Diálogo das pombas

Imagine duas pombas dialogando na Praça dos Três Poderes

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

16 Julho 2017 | 02h00

Imagine duas pombas dialogando na Praça dos Três Poderes. 

– Viu só? Agora inventaram um Código de Ética.

– Triste país em que a ética precisa de um código para ser entendida.

– A culpa é de Brasília, que está distante de tudo. Aqui tudo precisa ser reinventado, até a ética. Aqui, o poder é apenas uma forma hierarquizada de solidão. Em Brasília nenhuma multidão é uma multidão, são vários solitários juntos.

– Literatura. A culpa é de Brasília porque foi aqui que começou o Brasil moderno, ou o Brasil refém das empreiteiras. Juscelino inaugurou o regime sob o qual vivemos e do qual tudo o mais é decorrência: a ilicitocracia. O governo por licitação suspeita, o lobby como programa, o “quanto eu levo nisso” como lema e a propina como sistema. Ao mesmo tempo que desbravávamos o nosso oeste político, rompíamos a barreira moral que nos mantinha agropastoris e atrasados e nos privava da mola universal do progresso, que é o superfaturamento. E tudo continua igual. Só inovamos o processo: aqui, o refém é sempre o mesmo e mudam os bandidos.

– Não, não, é algo no ar. Algo na luz, algo no chão. A construção de Brasília mexeu com o que não era para ser mexido, despertou um monstro enterrado, furou um veio maligno. Isso que anda por aí não é mau caráter, é escapamento. Collor respirou essas emanações na adolescência. Era um filho da profanação. Aquilo não era falta de escrúpulos, era intoxicação.

– Mas o Temer, por exemplo, não é daqui.

– Mas foi aceito como um filho. Só a um filho se permitiria chegar tão longe, sabendo-se o que se sabia dele. Só uma mãe adotiva seria tão compreensiva.

– A culpa não é do chão, é da obra. Nenhum país se torna uma cleptocracia moderna e fica inocente ao mesmo tempo. Esse canteiro de transformações, em qualquer outro lugar, teria dado a mesma coisa. Todo o mundo sabe o que há num canteiro de obras: métodos pesados e muita lama. Não é um lugar para almas leves. É um lugar para tratores e Padilhas.

– A culpa é da luz! Razão teve o Jânio, que deu no pé. Não foi golpe mal dado nem ressaca, foi lucidez. Jânio encarou a luz de Brasília e decidiu que ela, sim, o enlouqueceria. Era ela ou ele. Fugiu.

– Jango chegou a Brasília com a pior ilusão que um presidente pode ter: a de que preside. Não soube administrar nem a sua solidão. Foi expulso.

– Os presidentes militares sobreviveram à luz, ao ar e ao sortilégio de Brasília porque souberam usar a principal virtude militar, que é a falta de imaginação. A solidão não os afetou porque mesmo o general mais sozinho tem a companhia das suas divisas e pelo menos uma presunção de tropa.

– Brasília não se contentou em repudiar Tancredo. Matou- o. 

– A danação poupou Sarney.

– Tudo poupou Sarney. A vida, a história, a crítica literária, os eleitores... Sarney descobriu a camuflagem perfeita para passar por Brasília incólume. Se disfarçou de José Sarney.

– E Itamar?

– Itamar escapou porque, onde quer que ele estivesse, estava sempre em Juiz de Fora. É um caso raro em que a geografia acompanhou o homem. 

– E chegamos a Fernando Henrique.

– O Surpreendido. Este descobriu um meio de conviver com Brasília, e com o Brasil no qual nenhum presidente desde Juscelino pensara.

– Qual?

– Não se envolver e fingir que nada era com ele.

– E nós, o que fazemos aqui?

– Somos parte da paisagem.

– Outra maneira de não se envolver.

– Isso.

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