Deus, a máquina de escrever e o pensamento veloz

Crítica: Jefferson Del Rios

O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2012 | 02h12

Dentro da vida veloz de Ferreira Gullar há sua poesia já consagrada na grandeza da linguagem e dos temas. O teórico do Manifesto Neoconcreto, figura destacada nas polêmicas estéticas e políticas que desencadeou, é também por demais conhecido. O caso aqui é do dramaturgo que, em parcerias, foi atuante em um momento político grave.

Ninguém se esquece, e com gratidão, da peça Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come, escrita em 1966 com Oduvaldo Vianna Filho. Título e enredo de uma eloquência irônica e premonitória, anunciando os dias que viriam no País submetido a uma ditadura militar. Foram anos de resistência de Gullar e companheiros do Grupo Opinião, do Rio de Janeiro. Oposição que lhe custou prisão e exílio. Em um relato comovente, o poeta conta o dia em que, em Buenos Aires, ao ver na agência da Varig uma foto do Rio e suas praias decidiu, contra todos os perigos, voltar para casa. Eis o gesto sobre o qual um dia, quem sabe, escreverá.

No momento, porém, há um Ferreira Gullar mais leve depois de perdas enormes. Um brasileiro que se permite lances de bom humor em crônicas, reminiscência e no atual monólogo O Homem como Invenção de Si Mesmo. Um criador sem asperezas e, no caso, meio descuidado com os recursos do gênero. Na história que inventou, um homem medita sobre a vida enquanto tenta, em telefonemas seguidos e frustrados, reatar uma complicada relação amorosa.

Como se trata de divagação a esmo do cidadão nervoso com o rompimento, a pressa o leva a enfileirar pensamentos idiossincráticos sobre, por exemplo, a virtude das velhas máquinas de escrever, as irritações que a informática provoca e digressões sobre Deus.

Determinados rasgos nostálgicos ou achados cultos têm lances engraçados: saudade de uma Lettera 22, alusões literárias (o personagem se chama Vicente Mezatti, o que lembra o romancista italiano Dino Buzzati) e expressões antigas como "chatola". O que nem sempre se encaixa bem é o arsenal humorístico e a vontade de divagar sobre como o ser humano se inventa e constrói o mundo em que vive. O exaltado personagem argumenta que o homem criou Deus para que este o criasse.

Tanta filosofia não resiste ao telefonema final da amada, que não se pode revelar aqui. O texto está precisado de arranjos nas peripécias e de mudar o título pesadão. O ideal, se não for pedir muito, é o próprio Ferreira Gullar representá-lo naquela linha informal dos literatos intérpretes Ascenso Ferreira, Silveira Sampaio e Ariano Suassuna. Seria uma experiência interessante ver o poeta em cena numa Luta Corporal com a palavra.

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