Adrien Veczan/Reuters
Adrien Veczan/Reuters

Diversidade de Ozon

Diretor de 'Potiche' fala do filme que abre o Festival Varilux

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

07 Junho 2011 | 00h00

Catherine Deneuve desembarcou ontem na cidade, à frente de uma delegação francesa que está vindo ao País para promover o Festival Varilux. A primeira etapa é São Paulo, onde a estrela que, segundo o diretor Christophe Honoré, "é a cara da França", permanece até amanhã. O grupo depois segue para o Rio, onde fica até domingo. Em Cannes, entrevistada pelo Estado, Catherine lembrou-se de suas visitas anteriores, mas elas sempre foram breves e nunca lhe permitiram "conhecer", de verdade, o Brasil.

Ela vem agora mostrar o novo filme de François Ozon, Potiche, em que divide a cena com Gérard Depardieu. Há quase 30 anos, jovens e belos, interpretaram um grande filme de François Truffaut, O Último Metrô. Ozon não participa da delegação francesa, mas, somente este ano, ele teve dois encontros com o repórter do Estado, em Paris. Um, foi numa coletiva, em janeiro. O outro, individual, no Café Beaubourg, junto ao Centro Charles Pompidou, na volta de Cannes.

Em pouco mais de seis meses, o público brasileiro está assistindo a três de seus filmes - O Refúgio, Ricky e Potiche. De onde vem essa sua disposição para fazer filmes um atrás do outro? Sei de diretores que demoram anos para desenvolver um projeto. Eu aproveito a conjunção favorável. Quero fazer um filme, os produtores se interessam, vamos lá. O sucesso tem me ajudado, embora existam fracassos que me parecem inexplicáveis. Achei que Ricky iria estourar, o público francês nem quis saber. Em Potiche, o público correspondeu, os produtores ficaram felizes, isso me dá cacife. O importante é que gosto de escrever roteiros, filmar... Os lançamentos é que, muitas vezes, cansam. Gosto menos de ficar dando entrevistas (risos). Coletivas, só em último caso. São dispersivas e superficiais.

Os filmes citados estão unidos em torno da família, mas diferem entre si. Qual é a explicação? Que eu gosto de variar! Dizem que os grandes autores se repetem, mas eu detesto me repetir. Me ocorre de fazer um filme contra o anterior. Sei que não sou um diretor impessoal. Meus filmes têm uma autoria, mas nunca me preocupo em colocar minha assinatura, acima de tudo. O que me interessa são as histórias, os personagens.

O que havia de tão atraente em Potiche? Em tom leve e divertido, este é um filme que me permite falar de tudo. Do amor, da família, dos negócios, das diferenças entre mulheres e homens. Mas o que realmente me encantou foi a mudança da personagem. Catherine (Deneuve) evolui de esposa para administradora e política. Mostrar essa transformação foi estimulante. Catherine adorou o papel. E, sim, você tem razão. A mãe de família vira a mãe da França. Um papel ideal para ela, não?

Deneuve reencontra Depardieu. São os dois grandes mitos do cinema francês. Não é intimidante? Afinal, nem precisam de direção... De onde você tirou essa ideia? Precisam até mais do que os novatos. Justamente por terem experiência e achar que sabem tudo, eles poderiam transformar as cenas num caos. O filme está na cabeça do diretor, não na dos atores. O que Catherine e Gérard me trazem é a persona deles, uma longa história que já está consolidada no inconsciente do público. E isso é precioso.

Houve algum desafio particular em Potiche? A cena da discoteca. Gérard não é bom dançarino, está enorme. Mas a cena é fundamental. Não poderia abrir mão dela. No final, botei a câmera para dançar. Eles me deram o reencontro. Ficou muito bom.

Você, como sempre, faz suas traquinagens. O final com o filho abre uma janela para a aceitação do homossexualismo... ...Shhhhhhhh (faz gesto de silêncio). Não chame muito a atenção. Certas coisas ficam melhor secretas (e ri).

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