De Gutenberg ao livro digital

Evento na cidade alemã estimula negócios com e-books - mas sem se esquecer do passado

UBIRATAN BRASIL - ENVIADO ESPECIAL / FRANKFURT, O Estado de S.Paulo

13 Outubro 2012 | 03h08

Seis séculos em apenas um segundo - vestido com roupas típicas do século 15, um homem prepara uma prensa onde vai imprimir uma folha seguindo os mesmos procedimentos usados naquela época por Johannes Gutenberg (1398-1468), considerado o inventor da imprensa moderna. À frente do compenetrado senhor, um adolescente espigado faz uma foto do trabalho com seu iPad, o mesmo aparelho em que pode baixar, em questão de segundos, livros que levariam dias para ser compostos à moda Gutenberg. A cena, uma verdadeira viagem no tempo, aconteceu durante a Feira de Frankfurt, a maior do mercado editorial planetário, que termina amanhã. A prensa, os tipos, as tintas compõem o estande do Museu Gutenberg, localizado na cidade de Mainz e que, na feira, pretende revelar aos mais jovens como surgiu a técnica moderna de impressão.

"Vivemos o primeiro milionésimo de segundo depois que um big-bang mudou completamente a galáxia Gutenberg", ironizou Jürgen Boos, diretor da Feira de Frankfurt, usando a metáfora para mostrar o momento de transição por que passa o setor editorial com o desenvolvimento da digitalização. "Tudo mudou: a lousa da escola se transformou em um monitor e a biblioteca, em arquivos de computador."

Boos discursou durante a abertura da feira, na quarta-feira, quando mais de 7 mil exibidores de quase 200 países deram início à tradicional caça do título dourado, ou seja, o livro que vai se tornar o novo best-seller mundial. Seu otimismo quanto à evolução do livro digital, no entanto, contrastava com o ceticismo dos editores - sobretudo, os alemães, cujo mercado digital cresce a passo de elefante enquanto a pirataria na web avança como um cavalo de corrida - dois sites ilegais, por exemplo, ofereciam, até há algum tempo, mais de 400 mil títulos sem os direitos devidos.

O problema está no campo legal - na Europa, o aumento radical da cota de mercado do livro digital comprometeria a saúde das pequenas livrarias. Por conta disso, a cota de mercado de e-books em território europeu é de apenas 2%, enquanto nos Estados Unidos a cifra alcança os 60%. Na ponta do lápis, isso significa que, enquanto no mercado anglo-americano um livro digital chega a custar 10% do valor da obra em papel, na Europa a diferença é mínima, quase inexistente.

Se isso, de uma certa forma, protege a saúde das pequenas livrarias europeias, para os americanos significa um aumento de dinheiro no bolso, mesmo com a crise econômica: uma pesquisa apresentada em Frankfurt mostrou que a venda de e-book já corresponde a 10% do faturamento de pelo menos 36% das editoras do país.

Mesmo com tal protecionismo, proprietários de livrarias se sentem ameaçados. "Não temos nenhuma garantia de futuro", comentou Gottfried Honnefelder, presidente da Associação Alemã de Livreiros.

Jürgen Boos reconhece o impasse e credita sua origem às diferenças culturais e comerciais. "Enquanto os americanos veem o livro como um bem de consumo, muitos europeus ainda o consideram um bem cultural."

É o que pode explicar o grande interesse pelo estande da feira que oferece pequenas joias do livro impresso - objetos cuja capa oferece nova textura, com reentrâncias e sutil aspereza, ou ainda um design criativo, inovador.

"Não é importante saber se as crianças leem livros de papel ou digital", disse Boos. "Mas que elas continuem interessadas em um suporte de leitura." Na prensa do Museu Gutenberg, curiosamente instalado ao lado da sala de imprensa, a atração é criar papéis coloridos, que encantam a garotada habituada ao fato de que basta um clique para se trocar de imagem. Muitos deles são convidados a montar as linhas de uma página, a lambuzar os tipos de tinta, a forçar a prensa que força o papel contra a caixa com as letras. Exemplo de um passado rústico, mas ainda encantador.

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