Efrain Almeida expõe minúsculas esculturas e aquarelas

Marcas acaba de ser inaugurada no quarto andar da Estação Pinacoteca

Agencia Estado

12 Junho 2007 | 04h02

Mais uma das mostras que acabam de ser inaugurada no quarto andar da Estação Pinacoteca é Marcas, de Efrain Almeida. As obras pequeninas desse artista cearense, esculturas de madeira tão sutis e simbólicas - a que abre a exposição, por exemplo, chama-se Escultura Que Cabe na Palma da Mão, feita de duas mãozinhas, uma delas carregando um pássaro - e aquarelas com poucos elementos, estão instaladas numa grande sala do museu - é preciso chegar bem perto das peças para perceber sua poética. Enfim, essa é mais uma mostra, como a de Giannotti e de José De Quadros, que tem uma íntima relação com o espaço expositivo. "A ênfase está no fato de o trabalho não ser um objeto isolado", diz o artista, nascido em 1964. Como bem define o curador Moacir dos Anjos, os trabalhos de Efrain são "voltados para o espectador em busca de cumplicidade", "parecem entregar sempre algo (ou a si mesmos) em oferenda, assumindo um tom confessional e sedutor." A exposição Marcas, afirma o curador, é de certa maneira antológica, com obras de Efrain Almeida feitas em vários períodos de sua carreira - entre 1995 e 2006. Tanto que Moacir dos Anjos e o artista estão preparando um livro que será uma extensão dessa mostra, a ser lançado no fim do ano e publicado pela editora espanhola Dardo. Na sala da Estação Pinacoteca estão reunidas quase 20 obras do artista. Um diferencial dessa mostra, segundo o curador é justamente a potencialização da relação com o espaço - "O trabalho briga para se impor nesta sala imensa". E, dessa maneira, a fragilidade contida no caráter simbólico de suas peças fica mais explícita ainda. Efrain conta uma história curiosa para falar da escala de seus trabalhos, segundo ele, relacionada com a memória. "São como flashes da memória em que a imagem vai ficando pequenina", diz o artista. Quando criança, em Fortaleza, em idas para a igreja com sua família, Efrain ficava assustado com a escala de um busto do escritor José de Alencar numa praça. "Para mim, era enorme, mas depois, adulto, quando voltei lá, ele ficou bem pequeno", conta o artista. Dessa idéia, ele começou a criar suas peças, que precisam do contato íntimo para serem reveladas. Suas obras, como define Moacir dos Anjos, tratam de questões como a fragmentação do corpo - são sempre mãos e pés; as dificuldades da impossibilidade de afirmação; a dor; os constrangimentos a que são submetidos os corpos; as chagas (com elas incutidas as idéias de marcas e desejos); o auto-retrato, "não em caráter individual, mas como índice na coletividade". Para exemplificar esses temas, a instalação Marcas, que dá título à exposição, é formada por 21 peças, cada uma delas feita de duas mãos de madeira que carregam um vestido. Já na obra A Virtude se Manifesta na Ação, apenas um homenzinho de madeira ocupa o centro de uma parede inteira em branco. Em Mimetismo, uma caixa de madeira revela, aos poucos, as formas de borboletas feitas por meio da técnica da marchetaria. Em 172 Chagas, duas mãos seguram um cordão com a representação de 172 chagas em veludo - nas aquarelas, a cabeça de um homem está sempre machucada. "Não há em seus trabalhos, porém, o sentido da sublimação de perdas ou a ambição rasa de exibir testemunhos. Dando tessitura visual, na forma de esculturas e aquarelas, a fragmentos de vida, Efrain Almeida transforma suas memórias em passagens para que se ativem as lembranças daqueles que as contemplam", escreve o curador.

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