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'Coisas Eróticas': primeiro filme de sexo explícito nacional completa 30 anos

Stéfanie Privado, do E+

04 Julho 2012 | 18h 18

Documentário e livro registram bastidores do longa que mudou os rumos do cinema brasileiro

O Brasil é considerado o terceiro maior mercado produtor de filmes pornôs do mundo. Produtoras, distribuidoras, técnicos, atrizes, atores e outros profissionais se beneficiam hoje de um mercado consolidado e que continua em franco crescimento. Mas como tudo começou? Como surgiu a ideia de se fazer um filme tendo como maior atrativo o sexo explícito?

Motivados por essa curiosidade, os jornalistas Denise Godinho e Hugo Moura (foto) realizaram uma pesquisa rigorosa, inicialmente como para um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), que resultou em livro (Coisas Eróticas - A História Jamais Contada da Primeira Vez do Cinema Nacional, Ed. Panda Books, 200 págs., R$ 36) e documentário (A Primeira Vez do Cinema Brasileiro), que retrata os bastidores da produção de Coisas Eróticas, primeiro filme nacional de sexo explícito. 

Muito se engana, porém, quem acredita que a reunião de material conta apenas essa história: livro e documentário remontam e narram como foi a produção de filmes no final da década de 1970 e início de 1980 pela célebre Boca do Lixo, região central de São Paulo que concentrava artistas, cineastas e produtores que transgrediram o cinema nacional. 

Sim, há mérito em retratar os bastidores do primeiro pornô brasileiro, longa que marcou época e interferiu de forma irreversível nos rumos do cinema nacional. Mas o trabalho de revisitar uma época e trazer um panorama da produção cinematográfica do País tem ainda mais ousadia.

Os autores falaram ao E+ e contaram detalhes do livro e documentário que estreia no dia 7 de julho no Cine Windsor, data e local escolhidos propositalmente: há 30 anos no mesmo lugar estreou Coisas Eróticas e o cinema nacional perdeu a sua "virgindade". Confira:

O trabalho de pesquisa surgiu de um TCC, mas como foram concebidos o livro e o documentário, já que são duas obras diferentes?

Denise - O trabalho de TCC era um documentário de 30 minutos. E como tínhamos prazos a cumprir, acabamos fazendo um trabalho bem aquém do que é A Primeira Vez do Cinema Brasileiro. Por isso, decidimos que, assim que terminassemos a faculdade, continuaríamos com o documentário. Bruno Graziano entrou com a produtora dele, a Controle Remoto Filmes, e partimos com a ideia de transformar o trabalho em longa. Além disso, o aniversário de 30 anos estava bem próximo e em dois anos terminamos as pesquisas, entrevistas, montagem e conseguimos pegar esse momento de comemoração. Quanto ao livro, não tínhamos um projeto de fazer um doc e um livro. A coisa aconteceu bem naturalmente. Um amigo nosso escreveu uma reportagem sobre o aniversário do pornô em um revista e citou que dois jornalistas estavam fazendo um documentário sobre o assunto. Marcelo Duarte, dono da Panda Books, leu a matéria, achou que seria um tema legal para virar um livro-reportagem e nos convidou. E foi ótimo. Porque o livro completa o documentário. Afinal de contas, fica difícil condensar a história do Coisas Eróticas em um filme. O livro vem para esmiuçar esta história.

Hugo - Denise e eu sempre gostamos bastante de cinema. E poder juntar jornalismo com cinema pra fazer um documentário foi uma fórmula que pra gente fazia - e faz - muito sentido. Documentar é pesquisar, é correr atrás de informação e transformar toda essa busca em imagens produzidas por nós, numa narrativa com o ritmo ditado por nós, foi muito bacana. Na cabeça de muita gente, documentário é só aquilo que passa na Discovery Channel, no Animal Planet. E vários deles são documentários quadrados, muitos deles didáticos. Mas documentário pode abordar qualquer tema. Até um tema sobre pornografia, por que não? Para o documentário procuramos, primeiramente, todos os envolvidos com o filme. Atores, atrizes, pessoal da Boca, gente que gosta das pornochanchadas. Logo depois do TCC, nos juntamos ao Bruno Graziano, e resolvemos profissionalizar o documentário. Regravamos boa parte do material e gravamos cerca de 25 entrevistas a mais do que tinha no TCC para tentar fazer a coisa virar de verdade. 

Por que a escolha pelo tema?

Denise - Quando começamos a fazer o projeto de TCC, estávamos em 2009. Eu me lembro que naquela ocasião, comemorava-se os 30 anos que o filme Império dos Sentidos tinha sido exibido na Mostra Internacional de Cinema. E em algumas reportagens, falavam das cenas de sexo explícito em plena ditadura militar e sobre os trâmites burocráticos por trás da liberação. E aí surgiu a dúvida: qual seria o primeiro filme pornográfico brasileiro? Naquela altura, a gente conhecia a pornochanchada, mas não fazia ideia da existência do Coisas Eróticas. Quando fomos pesquisar sobre o assunto, pesquisa básica mesmo, pelo Google, não se falava quase nada sobre. Só que o filme tinha levado mais de 4,5 milhões de pessoas ao cinema. Acho que esse foi o mote. Caiu o queixo e pensamos: "O que? Um filme pornográfico levou tudo isso ao cinema?". E aí, não teve mais jeito. Já estávamos presos pelo tema.

Hugo - Além do lance do Império dos Sentidos, assisti a um documentário chamado Por Dentro da Garganta Profunda, que contava justamente sobre o primeiro filme pornô norte-americano, o Garganta Profunda. Fez tudo muito sentido. Império dos Sentidos, o primeiro japonês, Garganta Profunda, o primeiro estadunidense. Mas, espera. E o brasileiro, qual foi? Na Internet, nada. Wikipedia, muito pouco. Era um desafio descobrir as histórias do primeiro pornô justamente porque não havia nada sobre o tema. Mas com pouca coisa, descobrimos passagens tão bacanas sobre a história do filme que antes de perceber que tínhamos escolhido o tema, a gente já estava discutindo como fazer sem nem ter batido o martelo. E ficou.

Quais as principais dificuldades na apuração e fatos curiosos desses processo?

Denise - As dificuldades são aquelas óbvias quando se fala sobre pornografia. A rejeição dos envolvidos. Coisas Eróticas foi um filme feito há 30 anos, que repercutiu bastante na época, mas acabou esquecido. Fizemos uma pesquisa, e ninguém lembrou do aniversário de dez nem de 20 anos do pornô. Ou seja, ele caiu no esquecimento. As atrizes que fizeram o filme pensaram: "Graças a Deus! Ninguém mais falará sobre o assunto". E aí, de repente, dois estudantes de jornalismo aparecem querendo desenterrar a história delas. Foi complicado. Tanto é que não conseguimos falar com todas as atrizes. Uma é casada e o marido e o filho nem imaginam o que ela fez. A outra dá aula de ginástica em Los Angeles e não quer falar sobre Coisas Eróticas nem sob tortura. A Zaíra Bueno deixou claro que renega o filme da sua biografia. Fora isso, tinha os problemas de "telefone sem fio". Uma história era contada de mil maneiras diferentes. Quando começamos a pesquisa, nos contaram que a Vânia Bonier era prostituta na Luz e o ator Oásis Minitti tinha morrido de Aids. Na verdade, Vânia tinha sido cafetina na Luz e o Oasis morreu de infarto, mas o seu pupilo Oswaldo Cirilo é quem tinha morrido de Aids.

Hugo - Olha, procurar por uma pessoa que não existe é algo que simplesmente não funciona. Se em três décadas as pessoas já haviam mudado tanto, eu não imaginei que até o nome elas tinham de diferente. Porque os créditos do Coisas Eróticas estão todos trocados - é "Walder", que na vida real é "Waldemar", "Vânia" que se chama "Vanilda". Entendo que eram nomes artísticos. Hoje em dia isso também ocorre, e é normal já que se trata de um meio artístico. Mas sem nome, três décadas depois, aparecer para resgatar um passado que nunca ninguém tinha parado para se debruçar sobre ele foi bem difícil. Convencer as pessoas a falar também foi pesado. É duro aparecer do nada e dizer "oi, você fez um filme pornô quando era jovem, não é?". É um assunto delicado para lidar com família dessas pessoas, sabe? E ainda tinha a moral do Raffaele Rossi, diretor do filme, que não era das melhores. Atores que tinham trabalhado com ele, antes ou depois de Coisas Eróticas, não queriam nem ouvir falar no nome do cara. Teve caso de atriz da pornochanchada que desligou na minha cara logo que citei o nome do cineasta. Tinha o fato de ele também ter falecido. Uma tristeza falar de uma obra da qual o dono não existe mais. Mas graças a Deus as pessoas têm algo louvável chamado memória. E isso nos moveu atrás das histórias mais loucas do filme.

O trabalho de pesquisa surgiu a partir de um TCC na Metodista. Como foi sugerir e trabalhar o tema dentro de uma instituição cristã?

Denise - Olha, nós pensamos que ia ser mais difícil. Mas, até que rolou tranquilamente. Na verdade, a gente usou a abordagem de que era um trabalho que contava um recorte da cinematografia brasileira e não um trabalho sobre pornografia. Afinal de contas, durante quase dez anos o Brasil se viu mergulhado no gênero pornô e isso graças ao Coisas Eróticas. Mas, claro que tivemos alguns problemas. No dia da banca, apresentamos o documentário de 30 minutos sem uma cena de nudez sequer.               

               

Hugo - Lembro que bem no início da escolha do tema nós tínhamos outras opções. E conversamos com uma professora nossa, Verônica,que tinha um jeitão muito correto. Sabe aquelas pessoas competentes, metódicas, organizadas, de prazos e horários? Era ela. E fiquei surpreso quando em meio aos temas ela soltou um "isso dá samba" quando falamos de Coisas Eróticas. Vai ver ela é uma libertária presa naquele corpo de Metodista (risos). Mas a Metodista nos apoiou. Teria vergonha se tivessem limado a gente por causa do tema. Claro que não houve cenas de sexo explícito no documentário, mas esse também não era o objetivo. O objetivo era contar a história do filme.  

Fale um pouco sobre o documentário e sua estreia no dia 07/07, aniversário de exibição de 'Coisas Eróticas'.

Denise - A gente tinha o documentário pronto e pensamos: "Tá, e agora? O que faremos com ele?". Nossa ideia inicial era colocar em festivais, mas aí percebemos que o aniversário estava quase chegando e seria de uma mística sensacional se o documentário estreasse no dia do lançamento do Coisas Eróticas, no mesmo cinema, o Cine Windsor. Conversamos com o Francisco Luccas e o filho dele, o Giscard, donos do Cine Windsor e Cine Dom José, e, por sorte, eles adoraram a ideia e ainda sugeriram que o próprio filme fosse exibido após o documentário. Aí, ficou combinado que vamos mostrar o documentário, depois teremos uma mesa de debate com atores e produtores do filme falando sobre como foi fazer o Coisas Eróticas à luz do dia e, em seguida, teremos a exibição do filme. 

Hugo - Estou bem feliz pela exibição do documentário no Windsor. É histórico, né? Tem uma áurea de "foi aqui que tudo aconteceu" no lugar. E é tão engraçado porque o filho do Raffaele Rossi, o Eduardo, nunca tinha ido naquele cinema. E por causa de uma das entrevistas que fizemos com ele, quisemos gravar uma lá naquelas poltronas antigas e vermelhas, e ele pisou no Cine Windsor pela primeira vez. Aquela sala tem um significado enorme. É linda, tem um aspecto antigo, tem camarote, como nos velhos tempos. Vai ser fascinante estar lá no dia exato em que se completam 30 anos da estreia. 

Apesar de sermos vistos lá fora como um povo liberal, nossa base moral e religiosa vem do cristianismo. Nesse trabalho de pesquisa, como foi fazer esse balanço conservador paradoxal com a indústria pornô nacional, que é uma das mais fortes no mundo?

Denise - Olha, se a gente se lembrar lá trás, quando a Igreja Católica era a senhora do mundo ocidental (por exemplo, na Idade Média, quando ela se afirma como religião do Estado), naquele momento a interferência na vida pessoal era absurda. O calendário litúrgico previa vários dias de abstinência sexual, isso entre os casados. Mesmo assim, com toda essa interferência na vida íntima do fiel, sempre existiu a pornografia, o sexo fora do casamento, a prostituição, a gravidez não planejada etc. A verdade é que o sexo foi sempre um instinto extremamente forte no ser humano, é um instinto animal. Só que a gente tem as convenções sociais que nos permitem segurar os impulsos. Focault (Michel, filósofo francês, que viveu entre 1926 e 1984)fala que justamente porque o sexo é fadado ao proibido existe uma curiosidade sobre o assunto. E falar sobre é considerado uma transgressão. Acho que este conflito entre curiosidade e moralismo vai existir para sempre. Os conservadores vão apontar o dedo e julgar o gênero. E os consumidores continuarão procurando meios de ter acesso à pornografia. 

Nos Estados Unidos e em outros países o cinema pornô tem espaço e reconhecimento diferentes daqui. Muitos atores são cultuados, recebem altos cachês e são premiados, já que existe celebração no meio. O que você atribui essa gigante diferença do nosso cinema pornô? Temos edição nacional do Erotika Video Awards e agora em maio tivemos a PopPorn, mas o cenário é bem diferente.

Denise - Olha, para ser sincera, acho que a pornografia está passando por uma crise mundial. De fato, nos EUA há um reconhecimento maior por causa da produção, do Porn Valley, mas a situação já não é tão boa. Os atores já não ganham tanto dinheiro. É claro que a situação no Brasil deve ser pior. Hoje as produtoras procuram meios de se reinventar porque a internet e a pirataria acabaram com o nicho. Os atores ganham pouquíssimo, então já não vale  mais a pena ser ator de filme pornô no Brasil. Claro, muitos fazem porque gostam, mas fora as cenas gravadas, eles têm outros meios de ganhar dinheiro. Acho que por mais que tenhamos estes eventos, ainda não é reconhecido como as premiações estrangeiras, mas são de extrema importância para estudar o assunto. O Pop Porn leva questionamentos e debates que são super interessantes, justamente, para entender este momento de crise que o gênero vem enfrentando.

                 

Hugo - Monica Mattos, por exemplo, ganhou lá fora o "Oscar" pornô. Mas não passou muito daí. O Rogê Ferro, que é o ator com o maior número de cenas adultas, tem planos de um filme a ser interpretado, dizem os jornais, pelo Malvino Salvador. Salvo essas e outras exceções, o cinema pornô brasileiro está em crise. O pornô americano tem boa produção e gravação e talvez seja isso que falta para o Brasil, ter profissionais para produzir um filme pornô de qualidade técnica. 

José Mojica disse que 'Coisas Eróticas' foi o início do fim.Você acha que o cinema pornô é transgressor, colabora para quebra de paradigmas, é uma expressão de arte ou que ele banaliza e explora as relações humanas (tendo em vista o seu início e a situação atual do cinema)?

Denise - Depende de qual período estamos analisando. Eu acho que o filme Império dos Sentidos é uma expressão de arte, porque é um filme belíssimo e muito bem feito, assim como tem a sua parte transgressora, pois existe todo aquele contexto político por trás. No caso do Coisas Eróticas, ele não é um filme bem feito, é um filme bem raso, mas a importância dele é muito mais histórica do que cinematográfica, justamente pelo que ele representou para o cinema e o contexto da época. Hoje em dia é difícil analisar os filmes pornográficos. Não tem mais história e necessidade de inovação nos aspectos técnicos. É tudo muito mecânico. E nós precisamos de um subtexto  para se excitar com o sexo. Por este lado, eu acho que os filmes atuais banalizam as relações humanas. 

Hugo - O Mojica estava certo quando disse que Coisas Eróticas era o início do fim porque o primeiro pornô realmente assassinou, sem dó nem piedade, o cinema paulistano de costumes. O cinema feito na rua, popular, que tinha como público os trabalhadores do próprio centro da cidade, foi atropelado pelo pornográfico. Depois de anos de chumbo, surge um filme pornô? As pessoas queriam mais é assistir. Daí, com o sucesso de Coisas Eróticas, os cinemas só queriam exibir filmes pornográficos. Foi transgressor nessa época. Derrubou o Conselho Superior de Censura. Foi lançado quatro meses depois de um discurso em que o presidente Figueiredo falava de uma batalha ferrenha contra os pornógrafos. É como se a Dilma dissesse hoje que lutaria com unhas e dentes contra o aborto, e daqui quatro meses abrisse uma clínica no meio do centro de São Paulo e fizesse 100 abortos por dia. E como se depois a presidente olhasse e falasse: "Ok, que continuem com isso". Porque foi isso que o Figueiredo fez. Disse que iria lutar, deixou passar o filme, foi um estouro e ele não teve mais o que fazer - ou não quis fazer. O filme pornô é transgressor. Uns dirão que é burro, bobo, enfadonho. Eu acho transgressor. As pessoas fazem sexo, furam bloqueios para estar ali, transando em frente às câmeras. Muitas vezes pra conseguir dinheiro, muitas vezes porque gostam mesmo é de sexo. Banaliza? Depende. O filme pornô convencional, como o conhecemos hoje, banaliza, sim, de certa forma. Mas uma cena explícita dentro de um filme não banaliza.

No livro se diz que Raffaele Rossi foi vítima de sua própria criação, já que após seu filme houve saturação no gênero. Essa é a visão dos produtores ainda vivos da Boca do Lixo? O videocassete não teria tido mais peso nessa mudança mercadológica? 

Denise - Os produtores acreditam que, no caso do Coisas Eróticas, o tiro saiu pela culatra. Veja bem, o Raffaele era considerado um cineasta medíocre, ele não tinha cuidado com as produções dele. Ele ficou famoso porque foi o primeiro diretor da Boca do Lixo que fez um filme pornográfico. Mas, depois que os exibidores começaram a exigir cenas explícitas em todos os filmes, os outros diretores, que eram mais cuidadosos, capricharam nas produções. Por exemplo, Oh, Rebuceteio, do Cláudio Cunha, que é um filme de sexo explícito muito bem feito e muito bonito. Então, o Raffaele não acompanhou essa modificação. Os filmes dele continuaram no mesmo patamar, tanto é que ele tentou repetir o sucesso lançando o Coisas Eróticas 2, mas naquela altura já não tinha motivos para o espectador assistir a um filme meia boca, se tinha produções muito melhores em cartaz. Quanto ao videocassete, acho que ele influenciou bastante para o início das salas especiais para o gênero, mas não interferiu na produção cinematográfica em si. Justamente, porque após o Coisas Eróticas, o cinema brasileiro ficou praticamente mergulhado em pornografia por quase dez anos. 

Hugo - Não acho que Coisas Eróticas em si saturou o gênero. Quem saturou foram os exibidores que, vendo o sucesso do primeiro pornô, obrigaram os cineastas da Boca a produzirem filmes com cenas de sexo explícito. O videocassete fez efeito, mas não foi a razão primordial nem de longe. As pessoas estavam cansadas, talvez, da Boca, que não se reinventava. A pornochanchada durou bastante tempo, assim como o pornô, e sem novidades o desgaste é inevitável. 

Denise, como foi para uma mulher ter de lidar com o tema? Como família e pessoas envolvidas na apuração lidaram com a sua presença em um ambiente tipicamente masculino?

Denise - Olha, na verdade foi bem tranquilo. Eu não sofri nenhum tipo de preconceito e é engraçado porque, na verdade, não é um ambiente tão masculino assim. Há muitas mulheres por trás da pornografia. Mas foi uma experiência interessante para romper os meus próprios preconceitos quanto ao tema. Antes de entrar na pesquisa, eu tinha uma imagem do gênero que é completamente oposta da realidade. Para mim, os atores eram todos drogados, era uma putaria infinita, todo mundo pegava todo mundo, que na verdade é o que todo mundo fala e supõe sobre essa indústria. E na verdade há um cuidado muito grande quanto a isso. Os atores com quem eu conversei não bebem, não fumam, são vegetarianos, se exercitam três horas diárias, todos os dias da semana, porque precisam cuidar do instrumento de trabalho deles, que é o corpo. Não estou dizendo que é uma área livre de problemas. É claro que sempre tem o cara que cheira antes de entrar em cena, a mulher que faz o trabalho escondido da família, mas eu acredito que não é nada tão diferente do que acontece em qualquer área. Graças a esse trabalho, eu fiz muitas amizades que eu prezo muito.

Do ponto de vista feminista, você acredita que as mulheres que têm uma postura sexual liberal são de fato livres ou são vítimas de um modelo machista que ainda explora a sua imagem? As atrizes são heroínas ou vítimas?

A pornografia atual é feita para homens. O exagero de closes vaginais e a falta de diálogos não deixam nenhum espaço para a imaginação, que é o que realmente pesa para uma mulher numa relação sexual. Mas, isso não quer dizer que a mulher não tenha curiosidade de assistir a um filme ou de procurar meios que a excite e é aí que surge o Feminist Porn, que são filmes dirigidos por mulheres, feitos para mulheres. A produtora de filmes pornográficos femininos e especialista em feminismo Erika Lusk escreveu um livro super interessante sobre o assunto, o Good Porn - A Woman´s Guide. Ela fala justamente sobre a necessidade de ter um cinema especializado para mulheres e ela defende que nós temos o direito de gostar destes filmes. As produções desse novo gênero são muito mais delicadas, e aproxima as personagens da realidade, fugindo daquela coisa pitoresca que geralmente é um filme convencional. Na minha opinião, as atrizes são heroínas. Elas não foram forçadas a entrar neste meio e, você ficaria assustada de saber quão alto é o número de atrizes que fazem isso porque gostam. Eu acho que é um cinema que sempre vai existir, procurando outros meios para se reinventar sempre, mas vai existir. Então, será necessário ter atrizes para isso. E acho que ter consciência disso e topar entrar neste meio requer muita coragem, segurança e amor próprio e, por isso, elas são heroínas.