Em busca da verdade

Série do GNT compartilha com o espectador o privilégio do terapeuta

DANIEL MARTINS DE BARROS, ESPECIAL PARA O ESTADO, DANIEL MARTINS DE BARROS É , PSIQUIATRA DO HOSPITAL DAS , CLÍNICAS, COORDENADOR MÉDICO DO NÚCLEO DE PSIQUIATRIA , FORENSE, PSICOLOGIA JURÍDICA, O Estado de S.Paulo

11 Outubro 2012 | 03h11

Não é fácil a vida de terapeuta. As pessoas os procuram por ajuda, mas raramente dizem a verdade - ao menos a verdade completa. Eles são hostilizados, desqualificados, questionados. E não é raro sofrerem calotes. A vida de Theo não é exceção. Sua semana anda cheia. Na segunda-feira vê uma médica apaixonada por ele, num processo que o jargão chama de transferência - quando sentimentos de outros tempos e lugares são transferidos para o aqui e agora do terapeuta. Nem sempre é fácil segurar esse rojão, ainda mais se a paciente é Maria Fernanda Cândido.

Na terça, o foco é oposto: vemos Theo transferir emoções e sentimentos, hostis, para o atirador de elite narcisista que matou um inocente em ação policial. Quarta, uma adolescente de quem se suspeita ter tentado suicídio quer dele um atestado de sanidade, mostrando que é normal. O pior vem na quinta, quando um casal o procura para que ele diga se devem ou não fazer um aborto, já que o marido quer o filho, mas a esposa não tem certeza. A pressão é forte, e faz Theo voltar a conversar com Dora, uma terapeuta que fora sua supervisora no passado. Como seus pacientes, nem ele tem bem claro o que quer dela.

O segredo da terapia, aprende-se com o tempo, é frequentemente o mesmo da poesia: "Tudo é sempre outra coisa", como ensinou Mário Quintana. O casal fala do futuro da gravidez, mas quer saber é do futuro da relação; o policial sente atração por um amigo gay e nem se dá conta; por trás do acidente da menina adolescente há pressão por performance e frustração com a mãe, temas que permanecem submersos.

O próprio Theo não aceita a sugestão de Dora de que sua irritação atual tenha relação com suas reações inconscientes diante da paixão da paciente. O trabalho do terapeuta é esse: muitas vezes tem de encontrar brecha no que diz o paciente, abrindo uma fresta para que ambos espiem juntos por trás da cortina do discurso aparente e tenham pelo menos um vislumbre da verdade. Se a vida dos terapeutas é dura, por outro lado eles têm a chance de acompanhar o desenrolar da história humana, com seus dramas e alegrias, no momento mesmo em que ela acontece.

E como todos somos fascinados por histórias, querendo sempre saber como as coisas chegaram a ser o que são e o que acontecerá com elas, a tendência é que Sessão de Terapia (2.ª a 6.ª, 22h30, GNT) tenha sucesso: é a chance que temos de compartilhar o privilégio dos terapeutas, sem os riscos da transferência e contratransferência.

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