Do Oiapoque ao Chuí? Não, do Caburaí ao Chuí

A alguns telefonemas respondo como na infância: 'Vê se tem guaraná em meus olhos?'

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

17 Fevereiro 2017 | 02h00

De um caderno de anotações: Ao passar pelo Chuí, em minhas férias no início do ano, lembrei-me da primeira aula de geografia no colégio, em Araraquara, primeira série do ginásio. O professor Walter Mauro colocou na lousa a palavra Brahmaputra e nos olhou. Estávamos rindo. Com a cara séria ele advertiu: “Escrevi Brahmaputra e não Brahmaputa como vocês estão lendo. É um rio da Índia”. A gargalhada explodiu, a relação entre professor e aluno estava estabelecida, o ano correria entre severo e bem-humorado. Eram diferentes as aulas e aprendíamos. Agora, virou bagunça e em São Paulo vai piorar, o prefeito cortou verba de educação e saúde.

Em outras aulas ouviríamos a frase que nos acompanhou ao longo da vida: “O Oiapoque e o Chuí são os pontos extremos do Brasil, um no Amapá, outro no Rio Grande do Sul”. Sinônimos de longuíssima distância. Depois, os livros mudaram, Oiapoque e Chuí passaram a ser pontos extremos do litoral brasileiro. Quando publiquei aqui, há 15 dias, esta lembrança de Oiapoque e Chuí, dois dias depois recebi carta de Antonio Russo, vinda de Roraima, que me esclareceu: “Nascido em Ribeirão Preto, morei anos em Lisboa e atualmente vivo em Boa Vista, Roraima. Temos aqui em curso nos últimos anos, uma campanha para divulgar ao povo brasileiro, o ‘novo’ extremo norte do Brasil. O Monte Caburaí, que fica aqui Roraima”. De minha parte entrei na campanha e avisei meus netos. A nova geografia deve se atualizar: Do Monte Caburaí ao Chuí. E se os professores reclamarem, mandem falar comigo.

O travesseiro. A volta de Eike ao Brasil suscitou todo tipo de perguntas. Ele rasparia a cabeça? Usava peruca ou era um tratamento especial, um implante? Implante não podia ser, o Renan também fez e continua sem cabelos. Sem cabelos e com muita sem-vergonhice dentro da cabeça. Vimos depois que o Eike tinha uma moderníssima peruca, supertecnológica. Iria para cela comum, cela especial, ou spa? Foi para uma cela comum, não tem curso universitário. Agora, todo político está procurando um curso às pressas. Sim, já falei sobre isso, não custa repetir.

Já vi muita gente levando travesseiro em viagem de ônibus intermunicipal. Mas em classe executiva, em primeira de avião? Eike trouxe o travesseiro de casa ou “pegou no avião? Será aquela síndrome (é síndrome?) que criancinhas têm de carregar o cobertor junto à orelha? Eike se infantilizou na derrocada? Antigamente, as pessoas roubavam mantas, talheres e vidros de perfume das aeronaves, como dizem os comissários. Eike veio de executiva. Está sem dinheiro mesmo? Por que não veio apertado na econômica para ir se acostumando com a cadeia?

Delatores. Voltando da fisioterapia na segunda-feira, conversei com o taxista. Sempre converso. Ouço coisas interessantes e muita bobagem. O desta semana estava indignado. O prefeito anunciou que fez acordo com a classe para que, ao percorrerem as ruas, denunciem pichadores. O resultado, me contou, é que vários táxis vêm sendo pichados. “Se picharem o meu, paro em frente à Prefeitura e só saio de lá quando me pagarem o prejuízo.” Delação está fazendo parte da sociedade brasileira.

Cultura. Recebo todo tipo de telefonema, de telemarketing a gente que quer meus dados pessoais por motivos que eles não dizem qual. A estes, respondo como na infância: “Vê se tem guaraná em meus olhos?”. A expressão ainda me é misteriosa depois de tantas décadas. Alguém a conhece? Dia desses, uma jovem chamada Jaqueline me ligou dizendo que falava em nome de André Sturm, secretário de Cultura, pessoa que admiro pelo trabalho. Queria agendar um encontro com ele para falar de projetos de literatura. Eu respondi que estava disposto. Pedi o telefone para que eu desse retorno ao André, ela me disse que me enviaria os números. Não vieram. Mandei e-mails para a secretaria, voltaram quatro vezes. Só preciso que o André confirme o tal encontro, para que eu não passe por mal-educado.

Finalizando: alguém sabe o que está acontecendo lá em cima, nomeia daqui, nomeia dali, nomeia de lá, Judiciário desnomeia. Será que o Temer pensa que o brasileiro tem guaraná nos olhos?

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