É impossível distribuir

Como ser altruísta se um egoísmo oportunista permeia a nossa vida social?

Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

16 Agosto 2017 | 03h00

Quando distribuir se torna uma questão social e deixa de ser um tema sociológico? Quando uma sociedade quebra porque não consegue distribuir com equidade coisa alguma? Ou melhor, por que a sua engenharia distributiva foi sempre farta e feita de favores, privilégios e presentes para particulares, esquecendo suas obrigações para com os bens e serviços universais? Como foi que chegamos a esse escandaloso modelo de distribuição no qual os ricos enriquecem os políticos e estes os ricos, e todos se tornam bilionários capazes de comprar a própria competição e, por pouco, não compram o Brasil? 

Como pensar nos outros se não pensamos no Brasil? Como ser altruísta se um egoísmo malandro e oportunista – golpista, pois chega inesperadamente como essas reformas que reformam reformas – permeia a nossa vida social, privilegiando categorias, pessoas, instituições, cargos, títulos, ideologias, partidos políticos e tudo o mais? Até mesmo Deus tem partido num certo Brasil!

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Hoje, vivemos a explosão dessas bolhas. Um Estado com muitos funcionários, uma população que envelhece e onera um sistema previdenciário desenhado quando uma pessoa de 50 anos era tida como velha, uma roubalheira em nome do povo jamais vista. Junte-se a isso uma camada administrativa, cujas garantias legais nada devem a nenhuma casta e a uma legislação dura no papel, mas dotada de recursos infinitos, os quais condenam criminosos a uma doce prisão domiciliar. Não tenho espaço para falar do “fundo partidário” bilionário, ao lado de uma ciência e cultura sem fundos.

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O jogo simultâneo de distribuição generosa e escassa transformou populismo em plutocracia. Um sistema movido a promessas e magia descobre o absurdo de ser sistematicamente farto com a fartura e sovina com a escassez. É preciso mudar essa perversa equação distributiva.

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Seria possível ter uma coletividade sem alguma forma de distribuição? Lévi-Strauss respondeu dizendo que a própria sociedade nasce quando alguém deixa de casar com sua irmã (ou irmão), sabendo que o seu vizinho faria o mesmo. A distribuição resultante permite ler o incesto (não casar para dentro) como um modo de distribuir (casar fora ou, como o disse Tylor, guerrear). Eis uma troca (ou “imposto”) na qual todos ganham sem segundas intenções, golpe ou malandragem.

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Os estilos de vida de uma sociedade são visíveis sobretudo no seu espaço físico. Nas sociedades indígenas de língua jê que estudei, é muito difícil aplicar a matriz “pobre/rico”, porque tais comunidades são permeadas pela reciprocidade do ‘dar para receber’. Nelas, tudo o que é produzido, é dividido pelo costume e não por leis. No primeiro caso, há o presente; no segundo, o imposto. Em grupos tribais, não existem o castelo kafkiano, o palácio do governo, os bairros de condomínios fechados e guarnecidos com suas mansões amuradas como que a dizer ao visitante: “Você sabe onde está entrando?”. Tais espaços ocupam hoje o lugar das casas-grandes e são a prova de diferenciações sociais jamais questionadas.

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Seria possível sugerir, sem ferir os sábios de plantão, que a empatia, a compaixão, a caridade (o amor) seriam os mecanismos elementares dos quais nasceram os impostos e, com eles, uma distribuição relativamente satisfatória de bens e serviços?

Haveria um mecanismo implícito ou inconsciente destinado a corrigir iniquidades em todos os sistemas? Eu penso que sim. Não há nenhuma sociedade que não pense uma de suas partes, mesmo as mais problemáticas, sem imaginar as suas obrigações para com o todo. Pois é no todo que está a legitimidade. Seria plausível, então, dizer que quando uma sociedade perde a noção de si mesma como uma totalidade que exige impostos morais – os chamados sacrifícios – ela perde o seu coração e a sua alma?

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