Codinome Sabina

Sob esse apelido, a filósofa Julia Kristeva teria passado dados sobre intelectuais

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

14 Abril 2018 | 02h00

Ao ouvir seu marido dizer que ninguém conhecia Roland Barthes melhor do que ele, Julia respondeu, friamente: “Mas fui eu que o matei”.

Julia é Julia Kristeva e o marido, Philippe Sollers. Eram o Casal 20 da intelectualidade parisiense, como haviam sido Aragon-Elsa e Sartre-Simone. Casados desde 1967; ele francês; ela búlgara, radicada em Paris desde 1966. Ambos escrevem ensaios e romances; ela é a papisa da Teoria Literária e da linguística (mais) e da psicanálise e do feminismo (menos). Vários das três dezenas de livros que já publicou foram aqui editados pela Rocco.

Sollers pode ter conhecido Barthes como ninguém (a essa intimidade, aliás, dedicou um livro), mas Kristeva nada teve a ver com a morte do amigo, a despeito do que se lê na página 234 de Quem Matou Roland Barthes?, polar farsesco de Laurent Binet, há pouco traduzido pela Cia. das Letras, de onde extraí o diálogo que abre esta coluna.

Como é sabido, Barthes morreu atropelado. Na tarde de 25 de fevereiro de 1980, a caminhonete de uma lavanderia o pegou em cheio na rue des Écoles, em Paris. Recolhido a um hospital, morreu 29 dias depois. Por coincidência, o motorista da caminhonete era um búlgaro chamado Yvan Delahov. E que mal chega a ser um figurante na imaginosa e mordaz ficção de Binet, toda concentrada no petit monde intelectual do eixo Paris-Ithaca, ou seja, divinizado e ativo entre a Sorbonne e a Universidade de Cornell (Nova York): da patota da revista Tel Quel a Foucault, Lacan, Derrida, Althusser, Deleuze (outro que morre em circunstâncias diferentes), Eco, De Man, Jakobson - um elenco estelar de maîtres à penser como nunca se viu numa obra de ficção.

Quem a leu sabe que Kristeva consegue se mandar para Ithaca, com o beneplácito do presidente Giscard d’Estaing. Suspeito que, ao escrevê-la, uns quatro anos atrás, Binet já tivesse ouvido rumores sobre uma acusação real que ora perturba a vida - e, quem sabe, em breve, a reputação - da sra. Sollers. Apontaram-na como espiã do serviço secreto búlgaro, entre 1971 e 1973.

Com o codinome “Sabina”, Kristeva teria passado informações sobre as atividades dos intelectuais de seu círculo de amizades em Paris. Ao menos é o que revela um volumoso dossiê divulgado há duas semanas pela comissão encarregada pelo governo da Bulgária de rever os arquivos secretos do Comitê de Segurança do Estado do período comunista. Até seu suposto registro como agente emergiu no meio do papelório. Ela nega (“mentira deslavada”), repudia (“grotesco”), e a intelligentsia europeia duvida: “Ela sempre defendeu os ideais democráticos e se opôs a todas as formas de autoritarismo”, ressaltou um companheiro de muitas lutas políticas.

Ademais, em 1972 Kristeva assinou, com Sollers, um manifesto contra a invasão da Checoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia, publicado no Le Monde, gesto que deve ter convencido as autoridades búlgaras da inadequação de “Sabina” ao serviço, até então, diga-se, de pouca ou nenhuma valia. Só topara a missão para tirar seus pais da Bulgária, mas, espertamente, só repassava aos contatos da embaixada o que a imprensa já divulgara - e nunca assinou um documento. “Nada de relevante ela nos trouxe”, alegaram seus superiores, antes de dispensá-la.

Safou-se a tempo daquelas más companhias. Os agentes da Bulgária soviética não davam mole. Cinco anos depois de sua dispensa, um espião de verdade, o búlgaro Vladimir Kostov, foi atacado no metrô de Paris ao estilo Rosa Krebs, com um guarda-chuva com a ponta envenenada. Quem viu Moscou Contra 007 há de se lembrar da agente da Spectre Rosa Krebs.

Kristeva veio enriquecer a ala feminina dos escritores dublês de espião, as Mata Haris literárias, de que também fez parte a mestre-cuca americana Julia Child. Mas a profissão permanece um feudo masculino e sobretudo atraente para romancistas de intrigas de espionagem. Hemingway, dizem, espionou para os russos e, certamente, contra os nazistas. Só para os serviços de segurança britânicos trabalharam Graham Greene, George Orwell, Ian Fleming, Frederick Forsyth, John Le Carré e Roald Dahl. Peter Metthiessen, cofundador da Paris Review, ajudou a CIA.

A única contribuição brasileira a essa plêiade de informantes que chegou ao meu conhecimento foi o professor, jornalista, romancista e poeta de prodigiosa erudição Gerardo Mello Mourão, menos conhecido pelos elogios que lhe fez Ezra Pound do que pelo prestígio internacional de seu filho, o artista plástico Tunga. Empolgado na juventude pelo Integralismo, Mourão acabou detido várias vezes entre maio de 1938 (quando participou com os camisas-verdes do ataque ao Palácio Guanabara) e o fim do Estado Novo em 1945.

Três anos antes da queda de Vargas, foi acusado de colaborar com os nazistas e absurdamente condenado à pena de morte, punição reduzida a 30 anos de prisão e, na prática, a menos de 70 meses. Mais tarde eleito deputado, teve seu mandato cassado pela ditadura militar.

Seu maior erro, já sem a desculpa da empolgação juvenil, foi ter exigido publicamente, em sua coluna na Folha de S. Paulo, que o governo Geisel expulsasse ou não mais deixasse entrar no País o brasilianista Stanley Hilton, que, no livro Suástica Sobre o Brasil (Civilização Brasileira, 1977), expusera seu namorico com os agentes do 3.º Reich. Os amigos fizeram-lhe um jantar de desagravo. A Hilton nem um pedido formal de desculpa pela grosseria do poeta. 

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