Colóquio sobre a obra de Rancière começa nesta segunda-feira, 08

De hoje até quarta, os debates serão realizados no salão nobre de instituto da UFRJ

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S.Paulo,

08 Outubro 2012 | 14h26

Com o lançamento de livros e a presença do filósofo francês Jacques Rancière, nascido na Argélia, começa hoje no Rio o colóquio Arte, Estética e Política: Diálogos com Jacques Rancière, que se prolonga até quinta-feira. De hoje até quarta, os debates serão realizados no salão nobre do Instituto de Filosofia, História e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Na quinta, dia 11, no auditório Gilberto Freyre do Palácio Capanema, Rancière faz uma palestra às 19 h, mas antes lança os livros O Destino das Imagens (tradução de Mônica Costa Netto, 168 págs., R$ 36) e Distâncias do Cinema (tradução de Estela Abreu, 168 págs, R$ 39), ambos publicados pela Contraponto Editora. Além desses, mais um livro de Rancière acaba de chegar às livrarias, O Espectador Emancipado (tradução de Ivone C. Benedetti, 130 págs., R$ 29,80), publicado pela WMF/Martins Fontes.

Em O Destino das Imagens, Rancière discute a possível perda da noção de imagem num mundo dividido entre os que defendem estar a realidade comprometida com o avanço da imagem virtual e outros que, ao contrário, identificam a realidade como representando incessantemente a si mesma num universo onde não há mais imagens. O filósofo usa a sequência inicial de um filme clássico do diretor Robert Bresson (1901-1999), A Grande Testemunha (Au Hazard Balthazar, 1966) para falar da autonomia da imagem cinematográfica, já desvinculada do alinhamento com o teatro ou a literatura. Nessa sequência, Bresson mostra o batismo de um asno segundo a liturgia católica, não para escandalizar, mas para traçar uma correspondência analógica com a via-crúcis de Cristo - o asno é sacrificado ao extremo até sucumbir aos maus-tratos.

As imagens da arte, escreve Rancière, “são operações que produzem uma distância, uma dessemelhança”. As palavras, diz ele, “descrevem o que o olho poderia ver ou expressam o que jamais verá”, mas as formas visíveis “propõem uma significação ou a subtraem”. Bresson estaria no segundo caso, ao optar, em A Grande Testemunha, por uma narração fragmentada da história do asno sem recorrer à palavra.

A questão estética ligada à política é o tema que deve dominar o encontro. Para Rancière, política e arte estão ligadas de forma inextricável. A política, para o filósofo, é essencialmente estética. Ex-discípulo do filósofo Louis Althusser, com quem rompeu, Rancière rejeitou a ortodoxia marxista, mas defende que a estética e a política “são maneiras de organizar o sensível”, discordando de Walter Benjamin sobre a estetização do poder num momento específico da história (o nazismo). Segundo Rancière, o poder sempre esteve ligado à ideia de espetáculo, dos gregos às monarquias europeias.

Em O Espectador Emancipado, Rancière discute a recepção da arte por diferentes públicos e a importância do espectador na construção de um olhar sobre o teatro. O filósofo fala sobre o poder - ético e político - do espectador de transformar a si mesmo, de mero observador seduzido por imagens em participante ativo. Entre Brecht e Artaud, ou seja, entre o distanciamento e a total imersão, a emancipação intelectual do espectador é o que realmente importa - e ela só começa, conforme afirma Rancière, “quando se questiona a oposição entre olhar e agir”.

O espectador também age como um aluno. Não seria demais lembrar que a origem desse livro está em outro do filósofo, O Mestre Ignorante (2004), em que relata a história do educador Joseph Jacotot (1770-1840), que provocou o meio cultural do século 19 ao proclamar que um ignorante pode ensinar a outro ignorante aquilo que ele mesmo não sabe (Jacotot, autor do método de emancipação intelectual, ensinou a língua a operários estrangeiros).

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