Do amor e outras guerras

Em sua estreia, Alexandra Lucas Coelho mistura paixão e conflitos no Oriente Médio

MANOELA SAWITZKI É FICCIONISTA, AUTORA DO ROMANCE SUÍTE DAMA DA NOITE (RECORD), O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2012 | 03h12

MANOELA SAWITZKI

Porque Yasser Arafat está prestes a morrer, dois jornalistas estrangeiros se conhecem em Jerusalém. Estamos em 2004, Ana Blau tem 36 anos e vive sozinha em sua terra natal, Barcelona. Léon Lannone é uma década mais velho, belga, casado e pai de três filhos. Não é o tipo de homem que costuma atraí-la. Mas, sobretudo no território das histórias de amor, a realidade com frequência recai na inverossimilhança e no absurdo, se desdobra como numa ficção ruim. Léon e Ana se apaixonarão. A distância, trocarão profusões de SMS, e-mails, poemas, num romance alimentado por encontros rápidos, pelo atrito constante do possível e o impossível. "Isto está mesmo a acontecer-me? Um folhetim de cordel, uma opereta?", pergunta-se a amante aturdida pelo papel que desempenha a contragosto e, sabe bem, transita no limiar entre o trágico e o ridículo. "Mas somos o que nos acontece, estamos em movimento e todos admiramos aqueles que deixam tudo por amor."

Em E a Noite Roda, seu romance de estreia, a jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho combina narrativa de viagem, jornalismo literário e ficção com a desenvoltura de quem tem intimidade com as palavras e um interesse agudo pela vida. Seu texto flui e penetra nos lugares pelos quais a narradora se desloca, incapaz de se ancorar ao homem que ama. Nada escapa ao olhar afiado que Ana lança sobre o mundo e o próprio percurso amoroso. É fácil compreender por que, diante dela, Léon "transborda como um adolescente".

Jerusalém, Ramallah, Gaza, Madri, Paris, Belém, Damasco: são as viagens que devolvem a Ana os sentidos comprometidos pela "doença". Como uma enfermidade violenta, a paixão se dissemina de muitas formas. No entanto, entregar-se aos lugares (ou a outros homens) não lhe basta. Mesmo o corte final não implicará, por si só, garantia de cura. Só o distanciamento concedido pelo tempo lhe permite revisitar a pulsão amorosa, o sofrimento, e também rir do patético do próprio flagelo.

"As histórias felizes são relâmpagos", ela diz. Seis anos depois, o estrondo que sucedeu a iluminação ainda ecoa. Arafat morreu, o ciclo de ataques e retaliações entre Israel e Palestina prosseguiram, e Léon, "um desaparecido", sobrevive dentro de Ana. A memória de um encontro, mais projetado e dito do que vivido, ganha corpo e pulsa outra vez na palavra escrita. Ela escreve para que essa história acabe. E comece. A verdadeira amputação está no silêncio.

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