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Com nova peça e filme, Fernanda Montenegro avalia Dilma e Ana de Hollanda

Ubiratan Brasil - O Estado de S. Paulo

05 Outubro 2011 | 19h 32

Atriz entra em cartaz em 'Viver Sem Tempos Mortos' como Simone de Beauvoir

Em algumas semanas, Fernanda Montenegro começa a rodar um novo filme, A Primeira Missa, projeto que a cineasta Ana Carolina acalenta há vários anos e agora, finalmente, conseguiu financiamento ao menos para filmar. “Vou interpretar uma ministra da Cultura”, diz a atriz ao Estado, com um sorriso maroto. “Mas ainda não comecei a preparação do personagem, portanto, não sei que perfil vai ter.”

Com isso, ela entra com gentileza no tema evidente: a atuação de Ana de Hollanda à frente da pasta. “Ela tem a confiança da presidente Dilma Rousseff, mas o ministério parece estar inativo há muito tempo. Por que não faz algo? Porque falta consenso. Com isso, todo o complexo cultural do País está parado”, afirma.

O impasse curiosamente deverá ser repetido no filme de Ana Carolina, em que a ministra vivida por Fernanda terá de decidir sobre financiar a produção de um longa em que será representada a primeira missa realizada em território brasileiro, em 26 de abril de 1500. “Ana Carolina é uma cineasta talentosa e, na trama, a dúvida dos portugueses sobre se estão certos em apostar em uma terra nova, e não nas Índias, surge no mesmo momento em que a equipe se questiona se terá dinheiro para terminar aquele filme.”

Questões sobre poder, exercido por homens e mulheres, de uma certa forma se relacionam com o motivo do encontro da reportagem com a grande dama das artes nacionais: ela reestreia, no sábado, no Teatro Raul Cortez, o monólogo Viver Sem Tempos Mortos, que teve curta, mas intensa, temporada em São Paulo, em 2009. Durante aproximadamente uma hora, Fernanda apresenta uma compilação do pensamento de Simone de Beauvoir (1908-1986), a filósofa francesa que se transformou em ícone do feminismo e foi parceira de outro célebre pensador, Jean-Paul Sartre.

Para que a força das ideias atinja diretamente o público, o diretor Felipe Hirsch optou por uma encenação limpa, com cenário e figurino austeros, iluminação comedida, trilha sonora apenas para pontuar - tudo em função da palavra, para que o pensamento se sobressaia. “Simone dizia não querer que a mulher tomasse o poder dos homens, mas que se destruísse a ideia de dominação”, comenta a atriz, que recusou ser ministra de dois presidentes, José Sarney e Itamar Franco.