Elevador

 A placa dizia que a ocupação máxima do elevador era de 6 pessoas. Entramos eu e mais cinco. Ninguém particularmente gordo, descontando-se, talvez, a minha barriga, mas que também, modestamente, não pesaria como uma sétima pessoa. E o elevador não andou. Elevador mentiroso, pensei. Não se pode acreditar mais nem em placas de segurança. 

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

19 Março 2015 | 07h05

O elevador não só não subia como sua porta não se abria. E não só a porta não se abria como a luz no interior do elevador se apagou. Mesmo se quiséssemos acionar um dos botões do painel, não o enxergaríamos. Éramos seis pessoas presas num pequeno espaço, cada uma pensando no pior que poderia acontecer. Não conseguiriam abrir a porta pelo lado de fora. Ficaríamos ali horas, talvez dias, no escuro, apertados. Ninguém poderia sentar-se no chão do elevador sem roubar espaço de outro. Se alguém desmaiasse, teria que ficar desmaiado em pé. Alguém fatalmente sugeriria maneiras de se passar o tempo até que viesse o socorro. Poderíamos cantar. Contar anedotas. Cada um contar a história da sua vida. Ou talvez fosse melhor ficar em silêncio, para poupar oxigênio. Por onde entraria ar no elevador? E se não entrasse? Por quando tempo aguentaríamos até recorrer ao canibalismo?

Imaginei uma voz soturna no meio da escuridão dizendo:

– Um de nós é o culpado.

– O quê?

– O elevador se recusou a carregar um de nós. 

Eu tinha chamado o elevador de mentiroso em pensamento. Seria eu o culpado?

– Como “se recusou a carregar”? – perguntaria alguém.

– Os elevadores não carregam mais qualquer um. Escolhem quem vão carregar. E a rebelião das máquinas. Elas estão tomando conta. Os celulares já aprisionaram a mente humana. Ninguém mais se comunica a não ser por celulares, que vivem falhando e nos levarão à loucura. Não demora, os eletrodomésticos atacarão em massa. Elevadores que escolhem quem carregar não parece tão absurdo em meio a esta derrocada final. Morreremos todos porque o elevador implicou com um só. Morreremos todos!

No fim, o incidente levou apenas alguns minutos. Voltou a luz do elevador e a porta foi aberta por fora. O grupo de seis foi dividido em dois de três e o elevador obedeceu a todos os comandos sem problema, e subiu humildemente. 

Ou talvez estivesse apenas disfarçando...

Folia. A posse do Zuenir na Academia Brasileira de Letras foi uma espécie de farra afetiva. A quantidade de gente nos salões da Academia, entre amigos e admiradores, deu a dimensão da folia. O rapaz merece. 

Bonito. É bonito ver o povo na rua protestando, criticando e se manifestando livremente. Mais bonito do que isso, só eleições.

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