Tasso Marcelo/Estadão
Tasso Marcelo/Estadão

Em novo livro, Carola Saavedra busca temas diferentes e mais maduros

'O Inventário das Coisas Ausentes', publicado recentemente, mantém coerência com projeto literário da escritora

Guilherme Sobota, O Estado de S.Paulo

21 Abril 2014 | 02h08

"A história começa a se delinear. Será uma história de família", anota o escritor-narrador do mais recente romance de Carola Saavedra, O Inventário das Coisas Ausentes (Companhia das Letras). Tomando um rumo um pouco diferente dos livros anteriores, Carola investe, agora, numa investigação mais próxima da família e da política, mas, ainda, sem deixar de lado o amor.

O Inventário é um romance fragmentado, como de costume na literatura da escritora de origem chilena. O livro reúne, na primeira parte, as anotações de um escritor para um futuro romance, (talvez) realizado na segunda parte, que tem o sugestivo título "Ficção". A ficção dentro do romance é uma busca do personagem pela própria identidade, é a tentativa de ficcionalizar uma relação conturbada com um pai, que, já próximo à morte, tenta a reaproximação dolorosa com o filho distante.

As relações familiares, especialmente com a figura paterna, dão o ponto de partida do romance, que ainda toca nos assuntos amorosos (uma das frases recorrentes das anotações da primeira parte é "assim deve ser o amor", uma aceitação resignada capaz de definir a posição dos personagens em relação ao tema) e políticos.

"Eu sempre achei que para certos temas, os mais complicados, eu precisava de mais tempo e maturidade", diz Carola, na entrevista abaixo, concedida por e-mail. "Neste livro agora faço uma primeira aproximação."

O livro se divide em duas partes, mas na verdade a segunda é um desdobramento da primeira. Como você pensou e montou essa estrutura?

Em termos de estrutura narrativa, a primeira parte é a origem da segunda, já que se trata do caderno de anotações do escritor (onde ele reúne ideias, histórias, perfil de personagens, diálogos, etc.) e da ficção em si, ou seja, o livro que esse autor está escrevendo. É claro que isso é apenas aparência, já que na realidade ambas as partes são ficção. A ideia é proporcionar ao leitor um inventário do processo criativo do autor-personagem: de onde ele tirou suas ideias? No que ele pensava enquanto escrevia? O que é autobiográfico e o que é invenção? Um inventário impossível, é claro.

"Os livros nada têm a ver com a pessoa que nos tornamos. Os livros não têm culpa." Essa frase do seu narrador poderia ser uma citação sua também, ou para você os livros têm, de fato, culpa de alguma coisa?

Eu não concordo com o personagem, ao contrário, os livros têm culpa sim. Ou melhor, não se trata de culpa, mas de efeito. Não existem livros inócuos. Me parece impossível ler literatura (ler de verdade) sem que essa leitura não se torne parte de nossas experiências e consequentemente, da pessoa que somos (independente de gostarmos do livro ou não).

As ditaduras e os regimes militares (mais de uma vez e em mais de um país) aparecem na narrativa, e de maneira determinante para os personagens. Você vem do Chile e há muito mora no Brasil. Qual é a sua preocupação com essa carga histórica em relação à sua própria ficção?

Sempre quis abordar esse assunto, que faz parte da minha vida, e direta ou indiretamente da história da minha família. Após o golpe, a família se espalhou pelo mundo, alguns por motivos políticos, como meu tio que era líder sindical e teve que se exilar na Dinamarca, e outros, como meu pai, forçados a um exílio econômico. Mas eu sempre achei que para certos temas, os mais complicados, eu precisava de mais tempo e maturidade para abordá-los. Entre eles, as relações familiares e a história política tanto do Brasil quanto do Chile. Neste livro agora faço uma primeira aproximação. E meu personagem preferido é justamente esse homem, que é preso e torturado durante a ditadura, que deixa a mulher grávida quando invadem a sua casa para buscá-lo, e que ao voltar tem um filho pequeno. Esse homem que sofreu as maiores violências, quando volta está física e emocionalmente destruído, não consegue mais se comunicar com o mundo, e muito menos com esse filho.

Embora não seja o tema principal deste livro, o amor ocupa nele uma posição importante. Depois de anos escrevendo literatura sobre o tema, "o amor acaba" mesmo?

Não, o amor não acaba, ao menos na literatura. O que houve no meu caso, foi a necessidade de abordar outras questões. Me interessava falar sobre relações familiares, sobre a origem dos personagens. Em que mundo ele nasceu e cresceu. Por outro lado, numa leitura atenta, percebe-se que há ali uma falta. Fala-se muito do pai, da relação com o pai, mas nada da mãe. A mãe é nesse livro a ausência, a peça que falta, a que não é narrada, e isso é também uma forma de narrativa.

A literatura é algo sempre presente na sua ficção, assim como uma busca pela identidade por meio do discurso. O escritor-narrador de O Inventário... também parece em busca de uma definição da própria história por meio da ficção. É isso mesmo ou o seu projeto está tomando um rumo diferente?

Sim, o narrador busca uma identidade através da ficção. Mas há também um movimento inverso. O narrador parte de ficção para tentar definir sua origem. Ou seja, como se fosse possível, tendo em mãos o texto literário, rastrear ali a própria vida, as experiências, obsessões, pessoas que o originaram. Gosto desse movimento, não porque ele leve a alguma conclusão, mas porque ao reconstituir esse processo, mesmo que de maneira ficcional, nos obrigamos a pensar nas engrenagens dessa máquina misteriosa que é a literatura, algo que sempre me fascinou. No fundo, o livro tem algo do olhar de uma criança que desmonta o brinquedo que tem em mãos para ver como ele funciona.

Qual é o motivo da sua escolha pela narrativa fragmentada, não linear?

Gosto muito dessa ideia de literatura como "modelo para armar". Algo que não vem pronto, e que o leitor tem que construir, como um enigma a resolver. Não um enigma no sentido da história que estou contando, mas no que diz respeito à própria estrutura narrativa. Como um quebra-cabeças do qual estão faltando algumas peças. É um formato que tem a ver com o meu projeto literário, que é de certa forma um projeto investigativo. Como se a cada livro eu tentasse, além de contar uma história, encontrar as perguntas certas.

Numa entrevista recente, você disse que as edições estrangeiras têm sido importantes para você. Essa é uma questão que também pesa no processo de escrita e da estruturação do seu projeto literário?

Não, de forma alguma. Escrevo em português pensando em ser lida aqui. Aliás, se eu escrevesse pensando no mercado internacional, certamente teria escolhido temas mais "vendáveis" lá fora: favelas, violência, índios, mulatas. Por outro lado, acho ótimo quando editoras alemãs, francesas ou americanas se interessam pelos meus livros. Acho ótimo quando o livro é traduzido em outro país, é lido com seriedade e obtém resenhas elogiosas. O escritor não é uma ilha, ele precisa de leitores, e se as traduções ampliam suas possibilidades, por que não? Sob esse aspecto, quanto mais autores traduzidos, melhor para a literatura de um país.

O INVENTÁRIO DAS COISAS AUSENTES

Autora: Carola Saavedra

Editora: Companhia das Letras (128 págs., R$ 34,50)

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