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Coletivo de Galochas debate projeto da Nova Luz em peça na cracolândia

Obra trata da história do choque entre um grupo de piratas residentes no bairro da Luz e a coroa britânica

ANDRÉ CABETTE FÁBIO,

19 Outubro 2012 | 19h25

Partindo da frente da entrada principal da Sala São Paulo, às 20h, a peça de rua Piratas de Galochas é interpretada em seu último final de semana, da sexta-feira, 19, ao domingo, 21. A obra, que dura uma hora e meia, trata da história do choque entre um grupo de piratas residentes no bairro da Luz e a coroa britânica.

A geografia informal paulistana estabeleceu o conceito da cracolândia, zona enevoada que negocia seus limites no bairro da Luz, agarra e devolve quarteirões conforme a ação policial espreme usuários de crack da Praça Júlio Prestes para o Largo Coração de Jesus; da Rua Danilo Bueno para a Helvétia, uma das vias com a pior fama da cidade. Praticamente de fraque e cartola, senhoras e senhores que compõem o público da Sala São Paulo são dos poucos que se deslocam de outros bairros para a região à noite; dos carros para o concerto, do concerto para os carros.

É a segunda vez que o Coletivo de Galochas, nascido no Departamento de Artes Cênicas da USP em 2010, encena a peça. Na montagem inicial, encenada em novembro de 2011, o palco era o nono andar do edifício 911 da Avenida Prestes Maia, ocupado pelo Movimento dos Sem-Teto do Centro. A transposição do tema da montagem original para a Luz exigiu que, das 15 cenas, apenas 5 fossem mantidas durante os quatro meses de ensaio até a estreia da peça, no dia 1° de setembro. "É outra peça. O que se mantém são as questões principais; a luta pela moradia, a questão urbanística", afirma Daniel Lopes, um dos atores do espetáculo.

A metáfora dos Piratas, que originalmente fora utilizada para tratar dos movimentos por ocupação teve que se adequar à nova realidade. "Tivemos a preocupação de que os piratas não fossem somente a metáfora de um viciado em crack. O pirata ali representa a resistência a essa cidade caótica; a esse projeto de urbanização da Luz. Ele é um ser humano que percebe que não está sendo levado em conta", explica Lopes.

A caminhada pelo centro ajuda desmistificar a imagem de terra arrasada do crack, que a Luz tem. Os grupos de usuários estão presentes o tempo todo, assim como as bases móveis da polícia militar. Além deles, há também crianças brincando intensamente nas ruas, muitas vezes acompanhadas de seus pais - todos moradores da Cracolândia. O diretor e autor da peça, Rafael Presto afirma que a peça pensa em dois públicos. "Pensamos no frequentador de teatro e a criançada do bairro, as pessoas nas janelas. Para quem é de fora, garantimos que tenham uma vivência para além do preconceito". Para Presto, reduzir a região à imagem do uso do crack serve ao que chama de "processo de 'desinvestimento' no bairro".

Conforme andam pelas ruas, os atores param em bares e pensões que servem, além de palco, como apoio para trocas de indumentária. O grupo realiza a cena final na Rua Helvétia, exatamente ao lado de uma base da Polícia Militar. "Não pedimos permissão [legal] para nada; só nos propusemos a vir todos os dias", afirma Presto. Segundo Danilo Bueno, além do efeito cênico, a proximidade com a base da PM protege os andaimes utilizados no enforcamento.

Na Praça Júlio Prestes, a imponente estátua do administrador Alfredo Maia se transforma no Gigante Adamastor Pitaco, que aterroriza o bando de piratas. A inscrição sob a figura também é adotada como elemento para a dramaturgia, condensando involuntariamente uma ideia antiga que o coletivo busca colocar em xeque: "O homem passa, as conquistas do progresso ficam."

PIRATAS DE GALOCHAS

Início em frente à Sala São Paulo.

Praça Júlio Prestes, 16 - Santa Cecília

Últimas sessões da sexta-feira, 19, a domingo, 21; às 20h. Grátis.

 

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