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Correntes d'Escritas, pedaço de Utopia possível

No Brasil, jamais vi um presidente aparecer em um acontecimento literário

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Ignácio de Loyola Brandão

17 Março 2017 | 02h00

PÓVOA DE VARZIM, PORTUGAL

“O que faz a singularidade dos encontros nesta cidade é, acima de tudo, o modo como as Correntes se processam, o ritmo que os seus organizadores lhe imprimem, com a noção do que é literário. (...) Talvez esse seja o segredo do êxito. A certeza de que em chegando fevereiro, numa cidade portuguesa à beira do Atlântico, pelo menos durante uma semana, um pedaço de Utopia é possível”, disse Lídia Jorge, celebrada escritora portuguesa. 

Para se ter ideia do que foram as Correntes d’Escritas nestes 18 anos de existência basta dizer que houve mais de mil intervenções de escritores a maioria com os auditórios a “rebentar pelas costuras”, como se diz por aqui. E muitos participantes, como editores, críticos, agentes literários, jornalistas, professores, leitores. Mais de 50 mil leitores passaram pelas conferências, mesas-redondas, lançamentos de livros, sessões de poesia, teatro, cinema, encontros de escritores com estudantes, entregas de prêmios. Foram 150 mesas-redondas e cerca de 170 sessões com jovens estudantes. Lançaram-se mais de 300 novos livros e fizeram-se mais de 40 sessões de poesia. 

“As Correntes, organizadas pela Câmara da Cidade, começaram em 2000 - centenário da morte de Eça de Queirós, que nasceu neste povoado - e a ideia foi fazer um festival que juntasse escritores de todos os países de língua portuguesa e de língua espanhola (incluindo catalã e galega), dos vários continentes”, explicou-me José Carlos de Vasconcelos, diretor do quinzenário Jornal de Letras - que inveja, falta-nos isso - anfitrião, um colaborador e divulgador permanente das Correntes. 

“Não havia cá nenhum acontecimento com essas características, e ele foi crescendo até se tornar, como o presidente da República disse na abertura, o principal ou o mais importante de Portugal. Há um núcleo de meia dúzia de escritores que participam desde o início - espécie de escritores residentes. Alguns já vieram várias vezes, todos os anos. Sempre bastantes pela primeira vez e a estrutura da organização é a que viste, tendo tido progressivamente coisas novas. 

“Da África, já estiveram todos os principais escritores. Lembro-me de um ano em que se juntaram aqui em Póvoa, de Angola, todos mesmo, de uma só vez, o Luandino, o Pepetela, o Ruy Duarte Carvalho, o Agualusa, a Ana Paula Tavares, o Ondjaki, o Manuel Rui, o João Melo (em Angola mesmo nunca devem ter estado juntos sequer metade deles), de Espanha e da América Latina muitos deles. Do Brasil, por exemplo, que agora me lembra, o João Ubaldo Ribeiro, Antônio Torres, Nélida Piñon, Luis Fernando Verissimo, Zuenir Ventura, Moacir Scliar, Ivan Junqueira, Antonio Cicero, Bernardo Carvalho, Martinho da Vila, Eucanaã Ferraz e outros mais novos, etc. - e, glória maior, porque no Brasil nunca aparece, o Rubem Fonseca, e este ano a Tatiana Salem Levy e você.”

Se fui a Correntes, devo a José Carlos de Vasconcelos, onipresente, o homem de vasta cultura, jornalista a vida toda, pessoa que lida há 60 anos com essas coisas de cidadania cultural, tendo recebido o Prêmio Vasco Graça Moura, pela sua “exaustiva persistência na imprensa portuguesa de âmbito cultural”. Poeta, autor de Corpo de Esperança, Repórter do Coração, De Poema em Riste, O Mar A Mar A Póvoa II. Nascido em Freamunde, José Carlos acentua, “aquela é a minha terra, onde nasci, e Póvoa de Varzim é a minha terra, onde não nasci”. Sabe mais do Brasil e dos nossos meios literários do que muito brasileiro bem informado. Promove nossos escritores e livros. Batalhou pela minha ida, como procura sempre incluir brasileiros em eventos portugueses. Que retribuição nosso país dá a pessoas como esta?

Semanas atrás, sendo brasileiro e afeito aos maus costumes de nossas autoridades, tive enorme surpresa. Anunciava-se que a 18.ª Correntes d’Escritas nesta cidade balneária - na época dos descobrimentos aqui eram os grande estaleiros navais -, a 20 quilômetros do Porto, seria aberta pelo presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa. Viria? Um presidente? No Brasil, nunca em tempo algum, jamais vi um presidente aparecer em um acontecimento literário. Na abertura da Bienal do Livro de São Paulo, 2016, nosso (Nosso? De quem?) Michel Temer preferiu não aparecer, com medo de solicitações como “retire-se”.

Então, ali estávamos e o presidente português chegou, abriu a cerimônia, sentou-se e almoçou tranquilamente com os 83 escritores convidados e as demais autoridades, entre eles o ministro da Cultura. Ao final, sem atropelo, formou-se uma roda em torno do “homem” para uma foto. Não havia lugar para mim no círculo e o fotógrafo Daniel Mordzinski, instintivamente, puxou uma cadeira e colocou-a bem na frente do doutor Marcelo. Assim fiz minha selfie presidencial. Sou o único sentado. 

Quanto a Daniel, personagem singular, é conhecido no mundo como o “fotógrafo dos escritores” (jamais fotografou um autor perto de livros, estantes, em seu ambiente de trabalho; ele cria situações para cada um) e circulou em Póvoa o tempo inteiro, câmera na mão. Seu magnífico livro, A Literatura na Lente de Daniel Mordzinski, lançado no Brasil pelo Sesi, infelizmente não chegou a Póvoa, para grande frustração do autor e de todos nós, que esperávamos um lançamento animado.

As Correntes são um tsunami literário que acontece com logística impecável, coordenada por Manuela Ribeiro e uma equipe, que tem o dom de estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Entre 21 e 25 de fevereiro, o Cine-teatro Garrett superlotava de manhã à noite. Nas dez mesas, cada uma com cinco autores, criavam-se debates em torno da palavra, apoiando-se no poema de Armando Silva Carvalho, A Sombra do Mar. Minha mesa foi partilhada com Eugénio Lisboa, Hélia Correia (Prêmio Camões 2015), Mário Cláudio e Valter Hugo Mãe, com mediação de José Carlos de Vasconcelos.

Até hoje, ninguém ali esqueceu a gargalhada estentórea de João Ubaldo Ribeiro. Desta 18.ª Correntes trago o riso esfuziante de Inês Pedrosa, a alegria por reencontrar Almeida Faria, amizade de 40 anos, belíssimo escritor (tomara O Conquistador tenha chegado às livrarias brasileiras), o estar com Rui Zink. Com Valter Hugo Mãe e Vasco Rosa, a conversa rolou pela madrugada, embalada por uma aguardente velha dourada do Porto. Valter passou voando, ia à Polônia no dia seguinte, homem do mundo.

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