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Crise leva instituições culturais europeias a fazerem cortes

JAMIL CHADE - CORRESPONDENTE

10 Outubro 2012 | 03h 17

As artes se transformaram numa das maiores vítimas da política de austeridade que passou a dominar todo o continente diante das dívidas colossais

GENEBRA - Museus com orçamentos cortados, orquestras sendo obrigadas a se fundir, teatros com produções reduzidas, ministérios da Cultura sendo fechados e músicos sendo obrigados a trocar os palcos por turnês em cruzeiros de luxo, só para manter a renda.

A crise financeira na Europa jogou o continente em seu pior momento desde a 2.ª Guerra e fez o desemprego atingir recorde desde a criação da zona do euro. Mas enquanto sindicatos tentam manter benefícios sociais e governos tentam encontrar meios para manter indústrias e bancos, as artes se transformam numa das maiores vítimas da política de austeridade que passou a dominar todo o continente diante das dívidas colossais.

Da Igreja a monarcas, passando por grandes mecenas, a cultura europeia sempre teve um de seus pilares no financiamento massivo por parte de personalidades e instituições que viam nas artes um instrumento para demonstrar sua influência e até poder. Agora chegou o momento de o Estado mandar um recado claro: a Cultura precisa começar a ser autossustentável e não depender de recursos públicos. O problema é que nem todos concordam com essa visão e alertam que a cultura faz parte do sistema de ensino da sociedade europeia e da herança histórica do continente, portanto, não é apenas uma mercadoria.

O caso mais drástico é o de Portugal. Para ter acesso a um resgate do FMI e da UE, Lisboa aceitou um rígido programa de redução de custos do Estado. Salários foram encolhidos e mesmo feriados foram suprimidos. Mas, no caso das artes, o corte foi ainda maior. O governo português optou em 2011 por simplesmente acabar com o Ministério da Cultura, pasta agora transformada em apenas em uma secretaria.

Com isso, o governo espera economizar 2,6 bilhões, implementando o plano de reduzir em um terço o número de diretores de departamentos dentro do Estado. A medida teve como consequência a fusão de grupos artísticos e uma verdadeira gritaria, dentro e fora de Portugal, diante da opção de sacrificar a cultura.

A última ministra da Cultura de Portugal, Gabriela Canavilhas, deixou claro ao sair que a medida era sinal evidente de que Lisboa "não conta mais com a cultura como um dos seus pilares". "Eu considero que é uma perda muito importante. Isso preocupa o setor e tenho a certeza de que também preocupa os portugueses", afirmou em seu discurso de despedida que, ironicamente, coincidia com a cerimônia da deposição das cinzas do escritor José Saramago na capital do país.

Em Madri, a situação também é crítica para o setor. Pressionado a rever as contas do Estado e pedir um resgate, o governo espanhol de Mariano Rajoy já anunciou que, para 2013, os museus do Prado, o Rainha Sofía e o Thyssen-Bornemisza sofrerão cortes de orçamentos de mais de 30%. No total, o governo irá reduzir sua ajuda aos museus em 17 milhões. Em comparação com o orçamento de 2010, o museu Rainha Sofía terá 45% a menos de recursos em 2013, e o Teatro Real, 33% a menos.

Em termos gerais, o Estado espanhol reduziu seu apoio à cultura em 70% em apenas quatro anos. Para justificar o corte, o ministro da Fazenda, Cristóbal Montoro, reclassificou o setor, designando-o como "área de entretenimento", o que deixou furiosa a classe artística. Esta reagiu acusando-o de não saber diferenciar cultura e passatempo.

As bibliotecas espanholas terão uma redução de 62% em seu orçamento para 2013 e a ordem é proibir todas elas de adquirir um só livro no próximo ano. No badalado cinema espanhol, os recursos do Estado ao Instituto de Cinematografía e Artes Audiovisuais passaram de 106 milhões de euros por ano em 2010 para 68 milhões de euros neste ano, afetando festivais de tradição, como o de San Sebastián.

Ruínas. Os cortes também têm afetado a Cultura na Grécia, país que em 2013 terá seu sexto ano consecutivo de contração da economia e hoje sobrevive graças aos recursos do FMI e da UE. Em apenas um ano, o Ministério da Cultura grego viu seu orçamento ser reduzido pela metade.

Não são poucos os músicos de orquestras e mesmo professores dos conservatórios espalhados pelo país que, no último verão europeu, optaram por pedir empregos nos barcos turísticos que percorrem as famosas ilhas gregas, para tocar nos jantares ou mesmo em bares do convés.

Além de afetar dezenas de grupos artísticos, o corte ainda coloca em risco os projetos de manutenção de locais arqueológicos do país, uma verdadeira mina de ouro para atrair o turismo. Segundo Despina Koutsouma, presidente da Associação Grega de Arqueologistas, alguns dos principais templos do país estão prestes a desmoronar.

Nem na Itália, um dos pilares do desenvolvimento cultural do Ocidente, o setor foi poupado. O prestigioso Teatro Scala, em Milão, soma uma dívida de 7 milhões e os cortes já começaram para fazer frente a essa situação.

Diretores do grupo de dança, dos corais e mesmo da orquestra do teatro aceitaram há dois meses um plano para reduzir em 10% seus salários, sob a condição de que ninguém seria demitido. Entre os afetados estão Stephane Lissner, o diretor-geral do teatro, e o maestro Daniel Barenboim. Os cortes permitirão que a dívida seja reduzida para 4,5 milhões ao final do ano. "Isso não vai resolver a crise. Mas é um gesto por parte dos diretores e manda a mensagem de que queremos encontrar uma solução", disse Lissner. Por anos, o teatro foi deficitário. Mas a ajuda do Estado garantia suas operações. Agora, a crise afastou o público e, pressionado a fazer cortes, o governo reduziu os incentivos ao teatro. "Essa situação estava colocando em risco a produção artística do teatro, tanto em qualidade como quantidade", completou o diretor.

Mas não são apenas os países que vivem um sério problema de dívida que estão vendo cortes drásticos no setor de artes. No caso da Holanda, país que tem uma das taxas de desemprego mais baixas da Europa, o governo anunciou o corte de US$ 265 milhões no orçamento para a Cultura, uma redução de 25% em 2013.

Na Alemanha, a Südwestrundfunk, a tevê e rádio regional de maior prestígio, será obrigada a reduzir seus gastos em 166 milhões. Para tapar o buraco em suas contas, a proposta votada e aprovada pelo conselho da empresa é a de fundir as duas orquestras financiadas pela emissora: a Radio Sinfonieorchester Stuttgart e a Sinfonieorchester, ambas fundadas em 1946.

A iniciativa abriu uma verdadeira guerra no país, com uma queixa entregue por 27 mil músicos - incluindo a pianista Martha Argerich e o cantor Thomas Quasthoff. Victor von Oertzen, diretor da emissora, defendeu a iniciativa alertando que a Europa "já não vive mais em 1945". "Antes, se queríamos escutar música, tínhamos de produzir nós mesmos. Hoje, há música em abundância para as rádios", disse. "Além disso, a Alemanha está diminuindo em termos de população, o que significa um número menor de pessoas pagando para ver concertos. É uma questão matemática", completou.

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