Em busca do tempo perdido

O fluir incessante medido em séculos ou segundos é algo inevitável para nós

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

27 Agosto 2017 | 02h00

O tempo é a matéria-prima da minha profissão. Nada mais fazemos senão analisar os homens no passado. O tempo paira sobre todos os seres, inclusive inanimados. 

A passagem do tempo é real. Os calendários são construções subjetivas de diálogos humanos com as colheitas, a astronomia, as religiões e as demandas do mercado. O fluir incessante medido em séculos ou segundos é algo inevitável para nós. Fala-se em relatividade de tempo e de espaço, cogitam-se equações quânticas (metáfora atual para tudo aquilo que eu quero demonstrar e que não sei), porém, confesso, atrás da maioria dos historiadores como eu, há uma solene incapacidade com números. Sim, dominar parte do que ocorreu no passado vem acompanhado, com frequência, de dificuldades com a tabuada do oito.

Volto ao tempo. Um ex-presidente do Uruguai (fácil localizar, é aquele honesto, pronto, agora você não confunde com ninguém) afirmou, em uma entrevista, uma ideia sábia. Ele lembrou que toda compra que realizamos é uma entrega de tempo para o vendedor. Assim, quando adquiro meu carro novo, devo lembrar-me que o custo do carro à vista ou financiado foi obtido com horas de trabalho. A compra é a entrega de parte da vida passada para usufruir de um prazer futuro. As compras se repetem até que todo o tempo que eu tenho para oferecer se esgote. Uma das vitórias de certo tipo de marketing é ter convencido milhões de pessoas que entregar tempo-vida por produtos é legal e divertido. Z. Bauman afirma que lojas são sempre farmácias no nosso mundo: vendem produtos contra ansiedade, depressão, etc. Compramos porque estamos felizes ou tristes, gastamos para perder nossa ação como sujeitos e transformar mercadorias e a nós próprios em objetos. Para o anglo-polonês, a grande ilusão consumista é a ideia de liberdade de consumo ou da decisão autônoma de consumo. Somos, também, outdoors de marcas nas roupas, nos padrões e hábitos. O cogito cartesiano virou consumo, logo existo.

A crônica é sobre tempo e não sobre consumo. Há uma ideia do dalai-lama, que insiste que gastamos a vida inteira trabalhando muito e perdendo a saúde para ter dinheiro e, ao final, estamos sem saúde e sem a coisa mais fundamental na vida: o tempo. Como se perseguíssemos um tempo melhor e que nunca chega e, ao final, quando acontece, chama-se morte. Tempo é tudo.

O suicídio é um tabu forte em religiões monoteístas. Exclui até do cemitério o ser que, de uma vez, elimina sua existência. Como eu já disse em palestras, o único suicídio ético hoje é “matar-se de tanto trabalhar”. Um ato suicida me lança à condenação eterna e envergonha a família. Interessante, porém, como somos tolerantes com os suicídios lentos. Ingestão de gorduras saturadas, falta de atividade física, exposição ao sol sem proteção e outras formas de suicídio parcelado são muito mais toleradas. Um pai de família que sente diante de um prato sobrecarregado de bacons e picanha gorda pode receber aquele olhar da esposa entre censura e afeto: “Como você gosta de gordura, meu amor!”. Se ele levasse uma arma para a mesa e ameaçasse estourar os miolos, a ação da mulher, provavelmente, seria mais enfática para impedir o desfecho. Sim, aprendemos a tolerar coisas lentas e a julgar as mais rápidas. Funciona como na experiência (clássica lenda urbana) dos sapos colocados em água quente e que pulam imediatamente do ambiente deletério. Pelo contrário, se a temperatura inicialmente fria da água fosse elevada em um grau por hora, os anfíbios ali ficariam até a morte. 

Tempo é vida. O maior assassino do tempo são as redes sociais. Meu mantra repete que quase toda ferramenta e técnica são neutras. Celulares, tablets, Facebook, Instagram e outros ajudam muito, fornecem informações, guardam o que desejamos e registram coisas. Claro, também infantilizam: não sei mais chegar à padaria da minha esquina sem Waze. Mimar é imbecilizar. Meus aplicativos mimam meu narciso crescentemente preguiçoso. Se as pessoas das grandes cidades fossem soltas na natureza, seriam como canários-belgas criados em gaiolas douradas e incapazes de enfrentar o mundo que formou nossos ancestrais. Viramos poodles exigentes e birrentos, esperando nossa ração e nossa cama. Esquecemos algo que escapa a todo poodle: todo aquele que me fornece bens e informações avança sobre minha alma e toma o meu tempo e o reestrutura a seu gosto.

No Sul havia a expressão “gato de forno”, aquele felino algo obeso e bastante lento que, nos dias frios, sobe ao forno de pão que assou algo há algumas horas, buscando o calor agradável e fácil do local. 

Nosso tempo não é mais nosso. Quem decide sobre ele é o fluxo de mensagens e de fotos. A nuvem, a entidade abstrata de difícil definição, é nosso novo deus onisciente, onipresente e onipotente. Estar na nuvem é nossa metafísica atual. Onde é a nuvem? Como ela parece? Quem guarda pode mudar? Quem acumula controla? Esse Forte Knox da memória é também o Hall 9000 da Odisseia no Espaço? Nosso tempo está nas mãos de máquinas e programas que, em uma hipótese desagradável, são controladas por meia dúzia de illuminati no Vale do Silício. Em uma hipótese desagradabilíssima, o punhado de illuminati é controlado por um computador. Já estamos na nave de Hall 9000. Nosso tempo está sempre sendo perdido e, hoje, nem chá nem madeleines o recuperam, porque as memórias não estão mais em Combray, estão na nuvem... Aproveitem o tempo que resta. Bom domingo para todos nós.

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