Em exposição, fotojornalista traz a vida em comunidade carioca de travestis

Ana Carolina Fernandes conviveu por dez anos com os personagens para desenvolver trabalho

Simonetta Persichetti - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

30 Setembro 2013 | 18h20

Fotojornalista com passagens por jornais como O Globo, Jornal do Brasil, Folha e Estado, Ana Carolina Fernandes resolveu, em 2003, buscar um trabalho mais autoral que pudesse fugir das páginas dos jornais cotidianos. Foi assim que ela conheceu a travesti Luana, a “rainha da Lapa”, dona de um casarão na Rua Mem de Sá, 100. Neste lugar, mergulhou no universo que decidiu retratar: “Sempre tive um fascínio para tentar compreender o que era este universo, tentar entender como essas pessoas viviam”, comenta Carolina. “Não me interessava a foto roubada, mas a foto construída dentro desse universo.”

O trabalho, que começou de forma mais efetiva há dois anos, resulta agora na exposição Mem de Sá, 100. Trata-se de um relato de 17 fotografias que será exposto na Doc Galeria, de Mônica Maia e Fernando Costa Netto a partir desta terça (1.º).

Um trabalho instigante com curadoria de Eder Chiodetto. “O ensaio que Ana Carolina Fernandes desenvolveu nos últimos dois anos, convivendo com a comunidade de travestis do centro do Rio de Janeiro, é exemplo enfático de um trabalho original que se distancia, em muito, do olhar clichê e redutor que a sociedade em geral dedica a esse grupo social”, afirma ele.

Muito mais do que isso, é um profundo trabalho de fotojornalismo, em que a autora não se interessa em roubar a fotografia, mas em habitar com essas pessoas e contar sua vida: “Conheci a Luana, que me convidou para conhecer o casarão. Cheguei lá com a mente aberta e esperando que elas topassem ser fotografadas, caso contrário, o ensaio não teria como acontecer”.

Desde esse primeiro encontro, dez anos se passaram, mas só há dois ela decidiu registrar a convivência. “Cheguei ao casarão sem nenhum julgamento ou moralismo. Muito pelo contrário, tinha simpatia pelos travestis. Só comecei a fotografar depois que elas começaram a ter total confiança em mim, o que ocorreu muito rápido, e logo depois veio a cumplicidade. Sempre foi um trabalho feito com muita verdade e isso ficava muito claro,” conta Ana Carolina. “Muito mais do que dar voz a um grupo de pessoas que vivem na exclusão e à margem da sociedade, eu queria dar um corpo e mostrar a beleza delas”, complementa. Nestes dois anos, a fotógrafa entrou no cotidiano da casa e registrou momentos íntimos, de lazer, procurando entender “que sensualidade era aquela”. “Nunca tive um olhar moralista, mas queria entender quem eram aquelas mulheres nascidas num corpo de homem.”

O resultado é um ensaio delicado no qual essas mulheres se expõem, mas não são expostas pela lente. Um trabalho que sai do dia a dia do jornal para entrar num gênero quase documental, uma maneira de contar histórias de forma mais profunda, relatos que conseguem ter seu espaço reconhecido em exposições ou livros. “No fotojornalismo diário, nem sempre você tem lugar para contar essas histórias, como é possível num livro e numa exposição. Mas o fotojornalismo é a minha linguagem, sou apaixonada por ele”narra. Este trabalho narra bem a história de uma vivência.

MEM DE SÁ, 100

DOC Galeria. R. Aspicuelta, 662, Vila Madalena. 2ª a 6ª, 11h às 13h e 14h às 19h; sáb., 11 h às 14 h. Abertura hoje, 19 h. Grátis. Até 30/10

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