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Compositor Nei Lopes ganha reconhecimento como pesquisador

No mês passado, ele recebeu o título de doutor honoris causa concedido pela Universidade Federal Rural do Rio

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ROBERTA PENNAFORT - O Estado de S.Paulo ,

16 Novembro 2012 | 02h08

RIO - Setenta anos de idade, quase 30 livros publicados, e Nei Lopes, compositor e pesquisador do samba e do negro, acredita que sua trajetória começa a ser reconhecida pela academia: no mês passado, recebeu o título de doutor honoris causa concedido pela Universidade Federal Rural do Rio, uma das mais antigas do Brasil. O câmpus fica em Seropédica, no interior do Rio, cidade que o carioca de Irajá escolheu para si três décadas atrás.

Este ano, ele lançou três livros: A Lua Triste Descamba, um romance ambientado no universo do samba da primeira metade do século 20, e dois dicionários, um sobre as histórias e o vocabulário do subúrbio e outro, uma edição revista e ampliada de sua compilação sobre o banto, língua trazida da África ao Brasil em três séculos de escravidão - o título virou referência desde sua primeira publicação, em 1999.

Nesta entrevista, o sambista fala menos do que o escritor. Mas o parceiro de Wilson Moreira avisa: "Estou na ativa!".

Ouve-se samba em Seropédica?

Nei Lopes - Por causa da universidade, tem uma tradição de reggae e há ainda gospel, sertanejo universitário, além do pagode.

Tem composto? Com que parceiros, frequência e método?

Nei Lopes - Tenho sido bastante solicitado para escrever letras; e a longa lista de parceiros, agora, passou pelo Mattoli, do Clube do Balanço (samba-rock), e chegou até o Maurício Carrilho, um mestre do choro. E tenho gravado muito com o pessoal mais novo: Fabiana Cozza, Rogê, Dudu Nobre, Mariana Baltar, Tereza Cristina, Pedro Miranda, Quinteto em Branco e Preto, etc., etc. Seu Jorge gravou com o Sérgio Mendes, nos States, uma parceria minha com o saudoso maestro Moacyr Santos. Estou na ativa!

Diria que é uma missão pesquisar e escrever sobre o negro, o subúrbio, as línguas africanas?

Nei Lopes - É uma missão. Machado de Assis queria escrever uma história dos subúrbios cariocas e não conseguiu; Lima Barreto, idem, com relação à história do povo negro. Não ouso me comparar com eles, mas consegui o que não realizaram. E a minha missão é contada em uma lenda africana em que um discípulo recebe do mestre um presente que seus colegas haviam desprezado. Sua vida dá uma feliz reviravolta com essa dádiva. O presente, no meu caso, foi a cultura dos excluídos, com a qual fiz a minha vida valer a pena.

Produções de TV, como a novela Avenida Brasil, têm se voltado ao subúrbio. Este subúrbio encenado corresponde à realidade ou é idealizado?

Nei Lopes - Não assisti à novela, mas não poderia ficar indiferente, já que todo mundo falava nela. O que estranho é que, nessa descoberta do subúrbio e da classe menos favorecida, a TV continua não enxergando a maioria negra. Negro para as novelas, ao que parece, só no século 19 ou, no máximo, na década de 1900; mas assim mesmo, separado, segregado. Ou então como bandido. Isso incomoda muito. A gente continua não se vendo na "telinha".

Acredita que a tão falada ascensão da classe C pode vir a mudar para melhor o subúrbio carioca, com a injeção de mais recursos, ainda que a longo prazo?

Nei Lopes - Os recursos vão prioritariamente para as zonas conflagradas, o que não discuto. Mas, aí, fica aquela coisa que o jornalista Paulo Roberto Pires escreveu. Segundo ele, existe o "Rio", que se traduz nos bairros ricos e nas favelas, e o "De Janeiro", que são os subúrbios de classe média, que ninguém nem vê, ou só conhece pelos botequins. Mas pode ser que agora melhore.

Qual é o público-alvo do Dicionário Banto do Brasil e como se deu o processo de sua reedição?

Nei Lopes - O público é mais "alvo" que outra coisa. E compreende mais o pessoal da linguística, que tem interesse profissional. Mas a ideia foi também política, de mostrar como as línguas africanas, objeto do estudo, ainda estão presentes no nosso cotidiano. E, aí, entra a questão da autoestima; de dar ao meu povo mais esse motivo de orgulho.

Como anda o estudo das línguas africanas no Brasil?

Nei Lopes - Conheço pouca gente trabalhando com isso e há pessoas no meio acadêmico que se acham donas desse conhecimento e criaram uma espécie de latifúndio intelectual.

Tem algum projeto novo?

Nei Lopes - Estou me deliciando com um romance sobre o negro carioca na década de 50. Quanta coisa aconteceu e quase ninguém se dá conta! Johnny Alf, Dolores Duran, Agostinho dos Santos, Clube Renascença, Salgueiro, Teatro Experimental do Negro, Orfeu da Conceição, o samba no teatro musicado, o futebol... Verdadeira revolução cultural.

A ampliação do pacote de ações afirmativas que vem sendo apresentado pelo governo federal, como reserva de vagas para negros no serviço público e cursos de pós-graduação, vem pondo fogo nessa discussão. O Ministério da Cultura anunciou a criação de incentivos para produtores culturais negros. Como analisa essas medidas?

Nei Lopes - Toda iniciativa no âmbito das ações afirmativas é importante. Com relação à cultura, há muito tempo que domina um tipo de produção que caracteriza o que chamamos de "cultura negra sem negros". Daí, a importância dos incentivos a produtores negros. Os negros que querem produzir nessa área, dificilmente são "enturmados"; então, a solução é incluir.

O que acha dos artistas de MPB lançando discos de samba "à vera", como Maria Rita, ou "com nova roupagem", como Caetano e Adriana Calcanhotto?

Nei Lopes - Comprei o disco de samba da bela Adriana Calcanhotto. Não entendi nada...

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