Desafios por trás das imagens

Gombrich foi criado em Viena, circulando regularmente pela Ringstrasse, onde edifícios monumentais do século 19 imitavam os mais diversos estilos de arquitetura: o Parlamento imitava o grego, a prefeitura era uma versão do gótico, a universidade foi construída em estilo renascentista e apenas o prédio dos Correios era moderno. Foi essa variedade que o levou, aos 12 anos, a planejar seu primeiro livro de história da arte, um volume que deveria fazer justiça a todos os períodos. A História da Arte foi finalmente lançado em 1950, transformando-se num incontornável best-seller (mais de 7 milhões de livros vendidos), sendo ainda hoje considerado a mais acessível introdução ao assunto.

O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2012 | 03h11

Há lacunas em A História da Arte - o leitor não encontra nele muito sobre arte etrusca, por exemplo -, mas elas são compensadas pela atenção concentrada em alguns artistas que Gombrich julgou fundamentais para o desenvolvimento da percepção visual. Em Arte e Ilusão (1960), o historiador usa a noção de "schema" para afirmar que o artista, invariavelmente, parte para a realização de uma obra não com sua impressão visual, mas com a ideia ou o conceito que estão por trás dessa imagem. Em outras palavras: o pintor tende a ver o que pinta, e não a pintar o que vê.

Em Os Usos das Imagens (1999), ele parte das caricaturas feitas pelos irmãos Carracci, no século 17, para mostrar que, embora caçoando dos amigos retratados e alterando suas características individuais, esses retratos ainda conservam semelhanças com seus modelos. Foi o conceito dos retratos satíricos que levou artistas ingleses como Hogarth a copiar os Carracci e implantar a tradição que se mantém até a atualidade nos jornais diários. O livro analisa desde o papel social dos afrescos no Renascimento e no Barroco até a suposta caricatura blasfema que Salman Rushdie fez do profeta do Islã em seu livro Os Versos Satânicos - para Gombrich, a sátira pictórica teria contribuído "para essa noção bastante tola de superioridade, ao reforçar o estereótipo que determinado grupo tem de si mesmo e dos demais".

Gombrich não concebia a percepção como um processo passivo - e isso fica claro desde o primeiro parágrafo de O Sentido de Ordem. Ele acreditava, como seu mentor filosófico Karl Popper, naquela que ficou conhecida como "teoria do holofote mental", para a qual o organismo do observador está em constante atividade enquanto rastreia o ambiente, contestando a "teoria do balde mental" de Locke, para o qual a mente de um bebê é uma tabula rasa. Para Gombrich, esse "olho inocente" simplesmente inexiste. Um homem no escuro não vai tatear e se movimentar de qualquer jeito, mas usar cada descoberta "para formar uma hipótese sobre o significado de seus encontros". Assim também é o espectador da arte.

O Sentido de Ordem (1979) trata basicamente da questão do ornamento e seus desdobramentos na arte, desde que o homem resolveu adotar padrões geométricos que não imitam a natureza e se tornaram persistentes a ponto de adquirir vida própria. Gombrich, algo avesso à abstração, lembra que não há nada que o pintor abstrato mais rejeite do que o termo "decorativo", mas o fato é que a teoria da pintura abstrata do século 20, segundo ele, "deve mais aos debates sobre design que sugiram no século 19 do que normalmente se admite". Muitos críticos, obviamente, discordam dele, mas, como o próprio Gombrich observa no epílogo, o historiador não é um crítico - "quase sempre obcecado com a novidade e com a mudança".

Uma boa introdução a todas essas questões é Gombrich Essencial, a coletânea organizada por Richard Woodfield. Os textos mais interessantes dizem respeito à questão do primitivismo, que tanto atraiu a modernidade quanto esta repeliu a ornamentação. É recomendável que o leitor comece pelo sétimo capítulo, em que Gombrich, evocando Popper, justifica a razão de os humanistas estarem menos interessados em perguntas genéricas e mais em casos individuais e eventos particulares.

Gombrich jamais recorreu às entidades mitológicas da historiografia romântica - como o Zeitgeist (espírito da época) - para explicar um fenômeno cultural. Não o fez nem mesmo quando escreveu sua Breve História do Mundo para crianças, em que recomenda ao pequeno leitor se colocar entre dois espelhos para ver que eles vão ficando cada vez menores e menos nítidos. A civilização, dizia, pode ser transmitida, mas não ensinada. E parece que o historiador continua coberto de razão. / A.G.F.

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