Daniel Teixeira/AE
Daniel Teixeira/AE

Em 'Chorinho', Fauzi Arap reflete sobre o desabrigo na cidade grande

Cláudia Mello e Denise Fraga remontam espetáculo de 2006 do diretor que é avesso a badalações

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2012 | 08h24

Certo dia, bem cedo, a atriz Denise Fraga foi surpreendida por um telefonema do diretor e dramaturgo Fauzi Arap. "Nem dormi direito por causa de uma ideia", disse ele, eufórico. Pausa. Dias antes, Denise pedira a Fauzi uma peça simples, sem grandes entraves de produção, que pudesse excursionar com facilidade. "Fui dirigida por ele em 1996, em A Quarta Estação, que eu interpretava com Juca de Oliveira, e, desde então, não passo por um processo criativo sem citá-lo: frases inteiras ditas por ele me movem a cada trabalho. Às vezes, estou em cena e escuto o Fauzi", conta a atriz. Fim da pausa. "Por que você não monta o Chorinho, com a Cláudia Mello?", sugeriu ele, naquela ligação matinal.

Denise se entusiasmou com a ideia, acertou a produção e estreia nesta terça-feira, 16, ao lado de Cláudia, a peça, no Teatro Eva Herz. Trata-se de um texto escrito por Fauzi em 2006 e já montado pela mesma Cláudia Mello no ano seguinte, com Caio Blat no papel agora defendido por Denise. A trama se passa na praça de uma cidade grande, frequentada por uma solteirona aposentada (Cláudia) que, presa à hipocrisia social, ignora a moradora de rua que lá vive (Denise). Até o dia em que é surpreendida pela pergunta: "Por que a senhora fica fingindo que eu não existo?".

Dessa insistência, nasce uma convivência em que se revelam medos e solidões. "Quando escrevi, tinha em mente dois textos como inspiração: Dois Perdidos Numa Noite de Suja, de Plínio Marcos, que fiz como ator, e Zoo Story, a primeira peça escrita por Edward Albee e que mostra a briga por um banco de praça", conta Fauzi. "Foi o primeiro texto depois da minha doença."

O mal a que ele se refere é, na verdade, uma decisão de viver mais isolado, alheio a badalações. Fauzi também desenvolveu uma verdadeira fobia de ser fotografado - a luz forte sempre o incomodou e ele detesta se sentir dirigido. Assim, regula suas saídas de casa até mesmo para dirigir, função que divide com o fiel escudeiro Marcos Loureiro. Obviamente que não se trata de um ermitão: Fauzi Arap é apaixonado por um tipo específico de anonimato, aquele que o permite vivenciar o outro. O que o torna, portanto, um dos diretores mais queridos do teatro brasileiro pois não persegue a autoria, mas o diálogo com seus pares.

Foi assim desde que abandonou o plano de trabalhar como engenheiro civil para, no final da década de 1950, tornar-se ator, engrossando as fileiras dos grupos Oficina e Arena. Logo se destacou, a ponto de ganhar os prêmios Saci e Governador do Estado de melhor coadjuvante em sua estreia profissional, em 1961, com A Vida Impressa em Dólar, de Clifford Odetts e direção de José Celso Martinez Corrêa.

Não satisfeito, começa a flertar com a direção. Na primeira, em 1965, adapta o livro Perto do Coração Selvagem, de Clarice Lispector, com quem construiria uma íntima (e mística) amizade. Mais dois anos e Fauzi assina a direção e divide o palco com Nelson Xavier em Dois Perdidos Numa Noite Suja, peça de uma violência rasgada e poesia lancinante escrita por um desconhecido, Plínio Marcos. Foi ali que Fauzi começou a desenvolver sua sensibilidade para descobrir autores notáveis, porém anônimos.

É o início, assim, do que chama de seus grupos de indivíduos, ou seja, novos dramaturgos de desconhecida força teatral, como Plínio, Antônio Bivar (jovem autor de Abre a Janela e Deixa Entrar o Ar Puro e o Sol da Manhã, que Fauzi dirigiu em 1968) e, principalmente, José Vicente, cuja poética contundente é revelada pelo diretor em O Assalto (1969).

Não bastasse isso, projeta nacionalmente o nome de Maria Bethânia ao dirigi-la no show Rosa dos Ventos, de 1971, valorizando a forte presença cênica da cantora. Quatro anos depois, Fauzi promove uma nova reviravolta em sua carreira ao estrear como autor em Pano de Boca, peça na qual faz um balanço dos percalços do teatro brasileiro nos anos 1960 e 1970, especialmente quando toca na ferida e aponta o preconceito dos artistas contra a busca individual, condenada como alienada por grupos que pretendiam um teatro revolucionário.

Tantas mudanças não surpreenderam na época e tampouco assustam hoje o artista Fauzi Arap. "Quando eu ainda era aluno de engenharia, recebi meu mapa astral feito por um amigo astrólogo. E lá dizia que, ao longo da minha vida, eu passaria por mudanças profundas."

Se estava escrito em alguma estrela, talvez só os exotéricos saibam, mas a verdade é que Fauzi, em suas alternâncias artísticas, elaborou naturalmente uma forma de lidar com os atores que os deixa maravilhados. Denise Fraga conta que, ao executar exatamente o que pedia o diretor, foi surpreendida por uma ordem anárquica: "Inventa uma loucura interpretativa qualquer! Me surpreenda!"

"Às vezes, a obediência é uma prisão", diz Fauzi, hoje com 74 anos. "O ator tem de criar sua autonomia." Mesmo assim, os laços parecem eternos. Bethânia, por exemplo, consulta-o agora sobre seu novo show. E o recluso diretor corresponde na forma com que hoje melhor se adapta: pelo telefone.  

CHORINHO

Teatro Eva Herz. Avenida Paulista, 2.073, Livraria Cultura, Conjunto Nacional, 3170-4059. Terças e quartas, 21 h. R$ 60. Até 12/12.

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