Doente, ‘escriba’ da Pedroso de Morais é removido à força

Morador de rua, Raimundo Arruda vive há 13 anos na Pedroso de Morais

Agencia Estado

15 Junho 2007 | 10h15

Todo dia passo por ali e todo dia ele está lá, faça sol ou chova, escrevendo em seus intermináveis pergaminhos, vestido como um Hélio Oiticica dark, com o parangolé de plástico preto de sacos de lixo nos ombros, na cabeça um chapéu que parece, esse sim, o de um formidável cozinheiro das almas desse mundo. Ao seu redor, a sua biblioteca de livros sem lombadas e sem final, mais algumas latas e panelas velhas, uns tijolos queimados. Um dia, ganhei uma caneta chinfrosa, de grife, num desses eventos internacionais. Passava de carro admirando a caneta e o vi sacudindo uma Bic para ver se extraía mais tinta dela. Não tive dúvida: pulei do carro e fui lá dar para ele minha caneta brilhante. Bobalhão, fiquei todo cheio do meu gesto. O escriba olhou a caneta, olhou, sorriu e a depositou delicadamente de lado, e voltou a sacudir a sua Bic. O cineasta Evaldo Mocarzel o pôs no seu primeiro documentário, o jornalista Sérgio Dávila escreveu belo perfil dele no jornal. Estudantes de comunicação todo dia estão lá de gravador em punho colhendo seu depoimento. Na terça-feira, dois hippies de batinha e trança no alto da nuca sentaram-se ao seu lado, pegaram na sua mão, irmanaram-se de sua alienação desafiadora. Todo mundo querendo detectar alguma nuance particularmente descritível no nevoeiro de sua loucura. Hoje, dia de greve dos metroviários, a Pedroso de Morais estava um inferno. Mas descobri, logo cedo, que era menos por causa da greve: na velha esquina do escriba, enxerguei de longe aquela ambulância da SAMU, que parece um caixa do Bradesco. No lugar que habita (e de onde não sai há pelo menos 13 anos, me informa uma vizinha) o escriba da Pedroso estava enfermo, caído sobre seus pergaminhos. Carros de velhos conhecidos do homem da rua paravam sobre a grama para ir ver o que estava acontecendo. Ninguém parecia se preocupar com a CET, a multa pela infração de trânsito. Todo mundo subitamente atabalhoado. Também parei, também fui ver o que havia com o escriba. Lucilene Santana Santos, da ONG Santa Lúcia, que diz trabalhar para o programa São Paulo Protege, da Prefeitura, me diz, apreensiva: "Nós achamos que ele está com tuberculose. Mas não quer ir para o hospital. Chamamos a polícia, acho que vamos ter de levá-lo à força. Senão, ele vai morrer." O escriba está deitado ali, aparentando serenidade. Parece o Cristo de Andrea Mantegna. As moças da ONG estão de luvas brancas. Os amigos do trânsito já o cercam, inapelavelmente. Nunca vi tanta gente íntima de um homem das ruas. Logo, ele terá de ser removido. Lembro, depois de algum tempo, de que tenho de tirar o carro da grama, a multa pode me tirar de circulação. O nome do escriba é Raimundo Arruda. Espero que ele volte brevemente à sua esquina.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.