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'Dzi Croquettes em Bandália' estreia no Rio de Janeiro

Espetáculo tenta recuperar o espírito debochado do grupo original 40 anos depois

ROBERTA PENNAFORT - O Estado de S.Paulo,

26 Outubro 2012 | 03h11

RIO - Não há quem tenha ficado indiferente ao assistir ao documentário Dzi Croquettes, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez. Lançado três anos atrás e justa e intensamente premiado em festivais de cinema do Brasil e de fora, o filme recuperou a história dos atores/bailarinos mostrando imagens dos anos 70 e uma série de entrevistas com artistas impactados para sempre por suas loucas performances.

O contexto histórico - a ditadura, a censura, o choque provocado pela atitude acintosamente gay do grupo - foi citado pelos ex-integrantes e demais entrevistados como ingrediente importante para a explosão da trupe de Lennie Dale (coreógrafo) e Wagner Ribeiro (dramaturgo).

Seria então o sucesso dos Dzi Croquettes um fenômeno datado, impossível de ser reproduzido 40 anos depois? Ciro Barcelos acha que não, e estreia nesta sexta-feira, 26, no Teatro do Leblon Dzi Croquettes em Bandália, espetáculo com nove jovens em cena.

Em 1972 um "baby surfistinha" de 17 anos, com cabelo na cintura, levado ao palco dos Dzi Croquettes por Dale, seu professor de dança, ele é dos poucos que sobreviveram (parte foi assassinada; parte morreu de aids).

Seguiu a carreira de ator, bailarino e cantor (ficou 12 anos em cartaz com um musical sobre a vida de São Francisco de Assis). Motivado pelo documentário, resolveu acionar a máquina do tempo.

Mas não exatamente: "A mágica é muito difícil de recuperar, aquilo foi único. Mas a partir dali foi criado um comportamento teatral que dividiu os palcos em antes e depois do Dzi", acredita Barcelos, que tem como assistente de direção a filha, Radha, de 25 anos.

"Existia uma alquimia, uma forma de fazer, uma receita, que é inviolável: a anarquia, a irreverência, o escracho, o underground. Não estou refazendo os Dzi, não tenho essa pretensão. Aqui, é outro espetáculo, outro texto, outras coreografias, com o espírito Dzi. Não estou preocupado com quem assistiu e vai comparar, e sim com as novas gerações."

O primeiro espetáculo é de 1972 - quando nenhum dos rapazes do novo elenco estava perto de nascer (eles têm entre 18 e 26 anos). Em cena, eles veem cenas do filme e decidem tentar uma experiência como a dos Croquettes, depois do encontro com um remanescente (Barcelos, interpretando ele mesmo).

Passam a viver em comunidade, como na "Embaixada de Marte" dos anos 70 (a casa que dividiam em Santa Teresa). Revestem-se de sua estética, apresentam números que reverenciam os do passado, de tango, bolero, momentos com inspiração em Carmen Miranda e em Charles Chaplin.

No palco, o cabaré dos Croquettes é representado também pelo ex-membro Bayard Tonelli; nos bastidores, ficou Cláudio Tovar, que criou os figurinos quase sem recursos. "O espírito original foi mantido. A gente não tinha figurinista na época, cada um fazia sua roupa", rememora.

"Ciro teve uma inspiração Dzi Croquettes para fazer um trabalho dele. Ele visita os espetáculos antigos. Eu achei o maior barato. Tudo pode acontecer. Eu não sei o que as novas gerações vão pensar."

Nada teria acontecido se não fosse o documentário. A vida do grupo, coqueluche em teatros do Rio, São Paulo e Paris por seu tom farsesco e textos de duplo sentido, e, sobretudo, o forte apelo erótico e visual, estava apenas na memória de quem vivera os espetáculos e os assistira. O brilho do glitter parecia mesmo ter se apagado.

"Eram loucos e livres", simplificou Ney Matogrosso em seu entusiasmado depoimento. Até Gilberto Gil ficou sem palavras para defini-los. "Não tenho como, só quem viu..." Liza Minnelli, considerada uma madrinha, viu uma apresentação pocket em sua passagem pelo Brasil, em setembro, e aprovou, conta Barcelos. Saiu dançando com os atores.

"A história estava totalmente esquecida", enfatiza Tovar. "O filme provocou um resgate evidente, mostrou que fomos a origem de muitas coisas, então foi reconfortante e emocionante", acrescenta ele.

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