WILTON JUNIOR/ESTADÃO
WILTON JUNIOR/ESTADÃO

Ed Motta vai fazer seu Baile do Flashback

Músico ensaiou covers de grupos e artistas dos anos 70 e 80, com soul, funk e AOR, para apresentar dia 28 de setembro, no Bourbon Street

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

13 Setembro 2017 | 07h00

Ed Motta comandando o baile parecia um luxo distante. Apesar de ter começado com os dois pés na pista, com Manoel embalado pelo grupo de um homem só, o Conexão Japeri, e de ter passado pelas danceterias em 1997 com Manual Prático para Festas, Bailes e Afins, seu caminho nesta direção sempre foi de avanço e recuo. Apesar do estrondo que fez com Manual Prático, vendendo 300 mil cópias, Ed não reconhece este como um de seus grandes discos. Acaba, para ele, sendo lembrado como um álbum de concessões, distante da linguagem que gostaria de desenvolver naquele momento de sua vida. Alguns projetos posteriores, como Dwitza, de 2002, ou Aystelum, de 2005, venderiam muito menos e o realizariam bem mais.

Ao menos por dois momentos mais recentes, Ed passou pela porta das baladas. “Eu já tinha o convite para o baile, só não havia usado ainda”, ele diz, referindo-se aos projetos que fez com o grupo Serial Funker no Bourbon Street, em 2013, só com covers dos anos 70 e 80. “Eu fazia pensando que, um dia, poderia ter um trabalho todo dedicado a isso.” E o álbum AOR, de 2013.

Chegou a hora de seu baile. Ed anuncia que no próximo dia 28, no Bourbon Street, ele vai fazer a primeira noite de seu Baile do Flashback. Ele já vinha brincando em seus shows, dizendo que só faltava fazer seu baile já que a moda era a de artistas apostando no formato. O bandolinista Hamilton de Holanda tem um muito bom no Circo Voador, Rio de Janeiro, chamado Baile do Almeidinha, e o sanfoneiro Mestrinho andou fazendo o mesmo na Casa Natura, em São Paulo. Mas Ed tem um pensamento de DJ dos anos 70, quando ninguém ocupava uma pick up se não soubesse a história de cada vinil, que pode fazer a diferença.

O primeiro sinal de que levaria o baile a sério é o ato de se formar uma banda para ele com nomes de formação jazzística. Michel Limma, o tecladista, faz também a direção musical. “Foi a primeira vez que entreguei arranjos para alguém fazer”, diz ele sobre a confiança em Limma. O baterista que aparece em um vídeo com um solo demolidor é Cléverson Silva. E Fernando Rosa, baixista, já toca junto com o guitarrista Thiago Arruda (que Ed levou para o Lollapalooza argentino). Não há metais nem backing vocals, mas a formação, diz Ed, pode crescer com a aceitação do projeto. A resposta aos primeiros anúncios feitos em postagens do próprio músico são, segundo ele, impressionantes. “Depois desse show no Bourbon, já fechamos oito shows pela periferia do Rio de Janeiro. Para mim, será diversão. Parece que estou brincando.”

Há duas vertentes mais visíveis no baile de Ed Motta. A primeira diz respeito ao funk e à soul music dos anos 70. James Brown e Wilson Pickett? Não seria mal, mas não necessariamente. E aí entra a curadoria de um homem que tem 30 mil discos nas prateleiras de casa e que chega a comprar até 100 de uma só vez. Quando fala de funk, ele fala de The Gap Band tocando Outstanding, de Shalamar com A Night To Remember ou de B.B. & Q. Band com On the Beat. É jogar para a plateia sem oferecer os mesmos biscoitos de sempre. Ainda assim, ele diz que a apresentação será com músicas bem conhecidas. “As músicas não serão as mais óbvias, mas as pessoas vão reconhecê-las das ‘rádios adultas’.”

O outro veio que forma a noite, e a própria personalidade artística de Ed Motta, tem um nome que poucos sabiam do significado até o próprio Ed lançá-lo para batizar seu disco mais recente. AOR, ou, como explica um verbete na Wikipedia, album-oriented radio (rock orientado para tocar nas rádios). É a música, na mais crua das explicações, que toca em emissoras como Alpha FM e Antena 1, as love songs, as músicas de se ouvir de madrugada. 

O exemplo maior de um AOR no repertório do baile de Ed é Never Be the Same, do rei das AOR, Christopher Cross. Seu histórico é o caminho mais perfeito de uma dessas canções orientadas para as madrugadas. Cross, o rei das baladas radiofônicas, emplacava no final de 1980 seu terceiro single consecutivo a atingir as 40 mais executadas, segundo a tabela da Billboard Hot 100. Ela ficou por duas semanas como “a canção hit número um no ‘adult contemporary chart’.

Um ano depois e outro estrondo dominaria um espaço eterno nas rádios do amor. Living Inside Myself (ouça agora mesmo se acha que realmente não a conhece), de Gino Vanelli, um cantor canadense de origem italiana, um dos responsáveis, ao lado de Barry White e The Manhattans, pela explosão da taxa de natalidade a partir de 1981.

O poder de Ed em remexer discos de vinil e mostrar canções interessantes que outros não pensariam em incluir em um set list traz outra no garimpo dos AOR. Take Me Now, de David Gates, tem mais mel, menos harmonia e um poder de memória afetiva avassalador. Existe qualidade também em alguém que sempre soou um dos mais farofeiros dos anos 80, como Ray Parker Jr, que entrou definitivamente para a infância de quem tem hoje 40 anos com Ghostbusters, em 1984. Ouvir a base de Raydio – A Woman Needs Love (Just Like You Do) imaginando-a nas mãos de Ed Motta e sua banda cheia de suingue dá vontade de estar lá amanhã.

E tem mais AOR com a banda anglo-americana Foreigner cantando Waiting For A Girl Like You, também de 1981, contrastando com a dupla cheia de suingue McFadden & Whitehead mostrando Ain’t No Stopping Us Now. Ed Motta não pensa em transformar o projeto mais dançante que já encabeçou em disco ou DVD. Enquanto girar com seu Baile do Flashback, quer seguir compondo para seu próximo disco, com previsão de lançamento para 2018.

E antes que as perguntas venham, ele informa: sim, haverá no show do Bourbon Manoel (a que rendeu repercussão nas redes quando ele disse que não suportava mais que lhe pedissem a música no exterior). E suas outras Tem Espaço na Van, Colombina, Fora da Lei, Vendaval.

Cinco destaques da 'pick up' de Ed Motta

1. Gino Vanelli 

Living Inside Myself

Se você pensa mesmo que não conhece essa faixa, bastar ligar o rádio do carro depois das 22h em uma das emissoras AOR, 

como Antena 1 ou Alpha FM, e contar até 10

2. Shalamar 

A Night to Remember

O grupo criado por Dick Griffey e Don Cornelius, que durou entre 1975 e 1990 (com seu auge nos anos 80), deixou músicas da era disco antológicas na história. Essa é uma delas

3. B.B. & Q. Band 

On the Beat 

Outra banda formada por empresários do show biz  norte-americano no final dos anos 70 encheu pistas até  meados da década de 1980

4. The Gap Band 

Outstanding

O groove da Gap Band, sobretudo nessa faixa rainha dos bailes de nostalgia da periferia de São Paulo,  é de se levar para casa e  

ficar com ela por muitos dias depois do show

5. Christopher Cross 

Never Be The Same

Christopher é uma entidade no AOR, as músicas de amor das madrugadas. Milionário e de formação guitarrística (quando menino, se apresentou com o Deep Purple), ele é também um propulsor das taxas de natalidade do mundo 

 

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