Dias de glória tiveram espetáculos engajados e debates

Análise: Jefferson Del Rios

O Estado de S.Paulo

21 Outubro 2012 | 03h10

Com Murro em Ponta de Faca, de Augusto Boal, encenada em 1978, o Taib ainda estava no roteiro da melhor programação teatral de São Paulo. Fiel à sua origem política e cultural judaico-brasileira progressista, o teatro dessa rua com nome de Barão trazia já um sólido histórico. O espetáculo, dirigido por Paulo José e com Renato Borghi e Othon Bastos entre outros, tratava de exílio e a anistia seria realidade apenas no ano seguinte. Foi um dos grandes momentos da sala com murais de Gershon Knispel e que ao longo de vários anos ganhou um público fiel. Lá o ainda novo Teatro Popular do Sesi, criado por Osmar Rodrigues Cruz, teve seu triunfo histórico ao apresentar O Milagre de Annie Sullivan, de William Gibson, com Berta Zemel que recebeu da crítica o então cobiçado Prêmio Molière (1967). Dois anos de casas lotadas. O lugar, a extensão cênica do Instituto Cultural Israelita Brasileiro acolheu a seguir mais espetáculos memoráveis que se alteraram com atividades literárias e debates políticos.

Havia desde o romantismo simples de Manhãs de Sol, de Oduvaldo Vianna (1966), clássicos brasileiros como Memórias de Um Sargento de Milícias, de Manoel Antonio de Almeida (1970) e Senhora, de José de Alencar, adaptado por Sérgio Viotti (1971), produções do mesmo Sesi, a peças engajadas na luta pela redemocratização do País. Antes do texto de Boal, houve Ponto de Partida (1976), de Gianfrancesco Guarnieri, abordando indiretamente o assassinato do jornalista Vladimir Herzog. Direção de Fernando Peixoto e elenco encabeçado por Guarnieri, Othon Bastos e o cantor e compositor Sérgio Ricardo. No ano seguinte veio a remontagem de Pequenos Burgueses, de Máximo Gorki, peça originalmente dirigida por José Celso no Teatro Oficina (1963). Do primeiro elenco e assumindo a direção, estava Renato Borghi.

Como o operário comunista, Carlos Alberto Ricelli refez o papel criado antes por Ronald Daniel (que hoje, estabelecido no teatro inglês e assinando Ron Daniels, voltou ao Brasil para dirigir Hamlet com Thiago Lacerda). Guarnieri retornaria ao Taib com Peque e Não Pague texto cômico e anarquista de Dario Fo (1982) ao lado de Borghi, Bete Mendes, Herson Capri e Regina Viana. Depois foi o declínio do teatro, o vazio das 400 poltronas. Gerações de artistas e espectadores se lembram dele. Faz falta à cidade.

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