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Cultura

Crônica

Compartilhando asneiras

A quatro mil quilômetros do Vale do Silício, a cena contradiz os slogans da era digital. No estacionamento do aeroporto nova-iorquino LaGuardia, há um protesto de trabalhadores, na tradição do movimento sindical analógico. Protesto contra quem? Uber. Ué, na “disrupção” da “economia compartilhada” os trabalhadores não são patrões de si mesmos?

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Lúcia Guimarães

15 Fevereiro 2016 | 02h00

O nascimento do pequeno movimento sindical no aeroporto foi relatado na revista New Yorker. No dia 2 de fevereiro, 50 motoristas do Uber saíram do aplicativo da empresa e fizeram uma greve, na área do estacionamento onde costumam esperar as chamadas para o LaGuardia. O Uber havia anunciado, no dia 29 de janeiro, a redução do preço das corridas em Nova York e várias cidades dos Estados Unidos e do Canadá para pressionar as concorrências locais. Não era a primeira vez que a empresa fundada pelo obnóxio Travis Kalanick reduzia preços e também já havia aumentado a fatia que abocanha dos motoristas.

Mas, quando uma empresa existe sobretudo na nuvem digital e não há jornada formal de trabalho e folga, tentativas de organizar grupos de trabalhadores enfrentam novos desafios. Espremidos nos seus ganhos mais uma vez, muitos disseram que não era mais possível se sustentar com os novos preços e reações de protesto começaram a pipocar na rede social, em parte graças a um grupo criado, ó ironia, no WhatsApp de Mark Zuckerberg, pelo pessoal que protestou no LaGuardia.

A reportagem da New Yorker mostra como a massa de motoristas do Uber - só em Nova York, estima-se que há 30 mil registrados no aplicativo – está na mira de grupos sindicais em todo país. Em dezembro, a câmara de vereadores de Seattle aprovou por unanimidade a autorização para motoristas do Uber e do concorrente Lyft se sindicalizarem. Há uma ação de classe em curso na Califórnia exigindo que os motoristas sejam classificados como empregados e não autônomos.

Aqui, uma pausa para deixar claro que deploro as reações de taxistas que intimidam e até espancam os motoristas do Uber no Brasil. E também para admitir que capitulei e aderi ao aplicativo em janeiro, diante da péssima qualidade do serviço de táxis no Rio. Quando falo de qualidade, não reclamo de carros sujos ou velhos. Falo de incidentes como saltar do táxi com um bebê antes de chegar ao destino por causa do aparente impulso suicida do motorista. Ou pedir para saltar porque outro assistia futebol enquanto dirigia em alta velocidade. Ou ser despejada com bagagem no meio do tráfego porque o motorista tinha esquecido de abastecer o carro. É inacreditável uma cidade tão dependente de turismo e prestes a sediar uma Olimpíada não considerar prioridade educar e também reprimir profissionais que obtêm concessão para operar um transporte público.

De volta ao estacionamento do LaGuardia. As palavras de ordem nos pôsteres do protesto faziam o que a mídia especializada em tecnologia não costuma fazer: desmontar a balela de que existe economia compartilhada. Para começo de conversa, as empresas desta economia são predominantemente controladas por um punhado de empreendedores do Vale do Silício. Não há bens sendo compartilhados. Há, sim, trabalho sendo alugado, como no aplicativo TaskRabbit, em que autônomos competem para fazer biscates. De fato, boa parte dessas empresas não passa de intermediários que cobram pelo aluguel do trabalho alheio. E quem disse isto foi o insuspeito e pró-business Financial Times, num artigo sob o título A Economia Compartilhada Medieval Para Você.

Chamar de “parceiros-motoristas” seu exército de autônomos que incorrem em todas as despesas para trabalhar sem a menor perspectiva de estabilidade, além de ofuscar a natureza da relação de trabalho, há de despertar a reação previsível, a defesa da volta a um rígido modelo de sindicalismo do século 20.

Não há tecnologia que transforme a cultura de piedades corporativas.

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