manhã, se é que eu entendi bem.

Saí de casa às 8h52, acelerei o passo. Como sempre, as ladeiras de Lisboa dão o ar da graça e o músculo da coxa, que mal tinha acordado, precisa mostrar serviço. Muito bem, 9h01, lá estava eu pronta para essa alegria matinal.

Ao olhar para o edifício, logo vislumbrei o painel de campainhas e fui, segura e alegre, com meu dedinho indicador diretamente ao botão. Ocorre que, sem perceber, em vez de tocar a campainha do primeiro esquerdo, acabei tocando a do primeiro direito. Trata-se de um tipo de equívoco que me é bastante corriqueiro. E eis o que sucedeu no interfone:

– Bom dia.

– Bom dia, por gentileza, eu tenho horário marcado às 9.

– Com quem?

– Hum, desculpe, eu não me lembro do nome dela, mas acho que é Tania.

– Tania? Cá não há nenhuma Tania. Tens horário para quê?

(Neste momento fiquei bastante incomodada com a situação, dado que deveria berrar no meio daquela rua movimentada a zona a ser depilada com os raios pulsantes. Paciência.)

– Axila.

– Desculpe?

– É axila. Vou fazer a axila.

– Ó miúda, vais à clínica de depilação.

– Sim.

– Esta é a Embaixada do Paraguai, tocaste o primeiro direito, não primeiro esquerdo.

Dei um passinho para trás, afastando-me do interfone, e soltei uma gargalhada que poderia ser ouvida de Vila Nova de Gaia. Estou habituada a me sentir sempre um pouco ridícula, mas aquilo era mesmo insuperável. Neste momento era o músculo abdominal que vibrava, tentando conter uma crise de riso. Reaproximei-me do alto-falante.

Eu não sabia muito bem o que dizer ao senhor. Limitei-me a um “ah tá, desculpe”. Até porque, foi realmente muito peculiar a sensação de tentar fazer depilação na embaixada paraguaia. Um misto de sentimento de constrangimento e de culpa por aquela afronta à soberania do simpático vizinho sul-americano. Que coisa. Logo eu, que estudo Direito Internacional há tantos anos.

Entrei, tudo correu como esperado. Sensações de alfinetadas, conversas com a moça sobre os homens maus do nosso passado, pagamento no cartão de crédito. Agendei meu retorno para 60 dias depois. “Pode ser às 9?” E eu só pensava que não fazia a menor ideia da minha programação para uma data tão futura, quando eu mal sabia o que iria comer no almoço. Afirmei categoricamente que sim, poderia ser às 9, sem sombra de dúvida. Saí e fui direto para a Buchholz, onde comprei o livro do Hygge, modelo dinamarquês de felicidade.

Dois meses depois, eu voltei para a segunda sessão. Ao chegar, percebi que algo havia mudado. Reparei que nas campainhas haviam sido colados adesivos, esclarecendo que o primeiro esquerdo era a clínica de depilação e o primeiro direito as instalações da missão diplomática paraguaia. 

Confesso que me senti aliviada com a sensação de que eu provavelmente não era a única a cometer tal gafe. Um adesivão rosa identificando uma coisa, outro com a bandeira vermelha, branca e azul identificando outra.

Fico bastante contente que ninguém mais tente fazer a axila com o embajador Julio Enrique Gonzalez, nem tente resolver assuntos de Estado com a Tania. Melhor assim, cada um com a sua especialidade. Perdon cualquier cosa.

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