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De que atrocidades o homem é capaz?

Ignácio de Loyola Brandão

Estava em Ourinhos, semana passada, no tradicional festival A (o) das Letras, quando pessoas da plateia perguntaram, a mim e ao Jefferson Del Rios, que estava sendo homenageado pela sua cidade natal, o que achávamos de certas fotos que estavam chegando pelo Instagram.

Que fotos?

Do acidente com Eduardo Campos.

Mostraram. Fiquei paralisado. Não acreditava no que via. Desviava os olhos sem aceitar. Fiquei velho e anacrônico, fiquei mole, emociono facilmente? Não tenho como responder. Depois, aqui em São Paulo, em vários lugares, também me mostraram as mesmas fotografias assustadoras. Como se não bastasse a extensão da tragédia. As fotos traziam pedaços minúsculos de corpos explodidos, dedos, orelhas, sapatos ensanguentados. Na hora, perplexo, pensei: onde chega a insensibilidade dos (de alguns) seres humanos? Qual a intenção? O por quê? Lembrei-me também da curiosidade que leva as pessoas a correrem para ver um assassinado, acidentado, massacrado. Há um lado mórbido, tenebroso na alma de alguns que os levam a buscar prazer na tragédia.

Confesso que passei dois dias com aquelas imagens na cabeça. Quem bateu tais fotos? Por quê? Para quê? Em que momento romperam o cordão de isolamento e sacaram os celulares? Ou chegaram antes de todo mundo? Faz parte da maldade que está em cada um? Uns reprimem, outros não conseguem (nem querem), soltam-se, dão vazão ao que há de pior em seu interior.

Por um acaso, estou lendo um livro forte, As Mulheres do Nazismo, de Wendy Lower, Editora Rocco. A autora é consultora de História do Museu do Holocausto nos Estados Unidos e vem pesquisando o assunto há 20 anos. À medida que o nazismo se expandia, as mulheres alemãs tiveram que assumir mais e mais tarefas, administrando casas, fazendas, escritórios privados e do governo. Imiscuíram-se enormemente no que seriam tarefas "dos homens", uma vez que estes deveriam estar livres para as lutas, as batalhas, o fronte. Uma nova hierarquia emergiu, de auxiliares a superiores. Porém, acentua a autora, essa mobilidade social teve um preço: "A participação das mulheres nas operações de assassinatos em massa".

O livro mexe em uma ferida ainda não cicatrizada: "O silêncio geral das alemãs depois da guerra que teve muitas raízes, principalmente a vergonha, o sofrimento e o medo". Estas mulheres foram secretárias, assessoras, consultoras, arquivistas, datilógrafas e telefonistas que eram envolvidas pelos tentáculos burocráticos dos sistemas do Reich. Muitas gostaram da tarefa, envolveram-se nelas, era maneira de ter "poder" e situação financeira mais elevada. Mulheres cujos dedos apertavam as teclas das máquinas de escrever, copiando as determinações dos "matadores burocráticos ou assassinos de escritório", aqueles que em Nuremberg alegaram estar cumprindo "dever, ordens". Procedimentos de "rotina que geraram crimes sem precedentes". Nenhuma destas mulheres podia alegar "desconhecer o impacto humano de seu trabalho", assegura Wendy.

Pior, milhares delas gostaram do trabalho, do status a elas conferido, muitas gostavam de assistir, participar das execuções do "lixo judeu". Milhares participaram dos saques de bens judaicos nos territórios ocupados, fossem roupas, joias, dinheiro, mobílias, objetos de decoração, ovos, farinha açúcar, tudo.

Foram raríssimos os depoimentos de mulheres que se constrangeram e se horrorizaram, mas eles existiram e contaram o que viram, viveram. Uma delas, Ilse Struwe, confirmou que "fotos eram tiradas das vítimas das execuções públicas - pessoas ajoelhadas à beira de uma vala comum e fuziladas, pessoas metralhadas em plena rua quando expulsas dos guetos, montes de cadáveres amontoados nas ruas - e estas fotos eram usadas como material de propaganda. Ilse se perguntava: como pode alguém fotografar tais atrocidades?

Todos os dias ela lidava com pastas de fotografias assustadoras para um ser humano comum, milhares, sim milhares de crianças, mulheres, jovens, velhos, homens, mortos com tiros na nuca e jogados numa vala e cobertas com cal. Este material era usado "para enfraquecer os judeus, amedrontar, deprimir, era medida preparatória, persuasória".

Ao ver as fotos com pedaços das vítimas do acidente com o Cessna em Santos, vieram-me à mente as cenas narradas por Wendy Lover em seu livro. Horror, o mais puro horror. Fiquei pensando na frieza de uma pessoa que circula com a câmera em punho procurando destroços humanos, sem pensar que tinham sido partes de um pessoa com uma história de vida. Fiquei gelado ao imaginar que vários amigos, parentes, ou conhecidos daqueles que estavam no avião possam ter recebido tais fotos. Sem saber, sem ter como saber, de quem era aqueles "pedacinhos". O homem será sempre capaz de atrocidades como estas? Onde estamos chegando?