É você no dicionário!

Querendo saber o que seu nome quer dizer? Então corra ao dicionário do prof. Guérios

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

18 Abril 2017 | 02h00

Até parece que não tenho coisa mais urgente e séria com que me ocupar. Mas quem sou eu para resistir a tentações como a que tenho agora nas mãos, este exemplar do Dicionário Etimológico de Nomes e Sobrenomes, de autoria de Rosário Farâni Mansur Guérios, cuja 3.ª edição, revista e aumentada, a editora Ave Maria pôs nas livrarias há quase 40 anos?

Quem me aplicou a tentação foi o cupincha Antonio Portela, que neste momento, em Pernambuco, há de estar entregue a leitura menos dispersiva. Provavelmente não estava em seus planos desviar-me do propósito, sempre adiado, de encarar os poetas gregos do século 3.º a.C.

 

O fato é que, tendo o Toinho posto num e-mail informações onomásticas pinçadas no dicionário do prof. (está assim na capa) Guérios, lá fui eu, correndo, garantir meu exemplar na Estante Virtual. E desde que o livro chegou, na manhã de ontem, aqui estou a vadiar em suas poeirentas páginas, exposto a lufadas fartas em ácaros, ao sabor de nomes e sobrenomes que a memória vai pingando. 

Disposto, antes de mais nada, a pagar a dívida contraída como quem me apresentou à obra, tratei de saber que “Antônio” constitui “étimo controverso”, não se podendo afirmar se vem do grego ou do latim, e se, nesta segunda hipótese, de fato decorre de “antios”, “o que está na vanguarda”, o que no mínimo faria justiça ao amigo Toinho. Quanto a “Portela”, significa “passagem estreita, fortificada, entre montes”. Para poucos, já se vê.

 

“Guérios”, por sua vez, tem raiz no árabe “Gários”, que no grego veio a dar “geraiós”, sinônimo de “velho”. Sem desdouro, por favor, do mestre curitibano, falecido em 1987 às portas dos 80 anos, e cujo dicionário, informa o texto na contracapa, vindo “a lume” em 1949, valeu ao autor “sua inclusão, como membro do Brasil, no Comitê Internacional de Ciências Onomásticas, de Louvaina, Bélgica”.

Em pleno tiroteio da operação Lava Jato, é difícil não ceder à tentação de garimpar no dicionário prenomes como “Jucá”, que em língua tupi quer dizer “matador”. Ou “Michel”, uma forma de “Miguel” cuja raiz hebraica designa, não necessariamente em rodas palacianas, “quem é como Deus”. 

Já “Aécio” vem, sucessivamente, do grego “aétos” e do latim “aétius” (nada a ver com “aético”), e nomeia ave que não é tucano, mas “águia”, descrita no dicionário Houaiss como sendo “de grande porte, predadora, dotada de bico e garras robustos”, podendo a palavra designar também “pessoa velhaca, espertalhona, tratante”. Quando a “Lula”, tem origem no árabe e quer dizer “pérola”, substantivo para o qual muitos haverão de providenciar uma infinidade de iradas aspas.

 

“Maluf”, outro vocábulo árabe, quer dizer “gordo, engordado”, não estando claro se o significado pode eventualmente ser estendido a baús de grana. Em hebraico, “Eliseu” significa “meu Deus é salvação” - aquilo de que notório portador deste prenome pode estar mais do que nunca precisado. “Padilha”, do espanhol “padilla”, é “prato”. No indigesto noticiário político-policial destes dias, um prato cheio.

 

Por fim, se não registra “Odebrecht”, o dicionário do prof. Guérios dá espaço a “Marcelo”, do latim “Marcellus”, “martelinho”. Martelinho? Haverá quem estranhe o diminutivo. Ou que pense no “martelinho de ouro” que se poderia utilizar em operações de funilaria contábil, com a finalidade de desamassar cofres saqueados.

Mas vamos devagar. Antes de sair caçando nomes e prenomes, o prof. Guérios recomenda ler as 30 páginas da introdução que enriquece o livro. Quando menos seja, para divertir-se com esquisitices onomásticas por ele recolhidas em cada canto do Brasil. E não leve a mal se você se chama Acácia Sensitiva, Boreal, Dádiva, Egipcialinda, Meiga, Novella, Onda, Propício, Sahara, Selvático, Verbo ou, madura ou nova, Zelândia. 

Para não sair de seu Estado natal, na Genealogia Paranaense o prof. Guérios respigou (acho que ele adoraria o verbo) e trouxe a lume pelo menos uma ocorrência de Ardoal, Aziolé, Anebrair, Belmair, Clovesmiro, Dardinor, Deluvéria, Denunciana, Ededno, Georfo, Icarmádio, Kermide, Liorlanda, Marioner, Mareja, Nodivir, Oslyde, Resivaldo, Sonny Sirete, Try, Uricena, Vonil, Wislances e Zelim. Fruto da inventividade ensandecida da nossa gente, nenhuma dessas antipérolas mereceu verbete no dicionário do prof. Guérios.

Caiba aqui uma palavra, a última, prometo, a respeito do prenome com que o Dr. Hugo e a D. Wanda houveram por bem designar o segundo de seus 11 filhos: Humberto, do alto-alemão antigo “Hunibert”, significa “replendor, brilho de gigante”. Não sou eu, na minha agigantada modéstia, quem está dizendo, é o prof. Rosário Farâni Mansur Guérios, com sua não menos alentada autoridade em antroponímia.

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