Daniel Piza morre aos 41 anos

Daniel Piza morre aos 41 anos

Ligado à literatura e às artes plásticas desde o início da carreira, ele transitava com conhecimento pelo cinema, dança, música e teatro

João Luiz Sampaio, de O Estado de S. Paulo,

31 Dezembro 2011 | 19h18

Morreu na noite de sexta-feira, aos 41 anos, o jornalista e escritor Daniel Piza. Ele passava o fim de ano com a família em Gonçalves, no interior de Minas, quando sofreu um acidente vascular cerebral (AVC). Seu corpo foi velado no sábado, 31, em São Paulo, e o enterro será neste domingo, 1º, às 10h30, no Cemitério de Congonhas. Ele deixa a mulher e três filhos.

Piza nasceu em São Paulo em 1970. Estudou Direito no Largo de São Francisco (USP), mas logo passou a se dedicar ao jornalismo. Começou a carreira no Estado, onde, de 1991 a 1992, foi repórter do Caderno 2 e editor assistente do Cultura. Trabalhou na Folha de S. Paulo (1992-95) e Gazeta Mercantil (1995-2000). Em maio de 2000, retornou ao Grupo Estado como editor executivo e colunista cultural - desde 2004, tinha uma coluna sobre futebol. Na rádio Estadão ESPN, apresentava os programas Estadão no Ar e Direto da Redação.

Piza encarnava a verdadeira definição do jornalista cultural. Ainda que muito ligado à literatura e às artes plásticas desde o início de sua carreira, transitava com desenvoltura e conhecimento pelo cinema, dança, música, teatro e moda, oferecendo análises que faziam dialogar de forma ampla as manifestações artísticas.

Mas o espírito de repórter o levaria também a outros campos. Na coluna Sinopse, publicada aos domingos no Caderno 2, a política e a economia nacionais eram temas frequentes. Apaixonado por futebol, foi responsável por reportagens exclusivas também nesta área, como a notícia da aposentadoria do jogador Ronaldo.

Em 2009, com o repórter fotográfico Tiago Queiroz, refez a expedição de 1905 do jornalista e escritor Euclides da Cunha pela Amazônia, que resultou na publicação de uma série de reportagens, no livro Amazônia de Euclides e no documentário Um Paraíso Perdido. Colaborou com o diretor Luiz Fernando Carvalho na preparação do roteiro de Capitu, minissérie da TV Globo.

Ao saber da morte, o ex-jogador Ronaldo escreveu no Twitter: “Um jornalista fantástico e um amigo partiu hoje. Descanse em paz”. O escritor Zuenir Ventura destacou sua personalidade. “O que mais me surpreendia era a modéstia e a serenidade.”

“O Brasil perdeu um grande jornalista, um jovem intelectual com tanto ainda a contribuir”, disse o diretor de Conteúdo do Grupo Estado, Ricardo Gandour. “Pessoalmente, sempre me chamou atenção a habilidade com que ele soube trafegar entre o jornalismo e a literatura.”

Para Roberto Gazzi, diretor de Desenvolvimento Editorial do Estado, Piza era um “exemplo para os colegas”. “Um profissional completo, capaz de fazer uma grande reportagem especial, dar furos em várias áreas e manter uma coluna semanal brilhante.”

Literatura. Os livros são prova da diversidade de sua trajetória. A produção como jornalista está reunida em Questão de Gosto, Perfis & Entrevistas, Contemporâneo de Mim - Dez Anos da Coluna Sinopse, Aforismos sem Juízo e Jornalismo Cultural. Como biógrafo, assinou livros sobre Ayrton Senna (O Eleito) e Paulo Francis (Brasil na Cabeça) antes de lançar sua obra principal no gênero, Um Gênio Brasileiro, sobre Machado de Assis.

Foi tradutor, entre outros autores, de Henry James (A Arte da Ficção) e H.G. Wells (A Máquina do Tempo). Brincava que flertara a vida toda com a ficção - foi, porém, mais do que um flerte. Nos anos 90, lançou um romance, As Senhoritas de Nova York; cinco anos depois, seu primeiro livro infantil, Mundois; e, em 2010, a coletânea de contos Noites Urbanas.

O pendor para a polêmica foi herdado de escritores como o brasileiro Paulo Francis, o americano H. L. Mencken e o irlandês Bernard Shaw, cujos textos estão reunidos em coletâneas organizadas por ele (O Dicionário da Corte de Paulo Francis, Dentro da Baleia - Ensaios e O Teatro das Ideias de Bernard Shaw, respectivamente). Não se tratava, porém, de emular ídolos da juventude, ou mesmo de ser fiel a suas ideias, mas, antes, de perseguir, como eles, a clareza do texto, a união natural de informação e opinião. Com a certeza de que, como escreveu certa vez, a “inteligência é a única virtude indomesticável” e de que vozes autorais sempre farão a diferença - como a dele.

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