De aço cordas

Jean-Luc Ponty mostra os resistentes marcos de sua fase na Atlantic Records

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

19 Novembro 2011 | 03h08

O violino de Jean-Luc Ponty fez sua fama nos idos do fusion, nos anos 70, época em que o jazz abriu as portas para dialogar com uma série de gêneros, do rock progressivo à música eletrônica. Trata-se de uma fase desdenhada pelos puristas. Alguns reclamam do excesso de virtuosismo e dos arranjos cerebrais. Outros reclamam da cafonice dos novíssimos sintetizadores da época, que substituíram, junto à guitarra distorcida, a timbragem acústica do jazz. Mas é difícil negar o frescor das explorações sonoras feitos pelo Weather Report, ou pela Mahavishnu Orchestr e Return to Forever, grupos com quais o violino elétrico de Ponty esteve associado. Tanto que essa estética barroca tornou-se, nos anos 2000, fonte de inspiração para uma série de produtores contemporâneos, do vanguardista Daniel Lopatin ao incensado Toro Y Moi, que esteve por aqui recentemente.

Alguns dos marcos desta época foram feitos por Ponty, em meados dos anos 70, com discos como Imaginary Voyage e Enigmatic Ocean, trabalhos que o violinista revisita nesta quarta-feira, dia 23, no Teatro Bradesco. O nome do show é The Atlantic Years e cobre o período em que Ponty lançou discos pela gravadora. "Somos a mesma pessoa durante nossas vidas, mas passamos por coisas diferentes e a forma de tocar muda", conta o violinista, em entrevista ao Estado, sobre o show. "Para mim, a volta aos discos antigos quer dizer que eu posso explorar dentro dos moldes que propus na época. A personalidade do meu violino ainda é a mesma, mas eu estou mais maduro. A forma com que minha mente trabalha melhorou. E ainda tenho que provar isto toda vez que subo ao palco, o que é refrescante ", completa.

Os anos 70 foram uma espécie de auge para Ponty. Toda experiência adquirida em dez anos de estrada (seu trabalho com o Modern Jazz Quartet, as dicas do grande violinista Stephane Grapelli e as colaborações com Frank Zappa) vingava. Os frutos foram o amadurecimento de suas composições e arranjos, consolidados pelo iniciativa de formar um grupo próprio. "Em 76, Chick Corea me chamou para integrar o Return to Forever. Tinha acabado de começar minha própria banda. Foi complicado, demorei meses para me decidir, mas eu disse não. Quando lancei meu próximo disco, Chick me ligou e disse que eu tinha tomado a decisão correta", conta.

A fase também representa o início do sucesso comercial de Ponty, que alcançou a crista das paradas de jazz com alguns dos discos. Enigmatic Voyage, por exemplo, chegou a primeiro lugar amparado pelo clássico Mirage, uma de suas melhores composições. Se existe nostalgia em visitar um desses clássicos, o violinista esconde. "Eu posso explorar mais. Vou mais longe. Meu vocabulário se expandiu, rítmica e melodicamente. E sim, tenho mais precisão e controle em minhas improvisações", conta.

A turnê Atlantic Years não é o único revival do qual Ponty tem participado. Este ano, o Return to Forever de Chick Corea, Lenny White e Stanley Clarke reuniu-se para um show no Beacon Theatre de Nova York. Hoje em dia, a banda é acompanhada pelo guitarrista virtuose Frank Gambale, que segura, junto a todos, o alto nível técnico dos encontros. "Existe mais interesse pelo fusion do que antigamente. Mas eu já tinha decidido fazer esse show Atlantic Years antes de tocar com o Return to Forever. Acho que a ideia está no ar", conta Ponty, que mora nos Estado Unidos há 38 anos.

Além do Return to Forever, também se reúne constantemente com seu trio de violino, piano e guitarra (Al di Meola e Stanley Clarke), responsável pelo elogiado disco Rite of Strings, de 1995. "Eu ainda adoro tocar com eles. Toda vez que nos reunimos eu tenho que me focar no som tradicional do violino. Não é sempre que eu toco acústico. Mas acho que meu som é como o vinho: melhora a cada ano", reflete, sobre o som de sonoridades flamencas e africanas que marcou seu período médio.

A banda que vem ao Brasil é formada de comparsas veteranos. Rayford Griffin (bateria), Baron Browne (baixo) e Jamie Glaser todos tocaram nos discos do período em questão. Só William LeComte é parceiro mais recente: toca há uma década com Ponty. Para o show, o violinista separou pelo menos uma composição de cada um dos treze discos lançados no período.

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