Contra a democracia

O fenômeno do voto como tiro no pé tem sido analisado por americanos

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2018 | 02h00

Em novembro, os americanos vão eleger a bancada de 435 deputados do Congresso, 35 dos 100 senadores e 33 governadores dos 50 estados. É comum as eleições intermediárias derrubarem a maioria do partido que controla a Casa Branca. Os republicanos têm hoje o controle do Legislativo e do Executivo. Se, como preveem analistas, os democratas recapturarem o controle da Câmara, não será apenas por fadiga com o drama e o caos do governo por tuítes.

Quem votou no atual presidente e em novembro trocar de lado em protesto, digamos, contra a perda do seguro saúde, tinha vasta informação disponível para informar seu voto antes de novembro de 2016. Votaram no homem e ele cumpriu o que prometeu.

O fenômeno do voto como tiro no pé tem sido analisado por americanos, depois que, a partir dos anos 1980, políticas econômicas e fiscais em casa, a transformação tecnológica e a globalização contribuíram para uma explosão da disparidade de renda no país. O estado do Kansas, que inspirou um best-seller sobre o tema, voltou à berlinda no ano passado, quando o governador republicano enfrentou uma rebelião no próprio partido, desesperado com o mergulho na economia causado por anos de cortes de impostos.

Há uma onda de greves de professores em estados que votaram no atual presidente e tem amplo apoio de mães e pais tradicionalmente republicanos, furiosos com o resultado de anos de cortes na educação pública. Votaram nos legisladores que estão jogando o futuro de seus filhos no lixo. Ideologia nos olhos dos outros é refresco.

O cientista político Yascha Mounk, influente pensador sobre populismo e democracia, acaba de lançar um livro. Em O Povo Contra a Democracia: Porque Nossa Liberdade Está em Perigo e Como Salvá-la, Mounk argumenta que a convicção liberal na consolidação democrática não se confirma, afinal. Tome a democracia jovem de país de renda baixa, ele propõe. Depois de algumas eleições livres, revezamento de partidos no poder e melhora de condições de vida, a noção é que a democracia liberal se consolida. O que está acontecendo, ele escreve, é o oposto. Numa entrevista, o autor citou o exemplo do Quênia e nós, brasileiros, não precisamos atravessar o Atlântico para sentir o frio na espinha que o livro pode provocar. Mounk aponta causas como estagnação econômica, o fato de que trabalhar 40 anos não garante mais segurança e também, algo que não é decisivo no Brasil, a revolta contra a transformação demográfica provocada pela imigração.

Yascha Mounk lembra o que os populistas hoje, apesar de diferenças ideológicas, têm em comum: Trump, o indiano Modi, o turco Erdogan e o húngaro Orban se apresentam como única solução para livrar seus eleitores das odiadas elites. No poder, descobrem que a coisa é mais complicada, seja na Coreia do Norte ou no seguro saúde, como costuma desabafar o tuiteiro serial da Casa Branca. Aí começam os ataques a instituições da democracia, como a imprensa livre, a oposição, a burocracia do governo que cuida da água potável e da alfabetização.

A outra fonte de desestabilização do liberalismo, escreve Mounk, é a democracia instantânea da era digital, que favorece o autoritarismo. Senti, há pouco, o bafo quente deste fenômeno quando me dirigi de forma educada ao comandante do Exército pelo Twitter. Ele promoveu estatísticas da intervenção militar no Rio e sugeri que usasse a conta institucional da força que comanda, não uma pessoal. Assim como ignorou o desconforto causado com um anterior tuíte político que ficou sem resposta no Planalto, o general me ignorou. Mas fui submetida a um pelotão digital de trolls que invadiu minha timeline com ameaças e xingamentos. Refrescaram minha memória sobre uma pesquisa recente: 43% dos brasileiros disseram apoiar uma intervenção militar.

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