Cultura unida em prol de São Luiz do Paraitinga

Profissionais diversos se mobilizam para ajudar a reerguer a histórica cidade arrasada pelas chuvas

Lauro Lisboa Garcia, de O Estado de S. Paulo,

08 Janeiro 2010 | 06h00

O coreto Elpídio dos Santos, palco de grandes eventos musicais na cidade, na Pça Oswaldo Cruz, com os escombros da igreja matriz ao fundo depois da tragédia. Foto: Sérgio Neves/AE

 

Nunca antes São Luiz do Paraitinga frequentou o noticiário como agora, que foi arrasada por uma absurda enchente na virada do ano. Acontece que além do patrimônio arquitetônico, a cidade é conhecida por sua vocação musical e tem realizado eventos importantes - que os veículos que agora capitalizam em cima da tragédia ignoraram -, como a Semana da Canção Brasileira e os já tradicionais Festival de Marchinhas e a Semana Elpídio dos Santos, que em 2009 celebrou o centenário de nascimento de seu compositor mais ilustre. A catástrofe, porém, tem revelado a quem não sabia a dimensão do zelo de uma legião de pessoas ligadas à arte por São Luiz - e seus habitantes que a fazem tão cativante.

 

Profissionais ligados às artes, como a cantora Suzana Salles e Gisele Jordão, respectivamente curadora e produtora da Semana da Canção, o fotógrafo Luciano Dinamarco, o ator Walmor Chagas, o músico Edson Natale, o político e escritor Gabriel Chalita, o jornalista e produtor cultural Israel do Vale e o jornalista José Luiz de Souza, do Valeparaibano, entre outros, estão empenhados em realizar ou participar de diversas ações culturais para ajudar a reerguer a cidade. O fotógrafo José Patrício, do Estado, diz que disponibiliza todo o seu acervo de imagens de São Luiz, para exposição e venda com renda revertida à população.

 

A próxima edição do projeto SamBaCana Groove ("de música 98% brasileira e 100% esfuziante"), pilotado por Israel, amanhã vai ser beneficente. Quem levar dois quilos de alimentos não perecíveis (exceto sal e açúcar) e duas peças de roupa entra de graça na festa, que ocorre na Livraria da Esquina, na Barra Funda.

 

Gisele Jordão confirma a realização, ao longo do ano, de diversos shows, em São Paulo e em cidades vizinhas de São Luiz. Suzana Salles vem entrando em contato com todos os artistas que se apresentaram nas três edições da Semana da Canção - como Arnaldo Antunes e Ná Ozzetti, que já se colocaram à disposição - para participar desses shows.

 

Segundo o diretor de Cultura de São Luiz do Paraitinga, Benedito Filadelfo de Campos Netto, o Festival de Marchinhas e uma versão do próprio carnaval de São Luiz - como já ocorreu outras vezes em cidades vizinhas em forma de micareta - devem ser realizados em São Paulo.

 

José Luiz de Souza, Luciano Dinamarco, Raquel Marques Roman e a artista plástica Miriam Badaró estão organizando um bazar e um leilão culturais que deverão ocorrer no Hotel Fazenda Mazzaropi, em Taubaté. Até agora, no entanto, nenhum desses eventos está definido. As prioridades são outras. Segundo Dinamarco, que concentra informações sobre ajuda humanitária no blog http://www.sosparaitinga.blogspot.com/, "faltam recursos humanos e organização" na distribuição de alimentos e refeições à população, que continua necessitada, deprimida e confusa.

 

"Por enquanto não há nada de concreto, até porque muitas das pessoas que fazem o carnaval perderam suas casas e todos os instrumentos musicais", diz Netto. "A gente está esperando um pouco passar esse caos que está na cidade, mas daqui a uma semana vamos tentar nos reunir com todo mundo para vender o produto carnaval. Até porque os próprios artistas que perderam tudo precisam ganhar dinheiro. Se possível, queremos pegar parte da arrecadação dos ingressos para ajudar na reconstrução da cidade."

 

Apelidada de "capital das marchinhas", São Luiz do Paraitinga é uma cidade que respira música. O legado de Elpídio dos Santos - que é até estudado nas escolas - tem sido um grande estímulo para outras gerações, como alguns de seus filhos que formaram com amigos o grupo Paranga, nos anos 1980. Um de seus ex-integrantes, Galvão, foi diretor de cultura na cidade e tinha montado um estúdio recentemente. Perdeu tudo na catástrofe.

 

"Hoje, a cidade precisa de soluções mais emergenciais, mas mais para a frente vai precisar de muito dinheiro para se reerguer. Por isso, pensamos em fazer o leilão e o bazar no fim de fevereiro", diz Souza, que já conta com mais de 50 obras de artistas e fotógrafos, como Patrícia Kaufmann, Célia Barros, Paulo Pacini, Mário Lúcio Sapucahy e Paulo Pereira. Nana Vieira, que fez o belo livro de fotos O Divino em Festa, com imagens de São Luiz, doou 14 volumes de sua obra para o bazar.

 

Tom Maia, que anos atrás fez desenhos a bicos-de-pena dos imóveis históricos da cidade e de Cunha, reunidos no livro Vale do Paraíba - Velhas Cidades, doou vários originais para o leilão. Mesmo sem ter obra para doar, Cláudia Rangel, responsável pela restauração da basílica de Aparecida, propôs-se a restaurar sem custo objetos móveis que forem recuperados dos escombros de São Luiz.

 

"Em outras ocasiões, artistas como Maria Bonomi e Guto Lacaz se prontificaram a ajudar quando pedi", conta Souza. "Tenho certeza que posso contar com eles também. A adesão dos artistas tem sido grande. A tendência é crescer muito." Quem quiser fazer doações de objetos de arte, livros, CDs e DVDs pode entrar em contato com Souza pelo e-mail jlsocial@uol.com.br.

 

Mais conteúdo sobre:
São Luiz do Paraiginga

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.