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De frente para o horror

Saul Friedländer, um dos maiores historiadores vivos do Holocausto, cujo trabalho chega agora ao País, comenta em entrevista ao ‘Estado’ as dificuldades para abordar tema tão impactante

MARCOS GUTERMAN - O Estado de S.Paulo,

29 Junho 2012 | 19h51

O checo Saul Friedländer, de 79 anos, é um dos maiores historiadores do Holocausto. Pode-se dizer que ele e Raul Hilberg (1926- 2007), autor de The Destruction of The European Jews (1961), obra-prima do estudo do genocídio dos judeus na Segunda Guerra, são os responsáveis pelas pesquisas definitivas sobre esse tema ainda tão aberto. E é justamente o principal trabalho de Friedländer que acaba de chegar ao Brasil, pela editora Perspectiva. Os dois tomos de A Alemanha Nazista e os Judeus - Os Anos da Perseguição (1933-1939) e Os Anos de Extermínio (1939-1945) - este, previsto para agosto, pelo qual ele ganhou o Pulitzer em 2008 - trazem uma articulação entre documentos e depoimentos que devolvem ao Holocausto a sua dimensão humana, perdida em razão dos números monstruosos e da sistematização da morte. “E não se pode dizer que ele não se repetirá”, alertou o historiador em entrevista exclusiva ao Sabático.

Com essa autoridade, Friedländer foi também um dos participantes do grande debate historiográfico acerca do Holocausto nos anos 80. Nessa disputa se chocaram duas visões fundamentais: a “funcionalista”, segundo a qual o genocídio ocorreu não por ordem direta de Hitler nem como resultado de um plano estabelecido, mas sim pela ação da malha burocrática nazista; e a “intencionalista”, que atribui a Hitler papel decisivo no massacre. Seu trabalho se alinha a uma “terceira via” desse debate, que mostra o Holocausto como a conjugação do zelo burocrático e da omissão da sociedade alemã, mas sob a fortíssima inspiração da liderança hitlerista.

Friedländer é sobretudo crítico da chamada “historicização” do estudo do genocídio, que coloca Hitler e sua política de eliminação física dos judeus e de outros “indesejados” como um elemento “normal” e não excepcional na trajetória histórica da Alemanha e da Europa - Hilberg e Leon Poliakov, para ficar em apenas dois exemplos de grandes pesquisadores, chegam a sugerir uma linha de continuidade da ferocidade antissemita alemã de Lutero a Hitler.

Friedländer matizou esse raciocínio ao debater com o historiador alemão Martin Broszat, que estava interessado em retirar o peso “moral” que naturalmente recai sobre o nazismo para colocar esse movimento na perspectiva da “longa duração” e, também, na chamada “Alltagsgeschichte”, a história do cotidiano. A ideia, para resumir o pensamento de Broszat, era revelar a “normalidade” da vida dos homens comuns na bárbara Alemanha de Hitler.

Para Friedländer, ao tratar o nazismo sob a ótica dessa “normalidade”, perde-se a referência da imensidão dos crimes cometidos e alimentam-se teses segundo as quais Hitler apenas resumiu, de modo violento, a reação das classes médias europeias ao comunismo, como defendeu Ernst Nolte, o historiador alemão que acendeu a querela historiográfica dos anos 80. Mais recentemente, pesquisadores alemães de prestígio, como Götz Aly e Christian Gerlach, lançaram trabalhos em que o Holocausto é visto como um empreendimento “econômico”. Aly diz em seu livro Hitler’s Beneficiaries - Plunder, Racial War and the Nazi Welfare State (Os Beneficiários de Hitler - Saque, Guerra Racial e o Estado de Bem-Estar Social Nazista, sem edição no Brasil) que o alemão médio permitiu (e aplaudiu) o nazismo porque a máquina de destruição e de escravização dos inimigos produziu enormes “benefícios” econômicos, ao menos no curto prazo.

“Aly e Gerlach são historiadores muito interessantes”, disse Friedländer, “mas discordo da conclusão deles. O objetivo era matar pelo trabalho, e não explorar a capacidade de trabalho. Os bens pilhados dos judeus não ajudaram a economia alemã, como diz Aly, senão por algumas semanas. A questão é: se você quer explorar os judeus, por que matá-los?” Ademais, essa visão mecanicista, diz Friedländer, esvazia a singularidade do nazismo, que reside no fato monstruoso de que Hitler queria decidir, em escala planetária, quem era digno de viver e quem não era. Tal objetivo, enfatiza o historiador, não se enquadra em nenhuma referência do processo da formação das sociedades contemporâneas.

Nesse sentido, o historiador Walter Laqueur chegou a declarar que, para um jovem pesquisador, é mais fácil entender o imperador romano Augusto do que Hitler. Friedländer considera, porém, que o difícil “não é saber sobre o nazismo, mas entender a mistura de obsessões e loucura que levou Hitler à ideia de exterminar um povo”.

Um dos pontos centrais da querela dos historiadores do nazismo é justamente a definição do papel de Hitler. “Eu não acho que Hitler tivesse o controle total sobre o processo do genocídio”, disse Friedländer. No entanto, argumenta ele, “sem as decisões de Hitler não teria havia o extermínio sistemático e organizado”.

A despeito de sua crítica, Friedländer também discorda da demonização do nazismo, no sentido de atribuir a Hitler o “mal absoluto” e, portanto, irreproduzível. “O Holocausto foi um evento singular até então - nunca tinha havido nada tão sistemático, duradouro e organizado numa sociedade tão sofisticada quanto a alemã. Isso é, em si, impressionante. A questão é que todo evento histórico é singular em seus próprios termos e, no caso do Holocausto, o importante é definir se se trata de algo comparável. O Holocausto se tornou a medida dos genocídios”.

O aspecto moral ajuda a explicar a força que o Holocausto tem como parâmetro da barbárie. Como Friedländer mostra em A Alemanha Nazista e os Judeus, a ideologia nazista deu revestimento jurídico e religioso à fantasia segundo a qual a eliminação dos judeus - primeiro da vida cotidiana, depois da Alemanha e, por fim, fisicamente - era a primeira condição para a felicidade germânica. Os alemães eram contrários à violência, mas não se opuseram às leis de segregação dos judeus. Mais do que isso: a partir de um determinado momento, boa parte dos alemães sabia o que estava sendo feito contra os judeus no dia a dia e também nos campos de extermínio, e um número insignificante deles pareceu se incomodar com isso, o que denota o colapso moral. “Novos estudos mostram que até 30 milhões de alemães (de uma população, à época, de 80 milhões), em 1942, sabiam do extermínio dos judeus e sabiam perfeitamente o que isso significava”, disse Friedländer ao Estado.

Ele contesta, porém, a tese segundo a qual os judeus foram o alvo central da perseguição porque seriam a incorporação da moral ocidental, que Hitler visava destruir - no dizer do ensaísta franco-americano George Steiner, seria uma maneira de “matar Deus”, isto é, a consciência, “e aqueles que O inventaram”. “Steiner é brilhante, com teorias desafiadoras, mas essa não é uma delas”, disse Friedländer. “Os judeus não representavam somente a moral. Eles eram o Mal na História. Hitler chegou à conclusão de que os judeus eram os responsáveis pela calamidade (Unglücklish) que se abateu sobre os alemães - eram os parasitas raciais das nações, sugando sua energia, de modo a destruí-las por dentro.”

Aniquilar os judeus era, portanto, um modo de salvar a Alemanha - e a essa ideia Friedländer dá o nome de “antissemitismo redentor”, eixo teórico de A Alemanha Nazista e os Judeus. Esse antissemitismo diferia do tradicional ódio aos judeus na Europa, segundo ele, porque embutia a “meta idealista” de redimir o mundo a partir da eliminação física de um determinado povo. “No antissemitismo redentor, a luta contra os judeus é o aspecto dominante de uma visão de mundo na qual outros temas racistas não passam de aspectos secundários”, escreve Friedländer em seu livro.

Ao colocar os judeus no centro da narrativa, Friedländer expõe-se como personagem de sua própria história. Seus pais foram mortos em Auschwitz e ele, ainda criança, ficou abrigado num internato católico na França ocupada pelos nazistas. “Não existe nada que seja absolutamente objetivo em história”, disse Friedländer quando questionado sobre essa intimidade emocional com o tema de sua pesquisa. “Ninguém que lide com um objeto tão próximo no tempo, como o Holocausto, e tão importante para a comunidade da qual o historiador faz parte, e tão emocionalmente importante em termos de percepção de si mesmo, ninguém pode ser inteiramente objetivo.” O historiador lembra, a esse propósito, o caso da historiografia francesa sobre o regime de Vichy, que era títere de Hitler, e sobre a resistência à ocupação. Segundo ele, esses registros eram basicamente “mitológicos” até meados dos anos 70. Foi somente então que surgiu uma história confiável sobre o que havia acontecido na França durante a guerra - e o autor dela não era um francês, mas o historiador americano Robert Paxton, que publicou em 1972 o livro Vichy France, demonstrando que o regime de Vichy colaborou com Hitler porque quis, e não porque foi forçado.

Para superar a óbvia dificuldade de se distanciar do objeto da pesquisa, Friedländer defende que haja simplesmente honestidade. “Eu digo que a única coisa que se deve fazer é dizer claramente de onde você vem, de onde você escreve”, diz o historiador. “Eu nunca escondi o fato de que eu era judeu e que passei a guerra na Europa ocupada. Minha história é parte dessa história.”

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