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Cultura

Em bronze

O Millôr tinha uma tese sobre a construção de túneis na China. Dizia que 10 mil chineses começavam a cavar de um lado da montanha e 10 mil chineses começavam a cavar do outro lado. Quando se encontravam formavam um túnel. Se não se encontravam, formavam dois túneis. Seria um exemplo de erro que acaba bem.

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Luis Fernando Verissimo

07 Janeiro 2016 | 02h00

Agora imagine o seguinte: a inauguração de uma estatua de bronze em tamanho natural do Carlos Drummond de Andrade na calçada de Copacabana. A estátua está coberta por um pano, que só será descerrado quando chegarem as autoridades, a imprensa etc. Chegam todos, e começa a solenidade. Discursos, música. E, finalmente, a descoberta da estátua, sob aplausos. Até que alguém diz:

– Mas esse não é o Drummond!

– Como que não?

– É o Manuel Bandeira!

Isto não aconteceu, claro, mas o poeta errado seria exemplo de um engano irremediável, um engano em bronze. E, citando outro poeta, o Mario Quintana, um erro em bronze é um erro eterno.

A História tem o mau hábito de perpetuar suas figuras em enganos, ou no mínimo em clichês reincidentes. Durante muito tempo, qualquer matéria sobre Albert Einstein que saía na imprensa vinha acompanhada daquela foto dele botando a língua. Para muita gente, Einstein não era o autor da teoria da relatividade, era aquele velhinho com a língua pra fora.

Figuras da nossa história política também foram reduzidas a categorizações fáceis, e imprecisas. Juscelino, segundo o clichê, foi o presidente que galvanizou o país com seu desenvolvimentismo alegre. Pouco se fala do seu papel na história da corrupção brasileira também.

Jânio Quadros foi um maluco, e pronto. Alguns nomes resistem à categorização rápida. Carlos Lacerda foi um exemplo de administrador moderno ou um golpista inveterado, ou as duas coisas? E a própria História não sabe o que dizer de Getúlio Vargas, que foi o nosso grande emancipador social ou um ditador filo-fascista irredimível, a escolher. Que Getúlio, afinal, ficou em bronze?

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