JAQUES DEQUEKER/VOQUE BRASIL
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De Leila Diniz à Gisele: a história do biquíni no Brasil

Em novo livro, jornalista Lilian Pacce relata a trajetória e as curiosidades do conjunto ousado que é a cara da moda do País

Maria Rita Alonso e Isabela Serafim, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2016 | 16h00

Estamos na charmosa biblioteca do Hotel La Réserve, em Paris, para celebrar o lançamento do livro O Biquíni Made In Brazil, escrito por Lilian Pacce, publicado pela editora Arte Ensaio e com projeto gráfico assinado por Giovanni Bianco. 

É dia primeiro de outubro e acontece a semana de moda da capital francesa, com alguns dos desfiles mais importantes do mercado. “Nada melhor do que lançar a obra onde tudo começou”, diz Lilian. O biquíni foi inventado na França em 1946, enquanto testes com a bomba aconteciam no atol de Bikini, nas Ilhas Marshall, no Pacífico, e dois estilistas disputavam a autoria do ousado traje. O designer Jacques Heim inventou um modelo chamado “átomo”, que disse ser a menor roupa de banho do mundo. Depois, o engenheiro e estilista Louis Réard apresentou uma versão ainda menor e a batizou de “bikíni” - nome que ganhou repercussão e acabou batizando o duas peças.

Histórias contextualizadas, precisão nas datas e apuração minuciosa fazem deste um livro de moda especial. A jornalista investigou a trajetória do biquíni em 10 anos de pesquisa ao redor do mundo – Lilian ficou uma semana em Londres, mergulhada no Victoria and Albert Museum, famoso por seu grande acervo de moda, e chegou a passar dois meses no Rio de Janeiro. 

Na capital carioca, o trabalho foi intenso, já que a cidade é berço do lifestyle praiano brasileiro, onde o traje se popularizou de verdade. A relação da autora com os grandes nomes da moda nacional sempre foi muito boa, graças aos anos de carreira na moda. Ela aproveitou essa proximidade e acompanhou David Azulay, da Blue Man, Jacqueline de Biase, da Salinas, e Lenny Niemeyer, da Lenny, por algumas semanas em um trabalho de entrevistas precioso. “Eles não tinham quase nada documentado, então precisei bater as datas diversas vezes. Avaliei manchetes de jornal, propagandas e imagens que fizeram parte da vida do Rio de Janeiro no século 20”, conta Lilian.

Fatos curiosos, como quem inventou o biquíni cortininha (a modelo e atriz dos anos 1970 Rose di Primo, conclui-se ao final) e de onde vem o fio dental, são alguns dos mistérios revelados na obra. Outras musas aparecem em momentos memoráveis, como Monique Evans fazendo topless, Luiza Brunet de sunquíni e até Gisele Bündchen com biquíni básico preto e bumbum coberto de areia em um ensaio de moda. Há ainda Leila Diniz, que causou polêmica quando estava grávida de seis meses e exibiu a barriga na praia de Ipanema, no Rio de Janeiro. O costume das gestantes da época era usar maiô inteiro ou duas peças que cobriam a barriga.

Leila não era casada e sua ousadia gerou protestos por todo lado, mas ela não se importava. A atriz era mesmo uma mulher à frente de seu tempo. O biquíni asa delta, famoso nos anos 1980, também aparece em retratos interessantes. “O modelo supercavado vai voltar com tudo na próxima temporada, pode apostar”, profetiza Lilian. 

Tangas marcam códigos de vestir dos povos indígenas 

O novo livro O Biquíni Made In Brazil traz ainda aspectos antropológicos relacionados ao uso das duas peças. Por exemplo, a origem da tanga, que data do descobrimento do Brasil. Quando os portugueses chegaram ao País, em 1.500, ficaram assustados com a nudez dos índios, que se cobriam com uma vestimenta mínima. Era a tanga, que se transformou bastante até chegar às areias e ir parar nos guarda-roupas das brasileiras. O capítulo que conta a história da peça apresenta fatos interessantíssimos. Até hoje, cada povo tem a sua, com variações de cores, tecidos e tamanhos. As meninas do Baikari, do Mato Grosso, por exemplo, usam, a partir da puberdade, o uluri, uma minúscula tanga feminina de 5,5 cm de largura por 2 cm de comprimento. Além dos aspectos antropológicos, a autora Lilian Pacce explica os cenários em cada fase da história do biquíni. "Moda vai muito além da roupa. É comportamento e retrato de uma época", diz. Em um trecho, ela conta que no período da ditadura militar no Brasil, entre 1964 e 1985, a imagem da mulher sensual e despida foi vendida para o mundo todo, assim como a de uma população feliz e solar. Foi aí que as brasileiras se tornaram conhecidas como símbolos sexuais. "O maior problema dessa fase foi o turismo sexual. Temos até hoje essa herança”, afirma Lilian.  

O Biquíni Made In Brazil  

Editora: Arte Ensaio

Autora: Lilian Pacce

Págs.: 350

Preço: R$ 120

 

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