Documentário revê a revolução musical e política brasileira no fim dos anos 1960

'Tropicália' não perde o foco de, abordando o tropicalismo, traçar um retrato do biênio 1967/68

LUIZ CARLOS MERTEN - O Estado de S.Paulo,

12 Setembro 2012 | 03h09

(Cena do filme 'Tropicália', do diretor Marcelo Machado. Foto: Divulgação)

Marcelo Machado terminava de ler Brasil Tropical, de Caetano Veloso, quando, por uma estranha coincidência, lhe chegou o projeto de um filme sobre o movimento político-cultural que agitou o Brasil do final dos anos 1960. O documentário havia seguido uma trajetória tortuosa. Uma dupla de jovens e entusiasmados norte-americanos - Vaughn Glover e Maurice James - havia procurado Fernando Meirelles em busca de parceria. Foi na época do lançamento de O Jardineiro Fiel, em 2005. Meirelles estava ocupado com outros projetos e os encaminhou para Machado.

Ele se interessou, até porque o livro lhe dera 'ideias', mas terminou se distanciando da dupla porque discordava do foco deles e exigia mudar o roteiro. "Eles tomavam Waly Salomão e Nara Leão como referências vivas", cita o diretor para expor algumas das divergências. Tropicália estreia na sexta, em cinco capitais - São Paulo, Rio, Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre. Para um documentário, será um lançamento grande - cerca de 50 cópias, a maioria das quais (40) em digital. Glover e James mantêm o crédito de autores da ideia original, mas o projeto é de Marcelo Machado, que se ligou à produtora Bossa Nova.

É um pouco reducionista definir Tropicália como 'documentário musical', embora ele o seja, pela riqueza de documentos de época que Machado conseguiu reunir. Você não precisa ser fã de carteirinha do via de regra polêmico Caetano Veloso para ficar siderando, vendo-o cantar Asa Branca. As imagens do enterro do estudante André Luiz, estopim para manifestações contra a ditadura militar que culminaram na passeata dos 100 mil, é outro momento forte, emocionante. Tropicália é um documentário carregado de emoção, mas não perde o foco de, abordando o tropicalismo, traçar um retrato do País no biênio 1967/68.

Em 1969, a caminho de Londres - do exílio -, Caetano deu uma entrevista à TV portuguesa. Já, naquele momento, ele considerava o tropicalismo extinto. "Isso foi muito importante para mim", avalia Machado. "O tropicalismo é muito amplo, tem muitas figuras imensas. Corria o risco de me perder nessa abordagem. Já vinha trabalhando com música, e músicos. Tinha meus dogmas. Andava insatisfeito com tantos documentários baseados em depoimentos. Preferi seguir outra via, a da documentação."

Machado recorreu a dois pesquisadores, Eloá Chouzal e Antônio Venâncio. Com a ajuda deles, estabeleceu uma linha de tempo, baseado no ano - e pouco - que durou o tropicalismo. Imagens e sons foram negociados e Machado armou uma primeira montagem de cinco horas, reduzida a três. Só então, ele foi filmar os depoimentos, muito precisos e pontuais, com Caetano, Gilberto Gil, Tom Zé, Rita Lee, etc. A nova montagem chegou a quatro horas, finalmente reduzida para os 86 minutos com que o filme chega às salas.

O ponto de partida é o Festival de Música Brasileira da Record, em 1967, que mereceu um recente documentário de Renato Terra e Ricardo Calil, Uma Noite em 67. Escaldado por projetos que esbarravam na delicada questão dos direitos autorais, Machado pediu à Bossa Nova que colasse um advogado ao projeto, desde as origens. Cada minuto que aparece na tela foi negociado e adquirido - pouquíssima coisa foi doada e Machado não conseguiu coisas que desejava, ardentemente, como a cena de José Agripino de Paula em A Mulher de Todos, de Rogério Sganzerla.

Embora entenda os motivos do produtor Antônio Galante - "Ele me disse que, na época em que fez o filme, não havia leis de patrocínio e ele havia colocado cada centavo do próprio bolso" -, Machado lamenta não ter podido dispor das imagens. "José Agripino foi um dos teóricos do movimento e aquelas imagens teriam somado muito ao filme." O grande mérito de Tropicália - a par do ritmo e da emoção - é contextualizar o tropicalismo como manifestação estética e política, como reação à repressão dos militares. Ele tem recebido críticas pelo que alguns consideram ser o caráter 'chapa branca' do filme. Polêmicas como a de Caetano e Roberto Schwarcz expuseram que, ao abraçar o pop, o tropicalismo levou à massificação da arte e à mediocrização contemporânea. Machado ressalta que queria fazer uma celebração - "Como falar em mediocrização com aquela arte, e aqueles artistas?". Ele diz que não fugiu ao debate. "Está lá a discussão sobre o papel do empresário Guilherme Araújo na capitalização do movimento."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.